esquina do Óbvio

Porque a genialidade está à esquina do óbvio

Gerson Avillez

Fotógrafo e homem da prática de letras nas horas vagas, teólogo e pedagogo por formação, filósofo autodidata e por vocação. Descendente direto do Tenente-General Jorge Avillez, portador da Síndrome de Aspeger, trabalhou em eventos culturais nas Lonas Culturais no Rio (2002) onde produziu e fotografou, tendo fotos publicadas em jornais do Rio de Janeiro. Posteriormente trabalhou na Rede Globo como fiscal de figuração pela agência MMCDI especialmente na novela Avenida Brasil (2012). Membro votante do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Rio de Janeiro, membro número 1017 do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e da Sal (Sociedade de Artes de São Gonçalo), tendo escrito artigos para a Revista Somnium, teve contos selecionados e publicados na Revista Litera, Primeiro Capítulo e é autor de destaque da Obvious Mag. Finalista de diversos concursos literários, tem 21 livros escritos e dois publicados, 'Adormecidos' (2011 - Ryoki Produções) e 'Síndrome Celestial' (2013 - Editora Multifoco).Convido-os a curtir minha página no facebook: www.facebook.com/Filoversismo

Conto 'Echochronos'

Chronos, a mítica e cruel criatura que teria devorado seus próprios filhos e responsável pelo tempo cronológico linear parece manifestar-se como arquidemônio do tempo sendo capaz de alterado, levando a um bispo do Vaticano a iniciar um processo de exorcismo o qual terá de enfrentar sua própria morte no futuro, quando o futuro toca o passado.
O conto é parte integrante do livro 'Chronomicon' de Gerson Machado de Avillez.


"O espelho reflete certo; não erra porque não pensa. Pensar e essencialmente errar." Fernando Pessoa

O Lugar era lindo, no alto de uma colina pequenas casas de pedras erguidas entre arvores com folhas amarelas pelas estações pareciam fazer parte da paisagem naturalmente enquanto o vento trazia uma sinfonia audiovisual de centenas de flores pelo campo aberto a se estender pelo horizonte. Entre isto uma pequena coluna de fumaça saia de uma chaminé cambaleando de um lado a outro pelo vento que funilava entre os galhos das arvores criando eventuais moinhos de vento visíveis pela fumaça. Porém, repentinamente entre as arvores do bosque um jovem surge correndo como se temesse algo profundamente ao chegar até a porta de uma das casas e a abrindo ofegante em quase desespero parou agachando-se sobre suas pernas a fim de pegar fôlego enquanto todos a redor pararam para olha-lo enquanto uma pequena fogueira cozinhava verduras e fazia um chá.

- Eles estão vindo pra cá! - exclamou a voz rouca e ofegante do jovem.

Rapidamente um homem pegou um chapéu e se dirigiu para a porta onde havia uma espada e outros homens correndo pegaram lanças e bestas com suas flechas como se preparassem para um combate. Nisto o homem que parecia ser o responsável pela segurança do local, olhou para uma jovem mulher e como num acesso pediu para que saísse como se aquele momento já fosse esperado. A mulher saiu pelo campo e começou a gritar com sua voz ecoando pelo vale matizado pelo amarelo e tremulado pelo vento assim como sua voz.

- Helder! Volte agora pra cá!

Nada surgiu, mas repentinamente o vento parou resultando num silêncio mórbido onde nem mesmo os pássaros cantavam, a mulher agora visivelmente em pânico gritou mais uma vez pelo nome quando seus olhos se arregalaram com um súbito zumbido que rompeu dentre as arvores. Uma flecha varou-a por trás covardemente saindo pela frente de seu tórax revelando um pingente forjado em ouro com uma flor que chamavam de mil pétalas, similar a uma rosa dos ventos. Seus lábios ficaram esbranquiçados e sua força se esvaiu de seu corpo a fazendo cair de joelhos quando se viu ao lado de dois homens vestindo peles de animais e com espadas. Um destes a sacou e num corte seco fulminou por vez a jovem mulher fazendo com que os pássaros se assustassem. Não longe dali, uma menina parece ouvir aquilo e olha finalmente para o jovem que estava sendo chamado, Helder Zanini, que em meio aquele lindo campo florido e livre parecia partilhar de algo que pouco a pouco com a idade crescia além da mera amizade. Helder correu pelos campos nervoso ao ouvir a voz de sua mãe quando sons de galopes surgiram dentre as arvores fazendo a menina se esconder entre os galhos mais baixos. Quando finalmente subiu a colina, Helder viu sua mãe jazida sem vida numa abiose que a fazia parecer menos que uma boneca de pano retalhada por um profundo corte de espada até seu pescoço, e com a pele roxa quer fosse pela perda de sangue ou pelo medo que contaminou rapidamente seu sangue com uma dose cavalar de adrenalina. O mesmo frio cruel que sentiu ela, agora Helder sentia ao ficar sem reação ao ver algo que nem ao menos ainda compreendia, quando o vento soprou como em prenuncio para que o jovem de lá saísse e ainda em choro correu de volta para os braços de sua colega que tendo uma pequena flor colhida por ele desviou-se por entre galhos enquanto galopes eqüinos pareciam anunciar um combate que já se ouvia os gritos de homens se mutilando mutuamente entre as casas de pedra. Ao chegar ao local nada viu de inicio, o deixando já com seu rosto úmido pelas lágrimas o desespero. Porém, Helder mais uma vez encontrou o medo a exalar por entre os galhos, e como se o sangue denunciasse um caminho de sofrimento e dor como se todo talento de algum escritor por ele escorresse numa via crucis que anunciasse apenas seu martírio contra os verdadeiros vilões. Levou a corpo da jovem que jazido sem vida tinha suas roupas rasgadas assim como seu corpo ainda infantil sem as curvas sinuosas de uma mulher. O vestido branco manchado pelo sangue mantinha ela, porém, com uma das mãos fechadas, onde o jovem aos prantos ao abrir viu a flor delicada como ela segura entre seus dedos esbranquiçados pela perda de sangue. O jovem Helder agora babando por sua boca aberta quase sufocado pelo próprio choro se agachou entre seus braços se embebedando do sangue da menina como o vinho dos bebedores, quando um braço o agarrou por trás o puxando subitamente. O garoto começou a gritar e se debater em fúria, mas uma outra mão o segurou firme na boca e lhe virando para frente dele viu Helder que era um dos seus pedindo-lhe para ficar quieto entre as arvores, mostrando homens a cavalo correrem a procura deles, especialmente o garoto. O garoto mau contia o choro, mas logo o homem o carregando correu entre as arvores enquanto carroças entravam pelo campo rompendo os campos floridos estraçalhando as flores em seu caminho.

