espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Flores na Lixeira

É sábado. Onze e pouco da manhã do dia 17 de dezembro do ano dois mil e dezesseis do nascimento da culpa católica. Saio da 405 Norte, em Palmas, Tocantins, uma Brasília gestada nos anos 2000 mas com cara de 77, devido a tantos vícios e velhacarias, urbanas e culturais. Entro na quadra do hermano quando os primeiros pingos desabam e, numa esquina, avisto uma lixeira comum. Mas, dentro dela, algo me chama a atenção. Dou seta, encosto, desligo o carro. Saco a câmera fotográfica digital, desço e, com ela em punho, disparo vários clicks no alvo: um buquê de rosas já um pouco envelhecido ornava aquele utensílio tão doméstico. Catador de coisas ao rés do chão, não me passa outra coisa na cabeça: as indagas de como e porque aquele ramalhete foi parar ali, naquele lugar último da dita civilidade cosmopolita. Sociedade esta que se esquece, geralmente, de outra camada social que sobrevive daquilo e, em contrapartida, nos devolve a vida.


15442395_1132022356917922_2619261691394826059_n.jpg É sábado. Onze e pouco da manhã do dia 17 de dezembro do ano dois mil e dezesseis do nascimento da culpa católica. Saio da 405 Norte, em Palmas, Tocantins, uma Brasília gestada nos anos 2000 mas com cara de 77, devido a tantos vícios e velhacarias, urbanas e culturais. O céu tá nublado. Promessa de chuva e recolhimento. Mas, morador solitário por força da sobrevivência, rumo pra casa de um irmão na antiga 41. Missão: sarrar um rango.

Sem trabalho formal na pauta do dia, resta catar os cacos de esperança em um país melhor, apesar dos noticiários e redes sociais vomitarem constantemente, casos de corrupção do dinheiro público, aqui e ali, do Oiapoque ao Chuí, diga-se! E nossos legisladores continuarem a dobrar seus salários intergaláticos. Virou praxe nas câmaras dezembrinas. Essa conta é nossa.

Entro na quadra do hermano quando os primeiros pingos desabam e, numa esquina, avisto uma lixeira comum. Mas, dentro dela, algo me chama a atenção. Dou seta, encosto, desligo o carro. Saco a câmera fotográfica digital, desço e, com ela em punho, disparo vários clicks no alvo: um buquê de rosas já um pouco envelhecido ornava aquele utensílio tão doméstico.

Catador de coisas ao rés do chão, não me passa outra coisa na cabeça: as indagas de como e porque aquele ramalhete foi parar ali, naquele lugar último da dita civilidade cosmopolita. Sociedade esta que se esquece, geralmente, de outra camada social que sobrevive daquilo e, em contrapartida, nos devolve a vida.

As questões são muitas, várias. E adensam minha cabeça apesar da fome que já urra dentro de mim. Volto pro carro e chego à casa da minha caçada urbana da vez. Irmão, cunhada, sobrinhos, cachorros e minha mãe, guerreira cearense que nos cravou da importância das coisas simples. Conversas triviais, novidades velhas de família, e arremedos de possibilidades. Todos almoçam enquanto a chuva desce. Mansa e indiferente aos nossos desejos sabáticos. Um dos sobrinhos, por exemplo, doido para ir para a chácara na beira do lago – de propriedade de um outro irmão – buscar um tucuna.

Volto pra minha urbana rancharia. O trajeto é o mesmo: quadras que parecem xerografadas e rotatórias comedoras de pneus. A idéia da crônica se agiganta. Primeiro, a autoria do gesto: foi uma mulher, qualquer um já sentenciaria. Mas, e se foi alguém do sexo masculino e que não grita sua macheza como a ordem pede? É uma. Mas fiquemos com a primeira hipótese, encalacrados que estamos de sermos secularmente católicos apostólicos romanos.

As indagas flamejam no meu cérebro. Se foi uma jovem, que em recém namoro, o pretendente, príncipe bonito montado num cavalo branco, fez merda. Não aguentou a febre hormonal da juventude e galinhou. Flor bonita não limpa merda. Eis o buquê na lixeira.

Ou uma mulher nem tão jovem, na casa dos vinte e poucos anos, já quase balzaquiana. O namorado tinha prometido levá-la num programa a dois e aquele, diante dos colegas de trabalho, não conseguiu dizer não. Rumou prum barzinho pra festejar as boçalidades das amizades funcionais. Como fachada, a confraternização de final de ano entre os iguais sempre tão desiguais. As flores no dia seguinte não adiantaram. Lixeira nelas.

Poderia ser aquela já noiva, balzaca mesmo, doida pra casar e começar a serpente da vida: filhos e netos. O noivo, já naquele relacionamento mais cheio de rotina do que de novidades, esqueceu mais uma vez – de várias – de um compromisso e foi jogar sinuca com os parças, pra botar a testosterona em dia. A lixeira fora premiada. Flor nela.

Poderia aqui, desmembrar várias outras possibilidades p’ressas flores na lixeira. Mas encerro imaginando o gari ou a gari que as vai recolher. Ele ou ela também na certa se indagará o que motivou tal ato. E sendo mulher, imagino a sua cara diante daquele buquê. Será que ela já ganhou algum igual na vida? Na sua conformada existência, fica pensando quando ganhará um buquê desses.

Cronicar é chafurdar na lama social. Porque o cronista sabe que, da lama mais fétida, pode nascer a flor mais asséptica e linda. Mas a flor, com a sua natureza efêmera, nos diz que amanhã outro buquê será ofertado e mais outro será negado, revelando na transitoriedade da sua existência, o cordão também transitório e efêmero do humano relacionamento, transmutado no eterno binômio amor/ilusão. E, por fim, que as flores na lixeira no mínimo a dignificam.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
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