espantalho lírico

serviçal do inutilitarismo e do inecessário

ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe
que sangrar
é a parte que me cabe...


Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia.

Hilda Hidra Hilst

Estou em Campinas, interior de São Paulo. Chego à Casa do Sol, fazenda na qual Hilda Hilst viveu durante quase toda a sua vida. Em uma reclusão monástica, cercada de bichos – cachorros, de 70 prá lá – e árvores. Preciso lhe fazer uma pergunta. Mas a sua formulação é tão difícil que, me vejo ela, tentando entender, aqui, antes, durante e sempre, por que não era lida em vida. Estou há cerca de 30 passos dela. Um insight me desmonta e paro: Hilda não escreveu para o mundo, para a crítica. Não queria ser lida por ninguém. Decidido, disparo: – Hilda, vim aqui para te fazer uma pergunta, mas esta chegou há pouco pra mim. Escrevestes para um único e impossível leitor: teu pai. Ela me encara com olhos de alívio, baixa a cabeça sobre as mãos na mesa e desaba em choro. Levanto e saio. Não sem antes ver ali apenas a menina que queria mostrar pro seu pai que também era uma poeta.


Estou em Campinas, interior de São Paulo. Chego à Casa do Sol, fazenda na qual Hilda Hilst viveu durante quase toda a sua vida. Em uma reclusão monástica, cercada de bichos – cachorros, de 70 prá lá – e árvores. Esses seres centenários encantados. Essas entidades que quase nenhum de nós consegue decifrá-las ao longo da nossa curta existência. Preciso lhe fazer uma pergunta. Mas a sua formulação é tão difícil que, me vejo ela, tentando entender, aqui, antes, durante e sempre, por que não era lida em vida. Ainda mais agora quando o maior prêmio literário mundial cai nas mãos de um cantor e compositor de folk e rock norte americanos. Ela que era sonhadora do Nobel. Mas tem Dylan no sobrenome, penso. E me agarro nessa pequena saída estratégica pela esquerda. Ou seria pela direita? Não sei. Como tudo na vida, parece sempre nos faltar uma terceira via como opção.

Li muito ela e sobre ela. Já a vejo com a faca entredentes. Também, pudera! Uma mulher que no auge da sua juventude teve o mundo a seus pés. Noitadas de gala e sexo e álcool na São Paulo louca dos anos 1950 e 1960. Viagens e porres internacionais. Namoro com Dean Martin pra tentar pegar Marlon Brando, o enfant terrible da época. E quando o surpreendeu em um hotel, Brando estava noutra. Ou melhor, noutro.

Foi mulher do mundo em um tempo em que não era propício sê-la. Viajou pela Europa, Itália, Grécia, França', freqüentando castelos, banquetes, cassinos e salões reservados. Esteve entre grã-finos, em rodas elegantes, mas também entre a juventude transviada. Participou ainda de festas secretas e de encontros de artistas de vanguarda. Soube se retirar a tempo, quando sua beleza começou a se desvanecer.

Por volta dos 35 anos largou o barulho e as loucuras da cidade grande pelo sossego e a jeguice da zona rural. De tanto compreender, de tanto sentir, só o seu lado sertanejo pra fazê-la suportar os gritos urbanos e depois conduzi-la pro remanso tranqüilo da vida bovina no campo. Achava que ser ruminante cosmopolita era demais para sua sensibilidade. Portava um desconforto vivencial cotidiano diante do mundo e dos problemas dos outros.

Uma esteta que se insere na tradição dos poetas platônicos. De uma vertente místico-metafísica na sua lírica. Questionadora dos enigmas humanos, mas sempre com apreço pelas fontes puras da trovadoresca lírica medieval portuguesa, pontuada por uma herança simbolista. Ao longo da vida publicou cerca de cinquenta livros. Suas obras mereceram críticas elogiosas. Teve traduções no exterior e recebeu prêmios de prestígio. E, quando, indagada sobre o futuro da poesia, vaticinou que ela existirá sempre. E foi sua testemunha fiel até o fim.

Densa, intensa, tensa diante do mundo e suas perguntas irrespondíveis. Um mundo que definiu como notavelmente paradoxal e cruel. E procurou ficar perto de Deus, para ela, executor de tudo. O qual nominava variada e desbragadamente: Cara Escura, Sorvete Almiscarado, O Obscuro, O Sem Nome. Viu que tinha que se calar para escutar o silêncio da vida, já que o seu tronitruante barulho interior lhe atordoava.