16 anos mais tarde... Um Padre levanta-se enquanto um pingente similar ao visto pela mulher balança de um lado a outro como um ponteiro de relógio preso. O sujeito veste sua batina e se dirige ao espelho. Tendo uma curta barba parece com alguma vaidade se arrumar num quarto semi-escuro quando houve um ruído. Ele para e olha para trás sem nada ver e achando ter sido apenas um engano de sua própria mente prossegue, quando se abaixa para pegar a bíblia nota algo estranho. Ele se vira e então ao se olhar no espelho polido em ferro levemente tendo sua imagem torcida vê sua própria imagem não somente torcida, mas como se sua barba estivesse crescendo, e matizada de branco o fez ficar assustado quando ao olhar para sua mão vê suas unhas crescerem tão repentinamente que seus olhos ao se arregalaram em medo cai ao chão derrubando o espelho.

Passos entram apressado nas luxuosas salas da Santa Sé, no Vaticano. O homem decido parece nervoso como se estivesse não somente procurando alguém, mas fugindo de algo, quando seus passos param e ele fala - Bispo Helder Zanini? O jovem maduro levanta seu rosto de um livro e apenas responde com o olhar direto para ele enquanto fecha o livro revelando o título "Tratactus Ad Tempus".

- Temos um caso que talvez seja de interesse inteiramente do senhor. - respondeu o jovem curvando-se em reverência, com sua batina branca não combinando apenas com seu cabelo preto. - Não sabemos do que se trata, mas recebi ordens diretas do Papa para lhe encomendar este caso com a maior objetivadade possível.

O homem então abriu uma pasta com escritos a pena parecia trazer a descrição do caso ocorrido com um dos homens conhecido de Helder. O padre que morreu em circunstancias surpreendentemente misteriosas. Ao chegar no local, um abrigo não longe dali, Helder passou pela guarda do Vaticano entrando no quarto e encontrando o corpo daquele seu então conhecido transfigurado de um modo que jamais concebeu. Alguns homens parecia levantarem as mãos para os céus em quase desespero pela cena que se configurava no local, o homem disposto com o rosto completamente envelhecido, sua barba branca e crescida enquanto uma das mãos tendo enormes unhas e suas carnes ressecadas como se tivesse passado longos anos na clausura de algum monastério sob votos exagerados de solidão casta.

- Pensávamos não se tratar do irmão Wallace, mas tudo que carrega e as semelhanças o denunciam. - falou um dos guardas. - Nunca vi nada parecido, creio ser algum tipo de possessão que desconhecemos. - Preciso que saiam deste lugar - respondeu apenas Helder.

Ao saírem e vendo-se só, Helder levantou o espelho arranhado pelo tombo, mas inquebrável por ser de metal. Parecendo procurar algo revirando os pequenos moveis nada encontrou e sentou-se na cama do falecido padre a observar seu corpo inerte, que ou qual diabos foi aquilo? Mas pela fresta da janela um raio solar varava em meio à poeira que circulava levemente pelo local sobre o espelho que tendo manchas de sangue, que teriam saído da boca do padre parecia refletir uma imagem sinuosa contra a parede. Mas o sangue disposto e seco parecia formar algo onde a luz doutro lado refletia como algum tipo de padrão, como se letras dispostas pelo reflexo na parede ao se olhar diretamente no espelho não se compreendia, mas ali soavam as palavras no latim que eles conheciam “Oculum ad Tempus”. Olho do Tempo? O que poderia ser aquilo, pensou consigo Helder. Sem pensar duas vezes anotou em seu diário e um livro que escrevia sob encomenda do próprio Papa, onde diversas notas escritas à pena foram tiradas de dentro de uma pasta que carregava consigo. Helder saiu dali com muitas perguntas em sua cabeça. No dia seguinte se reuniu com outros bispos a discutir o que poderia ter feito aquilo não se enquadrando em qualquer manifestação que estes conhecessem, e mesmo que a sua Ordo Christianitas Ad Ventus nem ao menos fosse reconhecida oficialmente pelo Vaticano soava mais como uma lenda que seu bisavô, o bispo Alexis Anor Zanini passou junto ao livro Tratactus Ad Tempus, assim tais eram passados não como segredos que importassem, mas com a cautela da blasfêmia que tanto o Vaticano na época temia cometer perante a sua conservadora resistência pelo conhecimento secular emergente, o tornando um grande censor do saber quando não opressor do livre conhecimento e liberdade de expressão naquela época. Os homens conversavam com livros sobre demonologia e parecia que tal oscilava entre barulhentas vozes sobrepostas e o súbito silêncio diante do desconhecido quando alguém sugeriu ao abrir um livro sobre mitologia grega.

- Irmão Helder, vemos aqui nesta mitologia falar de um antigo e demoníaco deus, Chronos, cujo poder sobre o tempo parece lhe ser nato. Talvez estejamos enfrentando um tipo de arquidemônio desconhecido por nós.

Mesmo que não oficial aquilo fizeram todos se calar diante de tal proposta, pois mesmo que jamais se tenha ouvido falar em tal manifestação parecia condizer pela condição do corpo do qual o tempo parecia ter transcorrido mais rápido e súbito para ele, o envelhecendo. O livro Tratactus Ad Tempus, do qual Helder era guardião nada tinha sobre este assunto se não datas do futuro e menções sobre cidades perdidas. O livro que se tornou cobiçado por um antipapa, mas que sob a censura antiquada do Vaticano fazia quase não se ter notícia se tornou naquele momento inútil.

- Certamente o que nosso irmão Celestino disse parece fazer sentido – retrucou Helder após alguns minutos de silêncio - revelações aqui são feitas e muitos querem rouba-las, e temos de pensar seriamente na possibilidade de enfrentarmos um tipo de arquidemônio do tempo. - Heresia, Helder! – gritou outro bispo nervoso se exaltando subitamente. – Não podemos tomar a dianteira sem o mando do Papa sobre tal coisa, somos mantidos pelo Vaticano que nos pagam tudo para servimos livremente, lembre-se! E seu livro somente foi aceito graças à credibilidade de seu bisavô mesmo que tenha quebrado seus votos de castidade! - Não vamos discutir sobre o passado. – falou Celestino interrompendo o homem o pedindo para sentar-se novamente. – O que temos de fazer e aguardar a posição oficial do Papa ao passarmos para ele o causo. - Assim se faça. – respondeu o bispo exaltado sob a concordância dos demais.

