espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Entre o Mcpoema e o insight só a iconoclastia pode nos salvar

Os poetas contemporâneos escrevem com urgência o cultivo do ego e, quando muito, somente para afastar o tédio. Esquecem eles das crises públicas, ou seja, das guerras, dos colapsos econômicos e da destruição ambiental em todo o planeta. Agarram-se a uma tábua de salvação chamada de ‘voz singular’ que, no final, só faz eco entre sua caixa torácica e o seu abdômem. Pensam eles que apenas um insight, um trocadilho ligeiro, ou uma rima rasteira salvam o poema.


ilustra-mc.png “Somos a primeira geração de poetas que não estuda latim e não lê Dante em italiano. Daí a insignificância da nossa sintaxe sofrível e do nosso vocabulário limitado”. Inicio esta crônica com esta reveladora frase acerca de quantas andas a qualidade dos poemas disparados à esmo e em gigantesca quantidade nos sites, blogs e, principalmente, nas mídias sociais da internet.

A máxima é de autoria de Donald Hall, 86, citada no artigo “Críticos decretam fim da poesia americana”, publicado há mais de um ano. Sua disposição aqui é para ver se ela também não é pertinente à atual situação do panorama literário brasileiro.

O artigo aponta que segundo críticos norteamericanos os culpados seriam os workshops de literatura e a crescente onda de uma geração cada vez mais interessada no cultivo do ego em detrimento das questões sociais, via especialmente das diversas e variadas ferramentas da rede mundial de computadores.

Se não, vejamos mais um pouco do que disse Hall: “Muitos desses poemas são com frequencia legíveis, charmosos, engraçados, comoventes, até inteligentes. Mas, breves, assemelham-se uns aos outros, não transcendem a si mesmos, não fazem grandes reivindicações, eles associam coisas pequenas a coisas pequenas.” E não é isso o que estamos vendo às enxurradas por aqui, tanto física, quanto digitalmente?

O caso mais atual é o de um escritor que, após inundar uma rede social com seus poemetos (ou seriam apenas frases?) acabou sendo escolhido por uma editora de renome nacional. (Não cito os nomes dos bois porque não quero engordar boiada dos outros ou, no mínimo, sigo uma velha lição que se aprende no jornalismo). Sim, porque daqui a dez, trinta, cinquenta anos, quem vai se lembrar desse autor?

Na sua crítica mordaz às oficinas de escrita criativa, como ficaram por aqui conhecidas e que também já viraram praga, Hall não economiza: “São poemas tão instantâneos quanto um pó de café ou uma mistura de sopa de cebola”. Fechando com chave de ouro quando os denomina ironicamente de Mcpoemas, devido à sua massificação.

Outro que compartilha a opinião de Hall é o professor da Universidade da Virgína, Mark Edmundson. “Eles não matam a sede dos leitores por sentidos que ultrapassem a experiência individual do autor e iluminem o mundo que temos em comum”, decretou. Edmundson nomina os escritores atuais da cena norteamericana como “narcisistas”, “dissimulados”, “tímidos”, “triviais” e “alienados”, referindo-se a poetas como Sharon Olds, Mary Oliver, Charles Simic, Frank Bidart, Robert Hass e Robert Pinsky.

A propósito, José Castelo, que tem coluna no “Rascunho”, há cerca de um ano escreveu um artigo com esse mote, batizando-os de poetas menores e inclusive cita Simic como o autor que trouxe isso à tona ainda na década de 80 do século passado. Artigo este que me incitou a uma discordância de Castelo, o que fiz por meio da crônica “Poemas demais, poesia de menos”, quando afirmei que não existem poetas maiores ou menores, mas sim, poemas bons e poemas ruins. Porque, ao final, penso que a obra deve ser maior do que o seu autor e não o contrário, como estamos acostumados a ver nas mass medias.

Mas voltando a Hall e Edmundson, segundo eles as oficinas são as culpadas devido às suas características repetitivas da poesia contemporânea, fenômeno que se consolidou depois da Segunda Guerra Mundial. Oficinas estas em que a sua prática principal é a exposição às críticas dos colegas, de versos de aspirantes a poeta feitos em curto prazo.

Contextualizando, tanto lá como cá, percebe-se a falta de um lastro cultural. No Brasil, quem vai discordar que um curso ginasial das décadas de 60 ou 70 do último século dá de dez a zero num curso superior atual? Eu mesmo sofro bastante com isso. Trago um buraco cultural n’alma, nordestino criado no centro-Oeste e Norte, apesar de ter sentado por quatro anos para cursar uma academia. Porque a gente não escolhe ser poeta. E não nos agrada pensar que somos um poeta ruim, um poeta pequeno.

A que se considerar nesse quadro o descrescente investimento nas ciências humanas – também tanto lá, como cá ¬– em face do crescente investimento em ciências mercadológicas, aquelas que vão nos oportunizar um espaço no mercado de trabalho.

Os poetas contemporâneos escrevem com urgência o cultivo do ego e, quando muito, somente para afastar o tédio. Esquecem eles das crises públicas, ou seja, das guerras, dos colapsos econômicos e da destruição ambiental em todo o planeta. Agarram-se a uma tábua de salvação chamada de ‘voz singular’ que, no final, só faz eco entre sua caixa torácica e o seu abdômem. Pensam eles que apenas um insight, um trocadilho ligeiro, ou uma rima rasteira salvam o poema.

Eu, danadamente, estou nesse meio. Tento tapar esse buraco intelectual com a leitura atrasada e às cegas dos clássicos ou, no mínimo, dos bons e verdadeiros escritores nacionais e internacionais. Mas sei que a empreitada é sisifiana. Porque ambos os críticos norteamericanos afirmam que é hora dos poetas reivindicarem as suas relevâncias social, histórica e cultural. E que, para tanto, têm de se afastar dos seus iguais. Tendo para isso como única via a saída das redes sociais que, segundo eles, aniquilam a iconoclastia.

E eu, pretenso iconoclasta, ainda sigo praticando poemetos, arriscando rimas rasteiras, faiscando pequenos insights e me permitindo trocadilhos baratos. E longe do que preconizou T.S. Eliot, quando disse “Quanto mais perfeito o artista, mais completamente separado ele será do homem que sofre e da mente que cria”. Ao final, só Borges para me salvar, porque, como ele, “não tenho vocação de iconoclasta”.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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