espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Um Trovador entre o Som e o Sonho (ou, o dia em que Belchior voltou a ser Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)

O bardo tupiniquim deu pistas do que faria antes que a velhice completa lhe arrudiasse. É só assuntar bem nas suas letras ao longo de cinco décadas de uma carreira musical não celebrizada a se olhar pelo filtro do infecto tubo – seria agora acachapante byte? – mas, incontestavelmente exitosa em se tratando de um pensador nordestino que insistiu em melodiar seus críticos e agudos pensamentos. Porque transformar Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes em Belchior de um dia para o outro não é para qualquer um. Mas, sim, Belchior, ao longo da sua discografia deixou pistas de que um dia pediria pro mundo parar para ele descer. E ele o fez.


13336395_1098104133562413_429479897_n.jpg “...Das questões mais humanas da vida faz sua escritura,/tom desesperado, filosófico e irrotulável, sua propositura,/letras imensas, sugestões semiconcretistas é o seu forte./Cantar um som pop com dose de brasilidade é seu norte,/sobre a juventude, o tempo, o modismo, a vida e a morte,/Belchior, cavaleiro e trovador tropical da dylanesca figura...”

O bardo tupiniquim deu pistas do que faria antes que a velhice completa lhe arrudiasse. É só assuntar bem nas suas letras ao longo de cinco décadas de uma carreira musical não celebrizada a se olhar pelo filtro do infecto tubo – seria agora acachapante byte? – mas, incontestavelmente exitosa em se tratando de um pensador nordestino que insistiu em melodiar seus críticos e agudos pensamentos.

Porque transformar Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes em Belchior de um dia para o outro não é para qualquer um. Do jovem que abandonou o curso de medicina em Fortaleza, no Ceará, integrou o grupo de intelectuais e artistas cearenses que, nos anos 1970 ficou conhecido como “Pessoal do Ceará”, e zarpou rumo ao sudeste para ser “apenas um rapaz latinoamericano,/sem dinheiro no banco, sem parentes importantes/e vindo do interior”, sua trajetória é, no mínimo, singular.

Mas, sim, Belchior, ao longo da sua discografia deixou pistas de que um dia pediria pro mundo parar para ele descer. E ele o fez. E falando na sua obra, penso, na minha insignificante opinião, que ela ainda não foi totalmente digerida pela crítica musical brasileira. (Alguém vai indagar: crítica musical, o que é isso? É de comer ou de passar no cabelo?)

Vamos pegar o fio da missanga líteromusical que ele engendrou ao longo do tempo. Eis o bardo no início da cantoria nas terras do Sul, distante do seu torrão natal: “Já que o tempo fez-te a graça de visitares o Norte,/leva notícias de mim. Diz àqueles da província/que já me viste a perigo: na cidade grande enfim./Conta aos amigos doutores que abandonei a escola/pra cantar em cabaré, baiões, bárbaros, baihunos,/com a mesma dura ternura que aprendi na estrada e em Che”. O senso de não-pertencimento se inicia.

E aqui começam as ruminações que somariam para a sua invisibilidade cerca de 50 anos depois: “Ah! Metrópole violenta que extermina os miseráveis, negros párias, teus meninos!/Mais uma estação no inferno, Babilônia, Dante eterno!/Há Minas? Outros destinos?” Sua veia socialista pulsava, na vontade uníssona da América Grande se libertar do subjugo do Leviatã ocidental.

No Sul, o olhar analítico se escangalha amofinado diante das fontes da riqueza do coração, ops, do capital selvagem: “São mil milhões de habitantes deste parque industrial: negros, mulheres, menores filhos da crise geral,/iguais pela mesma bomba que vai cair no quintal”. E a bomba não continua a cair, todos os dias, no quintal de nosotros, massa de invisíveis sociais?

Seguindo sua sina nas cantorias sulinas e depois por praticamente todas as regiões do Brasil, sua angústia e medo das grandes cidades se arriminavam dentro dele. “Oh! Brilho cruel dos trilhos, do trem que sai do sertão/e acreditou no sonho da cidade grande/e enfim se mandou um dia”.