Ao sair dali Helder foi para seu quarto onde uma série de livros se dispunham e uma lamparina parecia irradiar as luzes fracas e tremules sobre páginas velhas de livros dispostos sobre uma mesa formando um lugar prosaicamente medieval, simples, mas confortável instalação para aqueles que eram muito ativos na Santa Sé. Na janela se podia ver uma pequena fonte jorrante sob as luzes de postes alimentados pelo óleo de baleia, enquanto um suave vento entrava pela janela o fazendo questionar a própria existência da Ordo Christianitas Ad Ventus. Helder pegou no sono após pegar uma bússola que construiu com as instruções presentes no livro de um certo Heidrun Adail expondo números que para ele não parecia fazer sentido algum, mas como se fossem indicações de algo mediante a posição. O sujeito que segundo relatado pelo seu pai seria um viajante do Tempo viveu nos arredores de Portugal próximos as montanhas num refúgio seguro com sua família, sendo mantido pelo próprio Vaticano sob mais curiosidade que por concordar com os incidentes anteriores. Os conhecimentos dele eram muito avançados, falava seu pai como se soubesse mesmo do fim dos Templários e mesmo o nome de alguns papas posteriores sendo considerado por alguns como mero adivinho. O fato é que o Vaticano precisou diversas vezes de Heidrun Adail sobre muitos assuntos. Então ele leu:

"A nossa causa é um segredo dentro de um segredo, o segredo de alguma coisa que permanece velada, um segredo do que só um outro segredo pode explicar, é um segredo sobre um segredo que se contenta com um segredo." (Ja'far-al-Sâdiq, sexto imã)

Ao pegar no sono, Helder viu-se como na aldeia onde foi criado sob a proteção do Vaticano onde alguns supostos inimigos remanescentes o perseguia por motivos que o jovem Helder não entendia mesmo sendo pelos escritos e conhecimentos, até ser destruída numa invasão por supostos descendentes dos Hashishin. Mas aquela vila parecia estar diferente no seu sonho, onde indiferente as leis a gravidade se inverteu o fazendo andar pelo teto de palha sob um vento estranho que parecia soprar de dentro pra fora. Gelado viu Helder a menina com quem sempre ficava correr para trás e as águas que jorravam de uma pequena fonte recuarem até sua bica sumindo para dentro do solo. Helder então tentou correr em direção a jovem garotinha com apenas uns 10 anos, mas quanto mais se esforçava em suas pernas mais parecia andar para trás sentindo-se preso quando acordou subitamente com a porta batendo. Celestino parecia nervoso refletindo isto na porta sob seu punho cerrado em constantes batidas quando Helder abriu a porta ainda tentando entender o que ocorria no dia seguinte.

- O Papa Honório III deseja lhe ver neste momento! – falou ele nervosamente o deixando alarmado.

Quase trocando os pés embebedado pelo sono ainda presente em seu corpo, sem tempo para assustar a preguiça física que permeava seus músculos relaxados, Helder quase correndo vestiu a batina saindo aos tropeços do quarto. Os passos dos dois pelos longos e altos corredores ecoavam pelos cômodos apenas barrados pelos guardas parados como estátuas por todo lugar. No fim deste uma grande porta marrom parecia guardada por mais dois guardas que os reconhecendo abriu as portas revelando um enorme saguão onde pedras formavam um brilhante chão enquanto dois altos do Vaticano pareciam levar algo para o Papa Honório III que de costas estava lendo algo. Os dois pararam diante dele, e se curvaram aguardando virar-se e olhar para ambos.

- Irmãos Celestino e Helder. Que a Graça estejam convosco. Sabemos que seus trabalhos inestimáveis para nós, mesmo sob acusações de opositores, de sermos professores da heresia, mas creio termos algo sem precedentes aqui. – o senhor fez uma pausa olhando para uma carta e prosseguiu – Por mais estranha que seja a proposta, recebemos notícia de Portugal de um ocorrido similar ao nosso irmão jazido sob estranha possível possessão. - Outro caso? – retrucou Helder - Mas não fatal. Este tem sido mantido em sigilo para não fazer o povoado local entrar em pânico, mas aparentemente uma menina de cinco anos cresceu súbitos 10 anos em poucas horas. - Fraude! – falou Celestino. - Infelizmente não – interrompeu um dos homens do Papa - segundo os pais a menina mantém exatamente as mesmas marcas de nascença além de saber detalhes íntimos deles. O problema, é que não somente ela, mas fenômenos estranhos ocorrem ao seu redor, como plantas crescerem mais rápidas que outras, materiais orgânicos ou não envelhecerem e apodrecerem mais rápido e sob surtos falar coisas que ocorrem minutos a seguir. - Não seria uma teofania então? - Não, aparentemente apesar de assintomático fisicamente os sintomas parece a fazer temer a bíblia assim como os demais elementos típicos de um caso de possessão, fazendo mesmo um dos livros se tornar pó nas mãos de um padre local que simplesmente sofreu de algum mal súbito após ver um de seus braços ficar mais velho que outro. - Como poder lhes servir? – perguntou Celestino impressionado

Os homens do Papa pararam e olharam para ele que acenou com a mão e disse.

- Sabemos das divergências da Ordo Christianista Ad Ventus irmão Helder, mas me parecer ser um caso para vocês. O tempo e o destino são como ventos, podemos guia-los e aproveita-los a nosso favor, transforma-los e ao invés de nos levar apenas nos aproveitar. E sabemos nós que estes demônios a tudo dominam e talvez estejamos lidando com o caso dito pelo irmão Celestino, um arquidemônio do tempo. - Chronos. – respondeu ele. - Perfeitamente. Sabemos que o Antipapa está observando de perto todo este caso e por isto sigilo se faz necessário, pois ele quer levantar a oposição contra nós. Então por isto estou designando Helder para este caso tendo por assessor Celestino. Mas lembre-se não se suje, pois quem fere com ferro ferido com ferro será. Por tanto todo guardião legítimo seja do que for isto, tem que estar preparado tanto para matar quanto morrer. Por isso nada faça que não esteja preparado para suportar o próprio. O Vaticano nestes casos desconhece por completo tal incidente, pois você pertence a uma cavalaria inexistente e por isso inexpugnável.

