espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Permanências e provisoriedades

Eis a dicotomia cruciante que se apresenta para o homem contemporâneo: a partir da segunda metade do século passado, ele acabou trocando o impermanente pelo novo, assim como o permanente pelo velho. Como consolo, eis-nos diante da telinha bigbrotherana, vendo passar esses objetos de desejo chamados de permanências, mas ainda loucos pelos quinze minutos de fama preditos por Warhol. Mas esta, longe de nos revelar (principalmente para nós mesmos), faz com que cada vez mais percamos o sentido do permanente, de tão provisórios que nós mesmos nos tornamos.


Thumbnail image for ronald-stamp.jpg Eis a dicotomia cruciante que se apresenta para o homem contemporâneo. Homem este que, a partir do século passado desandou a conquistar tudo e a todos a qualquer preço – escravo que se tornou desse atual sistema – que acabou perdendo o sentido dessas duas palavras, no que diz respeito a divisar o viver de apenas existir.

Nessa louca corrida pela produção e riqueza a qualquer custo, intensificada a partir da segunda metade do século passado, ele acabou trocando o impermanente pelo novo, assim como o permanente pelo velho.

Assim, bens e objetos permanentes como espaço, silêncio e tempo, considerados nesse período como provisoriedades, foram deixados de lado por décadas, mas que agora voltam, com a carga toda, a ser alvos de desejo de uso e sonho de consumo desse mesmo homem.

Quanto ao primeiro, antes, vivia-se ou em fazendas e chácaras ou em casas, num tempo em que as cidades ainda possuíam terrenos. Hoje, vivemos mais que engaiolados, se não em apartamentos, em lares onde o espaço é mínimo e, terreiros, só em sonhos.

O silêncio, esse praticamente virou um mito. É tanto barulho que já não ouvimos muito bem o próximo, muito menos a nós mesmos. E dá-lhe barulho principalmente através da música, esta que não pode ser ouvida em baixo volume, mas tem que ser em alto e tonitruante som, como se quiséssemos abafar a vozinha interior que ainda sobrevive em nós, mas que a estamos matando dia-a-dia. Voz esta que parece gritar pela volta desses bens e objetos.

Já o tempo, quem dispõe dele nesse século? Porque, em geral, vivemos apressados e corrediços, competidores que estamos para ver quem vai vencer essa corrida chamada civilização que, ironicamente, não tem qualquer sentido civilizatório. Vide tantas pessoas surtadas, neuróticas ou portadoras de tantas doenças novas.

Como consolo, eis-nos diante da telinha bigbrotherana, vendo passar esses objetos de desejo chamados de permanências, mas ainda loucos pelos quinze minutos de fama preditos por Warhol. Mas esta, longe de nos revelar (principalmente para nós mesmos), faz com que cada vez mais percamos o sentido do permanente, de tão provisórios que nós mesmos nos tornamos.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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