Mesmo sentindo e percebendo as agruras do Sistema, não abria mão da tarefa que lhe coube nessa terra sempre tão carnavalescamente desolada: animar mentes e corações pro novo, pro mito, pra utopia, estruturas transparentes e translúcidas que sustentam o edifício de peles e ossos de milhões de seres. “Quem mora no Oriente não vai se incomodar/Ao ver que no Ocidente a estrela quer passar./Não há mais abandono nem reino de ninguém./Se a terra já tem dono, o céu ainda não tem.” Sua maneira cabralina de cantar contra o latifúndio, um dos meios de enriquecimento material ilícito dos homens, tão onipresente na sua origem nordestina.

Nesse ínterim, não deixava de arreparar ao seu redor, dentro, fora, acima, os passos dos seus iguais que conseguiram seu quinhão. “Hoje eu sei que quem deu me deu a idéia de uma nova consciência e juventude/está em casa guardado por Deus contando vil metal/minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos/ Nós ainda somos os mesmos e vivemos/ainda somos os mesmos e vivemos/como os nossos pais.”

Grande leitor, já sabia por então que casas são túmulos para os vivos, conforme cantou outro poeta. “Esta casa não tem lá fora/a casa não tem lá dentro/três cadeiras de madeiras/uma sala, a mesa ao centro.” Como a dizer que a vida humana é que deve ser o centro do homem e que a sua verdadeira morada não é só o que está no interior e no exterior, mas o todo. Holística visão num tempo em que essa palavra ainda engatinhava nas academias.

Antena da raça – como Pound denominou os verdadeiros artistas – captava com compaixão as dores dos seus iguais. “A minha história é... talvez/é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte/que no sul viveu na rua/e que andou desnorteado, como é comum no seu tempo/e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo/e que ficou apaixonado e violento como você.” As relações humanas sempre presentes na sua obra, faca cortante diária e dura do viver a dois. “No centro da sala, diante da mesa/no fundo do prato, comida e tristeza/a gente se olha, se toca e se cala/e se desentende no instante em que fala.” A palavra não dita que mata-nos de forma lenta e sufocante na eterna falta da humana comunicação.

Outra ponta de desilusão com o status quo veio com essas ironias descoladas: “Os filhos de Bob Dylan, clientes da coca cola/os que fugimos da escola/voltamos todos pra casa/um queria mandar brasa/outro ser pedra que rola/daí o Money entra em cena e arrasa”.

Mas seguia na contramão dos bossais tropicais. “Certo! Perdeste o senso/e eu vos direi no entanto/enquanto houver espaço, corpo/tempo e algum modo de dizer não, eu canto”. Lançando severas críticas aos seus iguais que, com história semelhante, desbundaram nos plim-plins. Soube, como ninguém, esconder o espelho de seu Narciso.

Por vezes, seu desapontamento e desânimo para com os seus contemporâneos afloravam: “Perdão, que perdi o pique/mas se a vida é um piquenique/basta o herói de butique/dos chiques profissionais”. Escancarando a velha prática da cooptação de talentos que o sistemão usa mão para adestrar gerações inteiras. Receitinha milenar e maquiavélica seguida até hoje. Pode assuntar aí no seu estado, na sua cidade.

Na sua ruminação inteligente, a crítica aliada à ironia era uma das armas. “Mamãe quando eu crescer/eu quero ser adolescente/no planeta juventude/haverá vida inteligente?” Não cansava de indagar, de incitar, de provocar a juventude, para ele, fator primordial para que houvesse uma verdadeira revolução social no país e no mundo. E a juventude tinha e tem papel preponderante nessa tarefa.

Sobre a realidade social brasileira deixou muita coisa. Com fina ironia, revelou o futuro congelado na mesmice barroca com ganas futuristas dos brasileiros, mas sempre presos ao sebastianismo português: sempre à espera de um salvador da pátria. ”Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do país/e um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado”.

No jogo psicológico de ser e de estar, começou a questionar sua profissão de fé, sua missão: “Transito entre dois lados de um lado/eu gosto de opostos/exponho o meu modo, me mostro/eu canto pra quem?” E aqui fica evidente que a sua obra não estava sendo digerida pela massa. Sequer pela crítica.