O Papa está certo. O abstrato é indestrutível, deste modo seguindo-se como sociedade do meme, a Ordo Christianitas Ad Ventus virtualmente pode estar em qualquer lugar e em lugar algum, são mais que preceitos ou meros conhecimentos mais ideais, o braço que acolhe, ficção ou verdade tais escritos deve-se estar nos corações, sendo-se suas histórias como os mitos velozes do sussurro a trazerem mais convertidos que iniciados, buscam seus felizardos. Assim como os ventos não se podem prender e controlar, mas apenas induzir parcialmente a seu favor como os navegadores em suas velas, o vento trás o renovo, o temporal, o frescor ou o vendaval, e quem o conhece tens o maior dos aliados não aos que escarram contra o vento. Com o vento não se luta, não se vence, se aceita ou não, pois contra um sopro podem ser contra, mas não o vendaval, e assim se diz ser o tempo no Tratactus ad Tempus negado oficialmente pelo Vaticano por se ter medo do que não compreende, mas Deus trabalha por caminhos que por vezes desconhecemos. Ao saírem daquele lugar pegaram seu transporte que levou dias até chegar a Portugal passando por lugares degradados e destituídos da moral da civilização católica os alarmando. Mosquitos. Quisera eu reclamar com Deus nas longas noites de preces, pensava consigo Helder. Mas quem poderia culpa-lo? Pois mesmo como uma quase subpraga inerente entre as dez pragas do Egito, o desequilíbrio é inerente ao ser humano, este ser oriundo entre o natural e o sobrenatural, presos a sua limitada ordem terrena inferior à dos anjos e mesmo do natural, mas presos a vontades. Desde o provável primeiro complô mesmo que ocasional ao homem que inconsciente deste ocasionou a reação em cadeia escalar perante o mundo, o desequilíbrio moral em sua concausaliedade. Pouco importa, estes pequenos seres alados quase onipresentes aos demais continentes como signo da degeneração natural, pois sigo com minha missão como embaixador da Santa Sé, designado pessoalmente pelo Papa inicialmente quase baseado num mero mito que como ruídos escutados por anos sem jamais ser visto, tendo apenas eu como seu guardião por herança baseado meramente na confiabilidade dos relatos de meu bisavô onde diz-se ter o celibato quebrado em justa causa e apenas um livro - considerado dos loucos - do qual datas longínquas pouco se sabe da veracidade, fazendo este assim oscilar entre o herético e são, mas que para todos efeitos a terra é o centro do Universo e meu segredo o mais alto que qualquer degrau de Priorado ou Ordem ambicione, entre cientistas e uma crescente tendência de ruptura entre a fé e a ciência a exemplo dos cientistas iluministas. O descontentamento que na verdade sempre houve quer seja entre o paganismo que agora quase sob a tutela canalizadora da Santá Sé a utiliza-los como braços da cavalaria espiritual, na realidade a fazer o trabalho sujo enquanto os bispos e arcebispos caminham com suas vestes imaculadas. Ao pararem para o seu repouso numa espécie de pousada local, Helder e Celestino notaram não somente como os habitantes daquela pequena e pobre comunidade os observaram destoando dos dentre podres e vestes sujas daqueles homens e mulheres quando uma feira parecia negociar alguns negros enquanto um mercador gordo sob gargalhadas mostrava a gengiva de um negro alto tendo apenas um pano cobrindo suas partes íntimas.

- Esse negro trabalha muito! Seus dentes são fortes, esta praga tem a saúde de um manga-larga marchador, compre só por algumas moedas!

Outro bebendo e rindo enquanto passavam as mãos em mulheres as agarrando e fazendo uma destas ao se soltar cair sobre a lama e o homem gritando para leva-la abaixo-se rolando na lama junto.

- Certamente é como disse o Papa somente o escravo sabe o que é ser escravizado não o escravizador, assim como o injustiçado, não o injustiçador. – comentou Helder com Celestino ao ver aquelas cenas pateticamente vergonhosas.

Mas Helder repentinamente notou o homem gordo bater com uma vara no negro que ao reagir tentando se proteger das chibatadas segurou a vara da mão dele fazendo outros homens o virem sobre este o derrubando na lama e os chutarem covardemente quando uma voz de ouviu. - Eu compro este negro!

Era Helder, tendo dó do homem jogou dois dobrões de ouro do Vaticano fazendo o homem gordo dar um sorriso falseado pelo vão dos dentes faltantes e se abaixando na lama para pegar as moedas exclamou – ouro do Vaticano! Levantem este homem – falou o gordo disfarçando e brigando com seus homens como se não tivessem permissão de espancar covardemente aquele negro. Celestino ficou nitidamente não somente surpreso, mas completamente contrariado com a atitude de Helder, impulsivo ao comprar o negro fugindo o objetivo deles.

- O que vamos fazer com um negro num caso de exorcismo? – exclamou Celestino – Vamos gastar mais dinheiro mantendo este homem que deve comer pra burro. - Irmão Celestino, eu respondo por isto, lembre-se és apenas meu assessor.

O negro agradeceu acenando com o rosto e caminhando de cabeça baixa pedindo apenas para auxiliar nas bagagens como se estivesse acostumado com aquela vida medíocre e sem sentido.

Os Alpes suíços não muito longe dali sempre foram um atrativo natural para exploradores abastados pela sorte de não seres discriminados ou por terem nascido de boa prole, mas em meio um acampamento perante a brancura do gelo um alvoroço se formava, um enorme bloco de gelo havia caído em pedaços revelando um enorme mamute, um paquiderme poucas vezes encontrados por aqueles tempos e hoje nomeado por mamute lanoso (Mammuthus primigenius) e ao seu lado um homem, mas que por ter trajes incomuns para o tempo em que estava congelado fizeram os homens ali presentes ficarem perplexos. O corpo deitado tinha as mãos fechadas e a batina de bispo enquanto ressecado pelo gelo e seu rosto coberto por camadas destes flocos foram retirados de sua face por um dos desbravadores daquelas terras ainda não tão familiares revelando a face com cavanhaque do bispo Helder Zanini.

Ao seguirem o caminho onde a jovem possuída se encontrava atravessando a miséria e pobreza de vilas obscurecidas pela mediocridade econômica e desigual do periodo, um lugar a poucos quilômetros do seu destino se localizava o local onde anos atrás o lendário Heidrun morou com sua família até sumirem repentinamente sem aviso prévio levantando suspeitas do Vaticano de terem sido os tenebrosos remanescentes dos Hashisin cujos atos ao contrário das cavalarias comuns eram mais que serem agressivos, mas sádicos ao extremo. Porém, o rosto de Helder parecia fixo ao horizonte como se em nada estivesse pensando ou vendo o mero vazio enquanto em suas mãos estava um diário com desenhos sobre estudos do 'Tratactus Ad Tempus' e versos do mesmo reservados junto a notas de livros posteriores escritos no Vaticano. Celestino, atento temia estar sendo vigiado desde quando compraram o negro que agora trajando roupas simples, mas melhores adaptadas para o frio se encontrava sentado como se poucas vezes senti-se tão seguro com senhores verdadeiramente tão nobres de intento, quanto todos dentro da carruagem notaram pessoas que saiam andando pela estrada carregando bagagens junto as suas famílias. Ao entrarem no pequeno vilarejo, outras carruagens pareciam amontoar diversos utensílios e bens materiais como se quisesse fugir do lugar. Ao abrir a porta da carruagem os três homens desceram quando se indaragam o que ocorria no local.