Chego quase no final da tarde de um dia quente de verão paulistano. Ela está sentada junto a uma mesa rústica de madeira, sob a copa de uma das árvores do sítio, uma vistosa figueira. Cabelos levemente desgrenhados, trajando sua indefectível bata de maga. Não mão direita, um movimento constante – mas de intervalos cronometradamente regulares – de levantar e abaixar o braço revela o seu companheiro inseparável ao longo dos anos, o seu vício-mor: o cigarro. Seu semblante, mesmo de longe diviso. Não se mostra alterado. Aliás, indiferente se mantém à medida que avanço ao seu encontro.

Antes de alcançá-la, não sei por que, me lembro de ter lido que ela recebeu um não que foi definitivo para o seu destino. Ao nascer, ao saber que era uma menina, seu pai teria dito: - que azar! Então, de repente, a ficha me cai! Hilda Hilst edipiana que sempre foi, nunca superou esse não paterno, essa negativa do seu primeiro e único amor.

São poucos segundos, que me separam dela. Mas mesmo assim, ainda tento digerir a queda dessa ficha. Autora prolífica e versátil, apesar do seu estilo confessional, entendo porque nunca barateou sua expressão por temer ser incompreendida ou rejeitada. E entendo também a sua platônica escrita. A sua grande rejeição já tinha se dado e a marcaria pelo resto da vida. Por isso, em toda a sua obra, tentou falar desse seu roteiro tortuoso que tinha dentro de si, em que fez de tudo para se exprimir, para se irmanar, e ela não conseguiu. E a negação da sua feminilidade nos seus escritos também se evidenciou em mim agora.

Seu pai era um homem bonito, poeta e fazendeiro, mas acabou num sanatório, esquizofrênico e paranóico, quando ela tinha apenas três anos de idade. Ela começou a visitá-lo quanto tinha 16 anos. E ele não era o pai idealizado, belo, eternizado nas fotografias, mas um ser humano na exaustão, magro, acabado e, o que era pior, com outra persona dentro de si.

E me lembro que numa entrevista ela chegou a revelar que passou a vida alimentando apenas um único desejo: encontrar um homem parecido com ele. Passou sua existência catando pedaços do pai nos homens que conhecera, na ilusão de construí-lo inteiro dentro de si. Nessa louca procura, achava que uns tinham as mãos parecidas, outros, um olhar. Estava cega e imersa na busca desabalada e infrutífera a que se propusera. E o mais louco: tinha plena consciência disso.

Mesmo chegando a morar por anos com alguns, nunca quisera ter filhos. Os médicos a haviam alertado que a loucura do pai era de origem genética e que, geralmente, pula uma geração para cair na próxima. Ao menos da loucura ela não pereceria.

Estou há cerca de 30 passos dela. Um insight me desmonta e paro: Hilda não escreveu para o mundo, para a crítica. Não queria ser lida por ninguém. E uns versos dela me vêm à memória para confirmar isso. “Costuro o infinito sobre o peito e no entanto sou água amarga e fugidia”. Sim, ela sempre fugiu dos homens com quem conviveu, depois de passado o encanto inaugural dos corpos. “E por que haverias de querer minha alma na tua cama... Nem omiti que a alma está além, buscando aquele Outro”. “De nunca te tocar, tocando os outros”. O corpo do pai, intocável, inatingível, mas presente, sempre.

Me aproximo. Ela se levanta educadamente e me estende a mão já com os olhos embaçados. Apresento-me inutilmente. Ela já sabia quem eu era e a que vinha. Sento-me ao seu lado. Somos dois estranhos, calados por alguns instantes. Decidido, disparo: – Hilda, vim aqui para te fazer uma pergunta, mas esta chegou há pouco pra mim. Escrevestes para um único e impossível leitor: teu pai. Ela me encara com olhos de alívio, baixa a cabeça sobre as mãos na mesa e desaba em choro. Levanto e saio. Não sem antes ver ali apenas a menina que queria mostrar pro seu pai que também era uma poeta. Saldo da cena: desmonto Hilda, mas quem sai escangalhado sou eu.

Mas na sua busca final, íntima, desesperada e definitiva, ela cumpriu à risca a regra número um da literatura. Nunca mentiu nos seus escritos. E só suportou a vida pela mistificação da sua poesia refletida no pai. A presença dele como uma esfinge onipresente. Da qual, ela se deixou devorar.


ronaldo coelho teixeira

...porque o sabre sabe que sangrar é a parte que me cabe... Escritor e jornalista, mas acredita que o jornalismo tem sido a moeda de troca mais barata depois da poesia..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //ronaldo coelho teixeira
Site Meter