Aqui, mais uma pista de que, mesmo posando-se de artista famoso, matinha interiormente sua necessidade de manter a rebeldia intacta: “Por favor, não confunda as coisas! Toda a canção é vulgar!/Eu é que sou um cara difícil de domesticar”.

Conhecedor dos cânceres que devoram a pátria brasilis, sequer a tradicional igreja católica apostólica romana foi poupada na sua obra, arrebocada das suas derivativas oriundas das reformas de Calvino e Lutero. “Um povo atrasado/500 anos e que continua/usando o nome de Cristo em vão/nossa festa acabou antes de começar”. Ele, que estudou em colégio de padres.

“Eu era alegre como um rio/um bicho, um bando de pardais/como um galo, quando havia/quando havia galos, noites e quintais/mas veio o tempo negro e a força fez/comigo o mal que a força sempre faz/não sou feliz, mas não sou mudo/hoje eu canto muito mais”. No seu confronto diário entre o ser humano e o artista Belchior, ele começou a ver que toda força tem seu preço. E entregou seu descontentamento.

Porque, para ele, a história se repete. Nietzscheniano retorno imponderável. “Era uma vez um homem e seu tempo/botas de sangue nas roupas de Lorca/olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca.”

Pragmático e extremamente lúcido, seguia solitário o itinerário dos loucos bons e descontentes, denunciando sempre as mazelas da sociedade. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria/em nenhuma fantasia, nem no algo mais/a minha alucinação é suportar o dia-a-dia/e meu delírio é a experiência com coisas reais”.

O trovador tupiniquim melancolicamente tropical cuspia seu desespero com os rumos do país ainda nos anos 1970. “Que esse teu desespero foi moda em 76/eu quero é que esse canto torto feito faca/corte a carne de vocês”. E cantou o Brasil e suas acefalias tão presentes ainda hoje em dia: “Nesta terra de doutores, magníficos reitores, leva-se a sério a comédia!/A musa-pomba do Espírito Santo - e não o bem comum! - Inspira o bispo e o Governante./Velhos católicos, políticos jovens, senhoras de idade média,/- sem pecado abaixo do Equador - fazem falta e inveja ao inferno de Dante”. Atual, não?

Autor de clássicos e verdadeiros standards da música popular brasileira, seu esgotamento dava sinais em canções como essa:“Não quero regra nem nada/e a única forma que pode ser norma/é nenhuma regra ter/é nunca fazer nada que o mestre mandar/sempre desobedecer/nunca reverenciar”.

Compositor vanguardista, provocador nato, com uma intelectualidade acima da média entre os seus, não hesitava em sua irônica acidez. “Você que é muito vivo/me diga qual é o novo”. Mas não abria mão de sua privacidade. “Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão/o meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver/e esse jeito de deixar sempre de lado a certeza/e arriscar tudo de novo com paixão/andar caminho errado pela simples alegria de ser”.

Sempre além das xenofobias rasteiras, namorava constantemente com a melodia das palavras, fossem elas, inglesas, francesas, espanholas. Como um verdadeiro artista, além do seu tempo, além dos seus. E, numa delas, entregou-nos seu sonho morto: “I have a dream... My dream is over!”

As mensagens da sua intenção em abandonar esse mundo, criado e controlado por uma minoria escravocrata e sádica, continuavam em suas letras. “Quero desejar, antes do fim/pra mim e os meus amigos/muito amor e tudo mais/que fiquem sempre jovens/...Não tomem cuidado comigo/viver é que é o grande perigo”.

“Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho/deixem que eu decida a minha vida/não preciso que me digam de que lado nasce o sol”. Como alguém que escreve isso poderia aceitar qualquer tipo de cabresto? Não, não Belchior.

Por fim, ele desapareceu. Tornou-se um Tolstoi da caatinga, do mundo. Um cavaleiro andante e errante (mesmo que alguns o taxem de triste figura por causa desse seu penúltimo ato nesse teatro de vampiros), porque nunca esqueceu – e parece que o tinha cravado na pele – do verso mais forte e definitivo do parceiro que ele cravou: “A felicidade é uma arma quente”


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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