- Porque esta gente daqui saem as pressas? - perguntou Celestino segurando o ombro de um homem de meia idade que parecia pouco se importar para a presença deles ali. - Lúcifer está presente aqui! Tiremos nossas famílias enquanto há salvação!

Após dizer isto o sujeito saiu caminhando a passos largos em direção a uma mulher cujos vestidos longos estavam enlameados pela chuva do dia anterior. Mas nisto uma voz vindo de trás deles pareciam os anunciar.

- Os senhores são os enviados do Vaticano?

Ao se virarem, viram um jovem adulto que com um dente faltando na parte inferior da boca sorriu convidativamente destoando do clima local.

- Cordialmente lhes peço para que siga-me. - pediu o garoto, sendo atendido prontamente.

Passaram pela entrada de um lugar de madeira que parecia mais como um tipo de prefeitura local onde o rangir de seus pés sobre o assoalho denunciavam sua presença no local, abrindo uma porta que revelou um interior iluminado a luz de lamparinas e um homem com panos nas mãos surgiu como se enxugasse-as.

- Boas vindas aos senhores se for possível. - falou o homem de voz rouca - Por acaso desejas procurar o local onde Lúcifer caiu assim como aquela pedra de sua fronte? Dizes que és o guardião do maior dos segredos, maior que dos Senhores do Mundo e de grau 37 pela Ordo Christianitas Ad Ventus, inexistente se não por boatos e por isso inexpugnável. - Certamente o senhor tem ouvido mais do que os fatos. - respondeu Helder com sua cruz balançando sobre seu pescoço. - Vejo que venho com um negro, e por tanto é uma boa isca ao que entrou naquele corpo, se algo caiu neste mundo certamente deve ter sido no corpo daquela jovem.

O tom pouco cordial daquele homem naquela casa velha somente justificou a presença deles ali ao ter identificado este homem como um dos lideres locais empenhados pela segurança daquele lugar não muito diferente de outras vilas no interior de Portugal. Com uma pequena chaminé acessa preparava algo num forno similar a pães, eram bolos que saído ainda exalando o vapor teve um odor realmente agradável as narinas dos visitantes recém chegados que ao lhe ser oferecido parece ter quebrado por completo o tom rude daquele homem a um sujeito hospitaleiro e cordial. Sentados agora numa mesa de madeira forte enquanto o escravo comia na varanda eles começaram a falar sobre o caso.

- Pouco sabemos se foi um pacto com o diabo, caro Celestino, algo para fazer nossas colheitas darem rápido seu fruto antes da estação. Porém, isto espantou a todos ao encontrarmos exatamente isto há uma semana na plantação de uvas ao lado. - falou o homem se chamava Alberto Nogueira. - Mas o que nos pareceu ser uma dádiva dos céus rapidamente nos sobreveio com revés terríveis, à manifestação daquela menina parece a tê-la tornado em adolescente em poucos dias. E mesmo fulminando o pai dela que de súbito morreu velho tento menos de 50 anos. - Como ela está agora? - perguntou Helder - Somente a mãe dela tem entrado no quarto, pois o último ficou com catarata. A menina é de boa família, não há bruxos por aqui, não faço idéia dos porquês deste diabo. - respondeu o homem demonstrando a típica visão da época sobre religião. – Tenho algumas divergências com a igreja católica, pois creio num cristianismo sem alguns acréscimos do catolicismo, mas certamente não sou eu pagão.

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Após degustarem seu bolo e se hospedarem na casa de Alberto, os padres resolveram seguir até o local onde a menina se encontrava. A noite já havia caído e sob tal o grande homem negro se tornou um excelente guardião para as coisas dos bispos presentes ao lado do cocheiro e suas bagagens. Apenas com o nevoeiro se tornou visível às tochas de fogo esvoaçastes pelo vento cortarem a escuridão iluminando poucos metros adiante de seus olhos enquanto adentraram a porta do local após anunciar-se a entrada. A mulher, provavelmente a mãe da menina encontrava-se sentada numa cadeira de madeira com uma das mãos sobre o rosto como se estivesse cansada a retirando para olhar os homens que adentraram o local. Levantou-se então e beijando a mão do bispo a mulher lhes disse.

- Ave Maria, a mãe de Deus meu senhor, espero que tire o que seja do corpo de minha filha.

Ao ver o olhar de cansaço da jovem mãe, constatou presente os anseios e medos transfigurados através de seus olhos com olheiras por longas noites de choro e insônia. Ao entrar no quarto, o silêncio se fazia presente com se somente ele habitasse o lugar, mas ao ter a lamparina a iluminar aquele lugar viu-se o corpo da jovem deitado de costas para eles, sobre uma cama vestindo branco.

- Seu nome é Clarice – sussurrou a mãe da jovem – Até semana passada tinha apenas cinco anos de idade.

Celestino retirou de seu bolso um terço enquanto Helder colocou sobre uma guarda a bíblia sagrada e pegou uma cruz com as mãos movendo os lábios lentamente numa prece silenciosa. A menina se moveu repentinamente sobre a cama, mas sem virar-se para eles.

- Clarice – sussurrou o bispo Celestino.

Mas ao invés de virar-se uma respiração ofegante se ouviu emitindo um som rouco como se fosse algum asmático e disse numa mórbida voz grave como se suas cordas emitissem duas vozes ao mesmo tempo.

- Helder, descente de Alexis queres encarar sua própria morte? - Quem, és, entidade? – perguntou Helder tomando a frente de Celestino.

O rosto virou-se rapidamente com os olhos esbranquiçados como se estivesse em transe abrindo um sorriso funesto e respondendo.

- O que carcome, o que carcome a tudo, a ferrugem do que provoca a ferrugem, o que move ou atrasa o tempo! - Chronos? - Tão óbvio assim? – respondeu soltando um riso alto em seguida. – Espero mais do Bisneto de Alexis Zanini, filho de Tácio Zanini e neto de Romeu. - Como sabes? - O que foge ao tempo?

Nisto Celestino notou algo estranho no assoalho crescer como se fosse um tipo de musgo cutucando Helder para observar também. Ao virar a lamparina em direção ao local notaram eles a madeira apodrecer tão rapidamente a ter sobre ela um musgo crescendo que os deixaram perplexo que ao fundo notando o mesmo a mãe da menina, agora assemelhando-se a uma adolescente, tremia de nervoso. Nisto o riso de Chronos se adiantou diante da menina possuída vendo-os estapafúrdios com aquela cena e Helder então disse levantando a cruz e a bíblia em outra mão.

- Perante aquele que está certo aos três tempos, aos quatro ventos em suas 32 posições, em nome de Jesus, repreendo a ti potestade dos tempos! Fuja por sete caminhos!

A garota se remexeu na cama nervosamente e num grito fez a bíblia em sua mão se retorcer que ao olhar para ela notou suas páginas literalmente envelhecerem e virar pó diante de seus olhos, o fazendo a jogar no chão de susto. Um grito seguiu-se transparecendo a voz natural da menina cujos olhos agora parecia suplicar. Longe de parecer ter cinco anos de idade, mas com um corpo já típico de uma jovem, seus cabelos desdenhados sobre a face fazia parecer que ela estava a longos meses presa naquela cama. O assoalho de tão podre que se tornou rachou próximo ao pé de Celestino fazendo quase afundar ao primeiro andar. Os dois então se retiraram tentando esconder seu profundo medo mediante aquilo. Helder caminhou até sua cama quando ao pegar o terço e fazer uma prece notou que a mão que segurava a bíblia estava diferente, suas unhas estavam enormes como se há meses não as cortasse.

***

No dia seguinte, um homem chega cortando o silêncio que se tornou à vila com o galopar do cavalo somente ficando oco pelo som dos locais onde haviam lama depositada. Saindo de cima do cavalo com uma bolsa se dirige as presas quando Helder o observa da janela no andar de cima da casa de Alberto.

- Tenho correspondência para o senhor Helder, assuntos do Vaticano, creio ser emergência.

Tão logo Helder foi para baixo encontrando o homem e ao abrir apenas uma intimação incomum a um corpo que havia sido levado para o centro daquela cidade a poucos quilômetros dali. Agradecendo ao homem, com mais dúvidas que certeza chamou seu cocheiro lhe pedindo para o orientar até ao centro temendo qual assunto fosse em sua possível ligação com aquele incidente. A viagem foi apenas umas duas horas quando chegaram numa edificação de porte médio enquanto saiam caminhando em direção a parede de pedra que se erguia por muros altos adentrando uma porta em meio aos camponeses num falatório na rua. Ao entrar ao lado de Celestino, o silêncio rapidamente destoou do exterior do local, mas pelo corredor ao verem o rosto de Helder algumas pessoas se levantaram e lhe olhando fixamente tremeram como se vissem um fantasma. Aquilo foi a tão ponto alarmando Helder tanto quanto Celestino, que quando surgiu um médio retirando os panos a seu redor inclusive no rosto pára tapar o mau odor seus olhos se arregalaram o fazendo fazer o sinal da cruz sobre seu corpo.

- Quero saber o que está acontecendo neste lugar! - exclamou Helder visivelmente desconcertado com a situação. – O que tenho com mais uma morte? - Mon senhor, perdoe-me nosso igual desconforto, mas certamente o que vimos foi desconcertante para nós especialmente após vê-lo aqui caminhando vivo.

Helder sério olhou para Celestino com o semblante de preocupação e seguiram o homem enquanto cochichos e outras pessoas se levantavam horrorizadas com a presença daquele homem. Rapidamente o odor daquele lugar chegou as narinas dos dois homens da Santa Sé sendo recebido panos com alguma solução química a fim de amenizar aquilo, chegando finalmente numa grande sala onde um corpo estava deitado sobre uma mesa. Os passos dos dois homens se aproximaram quando o médico parado diante daquilo com o pano no rosto apenas apontou com a outra mão o corpo pálido sobre aquela mesa. E o que Helder viu o deixou em quase pânico, sua própria face desfigurada e morta num corpo que parecia datado de longo tempo, quase mumificado.

- Por Deus que feitiçaria é esta! - exclamou Celestino como uma quase pergunta.

Assustado ao ver a própria imagem e semelhança naquele corpo semimumificado Helder ficou brevemente confuso e sem reação tentando compreender o que estava vendo naquela mesa diante daqueles homens não menos assustado. Esquadrinhou então aquele corpo com seus olhos indo até sua mão cujo punho cerrado parecia segurar algo. Agachou-se em silêncio cerrando a visão e tentando abrir o punho chamando a atenção do médico presente cujo pano tapava-lhe o rosto. Vendo que Helder conseguia abrir a mão daquele simulacro de si próprio achou algo como uma planta, mas abrindo-a melhor notou ser uma pequena flor. Helder então retirou da mão daquele corpo fazendo todos se esticarem ao seu redor para ver, uma planta incomum á aquela altitude, alguém entre a pequena platéia afirmou.

- O que o mon senhor acredita ser isto? - indagou o médico enquanto Helder olhou perto a pequena flor com tons azuis. - Não sei o que é, mas sei o que não é. - respondeu Helder sem tirar os olhos da flor.

Ao saírem do local, Celestino parecia estar esverdeado por ânsias de vômito pelo odor do corpo e a situação no mínimo inóspita em que se encontravam, enquanto cochichos seguiam mesmo sob ordens diretas de Helder para conter tais boatos e calúnias sobre aqueles casos. Na carruagem, Helder abriu seu diário notando os desenhos do que seria a casa de Heidrun o fazendo quase por instinto pedir para que o cocheiro o levasse para lá alterando a rota. Ambos estavam introvertidos especialmente após o encontro com "si próprio" há algum tempo atrás, se o que fosse remetendo as palavras de Chronos com "enfrentar sua própria morte". Saltou num vasto campo onde aparentemente nada havia se não um bosque. Lugar remetendo a sua infância onde quase fora morto por ordinários. Se perguntou ao cocheiro se era o local correto tendo uma afirmativa como resposta. Resolveram então caminhar por alguns minutos por uma tênue trilha que cortava alguns arbustos quando com poucos minutos avistaram uma casa de madeira de porte médio entre as arvores.

- Enfim creio ser este o lugar onde morou Heidrun Adail, o homem que escreveu Tratactus Ad Tempus.

O Cocheiro pouco sabia destas coisas se não as orientações para onde levava aqueles homens santos e se deixando levar pela curiosidade não resistiu em perguntar.

- Quem raios foi este homem? - Não se sabe ao certo, uns dizem ter sido um viajante do tempo, outros a encarnação de um anjo e outros mesmo algum demônio. – respondeu Celestino - Esta última opção duvido muito, meu pai era um homem santo e sua convicção não mentia sobre ele e seus escritos. Seja o que for creio poder haver algo aqui.

Chegaram então na entrada da pequena casa onde plantas cresciam livremente e mesmo revelando algumas poucas flores, incomuns para a época, próximas ao inverno. Ao entrarem a porta estava caída ao chão deixando a casa aberta mesmo que sem nada em seu interior a não ser algumas plantas que cresciam tomando as paredes e mesmo pelo telhado da casa, restando como traço de que alguém algum dia ali já morou apenas uma lareira e uma grande mesa de madeira virada. O vento irrompia casa a dentro fazendo com que a vegetação rasteira se movesse de lá para cá constantemente e Helder tanto como Celestino sentiam-se estranhamente familiarizados com aquele lugar. Caminhou até outro cômodo onde encontrou restos do que acreditava ter sido uma cama e ao empurrar uma madeira caiu sobre uma prateleira revelando algum tipo de vaso de ferro caindo ao chão fazendo barulho e imediatamente a fazer o cocheiro entrar no lugar em alerta com uma das mãos onde tinha uma pequena espad,a e em seguida olhando para Helder para saber se tudo estava na tranqüilidade. Helder se agachou sobre aquele vaso e pegando-o mesmo enferrujado notou haver algo dentro dele, abriu a tapa e notou papéis muito velhos que foram retirados cuidadosamente enquanto Celestino arrancava algumas plantas que cresciam tapando uma das paredes. O papel, haviam desenhos de aviões e um mapa de onde seria o Brasil, mas em seu centro um desenho que indicava algo como uma cidade. Perplexo, Helder coçou seu cavanhaque pensando sobre o que poderia ser isto.

- Olhem isto aqui – falou ele – parecem mapas para o que alguns têm aclamado como o Novo mundo. - Novo mundo? – indagou o cocheiro sem fazer idéia do que fosse. - Não estou certo, parece ser a transcrição de outro mapa, alguns traços estão apagados, não consigo compreender direito. - Helder! – interrompeu Celestino – Creio que o mais relevante seja isto, olhe.

Ao se virar Helder notou a parede de onde Celestino havia tirado as plantas um desenho de uma rosa dos ventos, mas diferente, tendo inscrições em chinês e latim Oculum ad Tempus. A Mesma mensagem vista no quarto de uma vítima no Vaticano. Um arrepio de súbito lhe sobreveio o fazendo temer, quando outra parte teve as plantas tiradas revelando o nome ‘Chronos’.

- Quem demônios é este ser? – indagou tirando o chapéu e fazendo o sinal da cruz sobre o peito, aquele simples cocheiro. - Creio estarmos enfrentando um arquidemônio do tempo. – respondeu Celestino olhando fixamente o desenho. - Notem como esta parte da parede parece estar tão conservada em relação à outra. É como simplesmente o tempo não tivesse passado para ela a impedido de apodrecer. - Realmente tenebroso, teremos de um jeito ou de outro muito o que relatar ao Vaticano quando retornarmos. - Quanto a isto não tenho dúvidas. – concordou Celestino.

Prezava a Lenda que o bisavô de Helder teria visto um anjo num combate inominável entre Templários e Hashishin, quando um oitavo cavalheiro misterioso desapareceu diante de seus olhos, Otávio Ramos, segundo as transcrições originais dele. Tal permaneceu quase pela oralidade tirando as notas de Alexis e de Heidrun por tamanho controverso que se tornou o incidente que não obstante quase culminou num conflito em terras santas. Aquele lugar somente herdeiros legítimos tinham conhecimento da localização incluindo agora o cocheiro e Celestino seu quase aprendiz. Considerado como de acordo com os escritos que realizaram um voto para que não atingisse a linha do tempo fundando aquela Ordem que segundo o livro de Heidrun, Bispo Helder Zanini se tornou um Caballarius Inexpugnabilis Ad Tempus, dentro da hierarquia da Ordo Christianitas Ad Ventus, chamando mais atenção pelo mito de sua quase inexistência do que de sua função, se espalhando por meros rumores dentro do Vaticano. O que sabia Helder é que Heidrun caminhou entre os Templários sendo retirado pelo estranho visitante Otávio Ramos, tendo conhecimentos imprescritíveis naquele tempo constantemente falou junto a Ramos – com ligações ainda mais misteriosas entre a família real portuguesa que permitiu um lugar seguro ali – que alguns conhecimento não poderiam ser revelados não por serem segredos ocultistas, mas de prescrições temporais. Certo que o Vaticano sempre soube lidar com segredos, quer fossem pelas bibliotecas onde livros viviam confinados passando gerações sem que qualquer um de fora nem ao menos soubesse de sua existência, e um verdadeiro tesouro a ser desvendados por membros do mesmo. Ali, haviam de livros considerados apócrifos, a hereges, todos os tipos de escritos eram guardados e amontoados e prateleiras tendo por companhia apenas a poeira, mas como o bom vinho se tornando apenas mais interessante com o tempo. Um pecado acreditava Helder em seu íntimo. Nuvens sombrias cobriam as mediações quando os três saíram do local ao fim da tarde quando o sol cortava persistentemente algumas nuvens as fazendo ficarem como algodão de ouro no céu. O caminho para a volta não parecia muito animador, muitas perguntas e poucas respostas sucediam a martelar na mente de Helder e Celestino, quando o cavalo bufando chegou na residência de Alberto, mas ninguém havia lá. O cocheiro enquanto vigiava a carruagem viu os dois bispos se dirigirem à casa da jovem possuída quando ao entrarem se depararam com aquele negro que haviam comprado segurando um corpo nas mãos.

- O que houve aqui? - se perguntou assustado Helder

Nisso surgiu Alberto com um olhar de tristeza revelando, que estava nas mãos do negro, uma senhora muito velha aparentemente desfalecida.

- A possessão matou a mãe da menina.

A mulher irreconhecível como se fosse uns quarenta anos mais velha do era quando eles saíram do lugar, estava transfigurada com semblante cansado, como se a morte natural tivesse lhe sobrevindo. Celestino se limitou a fazer o sinal da cruz sobre seu corpo e a segurar o terço quando o negro coloco-a no chão de madeira. Saindo dali a noite já havia sobrevindo sobre o lugar tomado pelo ruído de grilos e o rufar das folhas pelo vento quando a garota possuída havia se aquietado. Carregando lamparinas pegaram seus escritos e os abriram sobre uma mesa e começaram a se debruçar sobre aquilo.

- Chronos está presente na mitologia grega, o mito do ser confunde-se com o próprio tempo em si por isso além de Chronos, Kairos era outra designação ao Tempo naquela época, mesmo que Chronos liga-se ao tempo linear, cronológico não tão abrangente. - falava Celestino enquanto lia alguns textos específicos. - Talvez estivéssemos falando do Titã Cronos. - retrucou Helder. - comum confundir-se isto, porém, Chronos teria sido um tipo de paradoxo autocriado no princípio dos tempos, similarmente a concepção do Deus auto existente. - Diferenciando-se teogonia de teologia. - completou Helder. - nestes casos órfica. - Naturalmente. Tal era visto, apesar de incorpóreo como uma serpente de três cabeças cujo par com Ananke parece ser um eufemismo para o destino, o inevitável. - Mas na mitologia é tido como criador do Universo, numa posição conflitante com Zeus. - Concepções, apenas, típico de religiões destoantes e pagãs. Aqui expressa claramente na figura vil do homem que devora o seu próprio filho, ato utilizado como alegoria para a inevitabilidade do tempo que a tudo consome, a exemplo da mãe da menina, morta de "velha". - Celestino fez o sinal das aspas com as mãos. - Uma demonstração de poder, poder de que ninguém pode vence-lo num quase paralelo com o titã de nome similar. - Exato. A Pergunta então é como podemos lutar contra uma entidade que aparentemente tem poderes sobre o tempo? Como exorcizar o próprio tempo? - indagou Celestino. - Não sei, mas provavelmente faz sentido ao ato de que Jesus confere vida eterna, a vitória sobre Chronos. – completou Helder – Mas e se batizássemos a menina? - Acredito ser uma possibilidade. Mas o que me pergunto é como tal manifestação foi ocorrer? E se alguém tivesse feito algum tipo de conjuração? - Quanto a isto somente há um modo de descobrir. Procurando.

Os dois saíram do lugar até a residência onde estava a possuída sob a guarda daquele jovem que os receberam na vila e o negro comprado por Helder. Subiram com passos apressados as escadas de madeira ao segundo andar daquele domicílio entre a penumbra do frio da noite.

- Tal demônio, por mais poderoso que seja tem por função tentar subverter o mundo, neste caso o tempo se não a concepção cronológica. Assim certamente há de ter pontos fracos como quaisquer outros - falou Helder com Celestino segurando a lamparina. - Algo como Kairos. - Não temos patronos do Tempo canonizado pelo Vaticano. - respondeu em tom quase sarcástico Celestino.

Ao entrarem no local passaram a andar por todos os cantos enquanto sussurravam salmos do rei Davi como o noventa e um e vinte e um, quando a cabeça da garota começou a se mover os observando. Helder desta vez não tinha somente a bíblia, mas o Tratactus Ad Tempus em mãos e parando ao abrir notou um símbolo similar ao da rosa dos ventos, o mesmo que tinha em seu pingente no cordão. Arrastou então o móvel e nada encontrou, quando Celestino o chamou agachado olhando por de baixo da cama onde estava a garota.

- Venha cá! Encontrei algo aqui.

Helder sem pensar duas vezes se moveu se abaixando em seguida e vendo um desenho rabiscado abaixo da cama. Os dois se levantaram e se olhando arrastaram a cama fazendo a garota se tremer, mas lançar um sorriso tenebroso para eles, amarrada à cama. Seus olhos em tons avermelhados denunciavam a atividade da possessão. Quando notaram o desenho perceberam se tratar de um símbolo similar a rosa dos ventos como o dele, o que lhe deixou confuso. Helder então pegou o livro, e observando o desenho no chão notou porém, algo errado com a posição.

- Os pólos estão invertidos veja. O norte é para a direção oposta de onde viemos hoje. - O Que isso quer dizer? - Não sei, mas pode ser algo similar ao utilizado com alguns símbolos como a cruz invertida. - refletiu Helder

Os dois então levantaram suas bíblias e orando em latim notaram tal possuída se remexer na cama nervosa. Celestino pegou um pequeno balde de água onde havia ungido como um tipo de batismo mesmo sem saber que a jovem havia sido batizada quando criança e seguiu o procedimento.

- Em nome de Jesus, o Deus de ontem, hoje e sempre ordeno que saia deste corpo!

A jovem moveu-se rapidamente na cama como se o tempo para ela transcorresse mais rapidamente em relação aos dois homens. Tudo à volta deles parecia se distorcer e numa voz funesta Helder ouviu da boca da jovem.

- Sou eu quem dito o velho e o novo, do qual o segredo dos tempos a me confere antes do revelado!

Tudo se escureceu. Helder viu-se repentinamente no lugar onde esteve quando criança, cercado das flores que recebeu de sua coleguinha morta pelos aterrorizadores, segurou um uma destas em sua mão, vendo-se ao longe os homens sobre cavalos adentrarem o local sorrateiros dando apenas tempo de um garoto que carregava lenha sair correndo para avisar aos demais. Apertando a flor entre suas mãos, o vento parou repentinamente ao seu redor e viu-se ele o céu se torcendo até perceber como num sonho estar vendo imagens do negro que comprara quando a voz funesta do ser interrompeu.

- Vejo os dias após os dias, o antes do antes, e nos segredos do tempo me escondo, mesmo aqueles que o descobriram.

Neste momento viu ele a fugaz imagem de um menino negro, descente do escravo correr durante uma guerra onde veículos sem cavalos e de ferro se moviam ferozmente e homens mataram seu pai com armas similares a bestas, mas que saiam fogo de suas bocas. O menino negro amedrontado, lutou para viver, carregando marcas em seu rosto e lhe cegando uma vista quando homens com poderes similares a de anjos pareceram romper a fronteira antes guarnecida por Chronos, indo além do cronológico, o nome do menino agora um homem tempestuoso e cruel era Max Zulu, ligando-se ao mesmo homem que autrora fundou a ordem onde ele se encontrava. Que magia é esta que faz luzes e o tempo desvanecer? Se perguntou ele sem forças para se mover. Quando se levantou viu-se diante como de uma enorme fonte numa edificação de pedras alta como um monte, a água porém, lhe refletiu velho que ao pisar sobre as ondulações torceram sua imagem em sucessões estranhas do mesmo como se embaralhassem. Helder então encontrou-se novamente no quarto quando ao abrir os olhos e notou Celestino sobre ele o sacudindo e falando algo quando o negro igualmente surgiu. A garota estava agora desacordada sobre o leito como se estivesse num profundo sono, mas não sem notar que o sol já brilhava lá fora.

- O que ocorreu? - perguntou ele - Não estou certo, mas aparentemente, este diabo fez amanhecer. - respondeu Celestino enquanto o negro arriscou palavras num idioma que não entenderam. - Ele não fez amanhecer, mas nos fez ir adiante no tempo mais rápido. - Coisa estranha isto. Mas a boa notícia é que creio termos o expulsado da jovem. Como você está? - Sinto-me zonzo.

Nisto ao levantar a cabeça para ver a jovem caída sobre a cama notou que seu nariz sangrava, em seguida ele olhou para o negro e colocando a mão sobre o ombro falou para Celestino.

- Guarde este homem, fiz coisa boa em tê-lo comprado à liberdade, o dê instrução, no futuro será importante.

Celestino pouco compreendeu aquelas palavras, mas apenas acenou com a cabeça concordando. Helder se levantou com certa dificuldade e se dirigiu em direção a jovem que parecia agora com uma mulher madura em meio e lençóis velhos e puídos. Passou a mão sobre a cabeça dela e abriu a mão onde estava flor que pegou naquele lugar onde pensou apenas estar em sonhos quando esta abriu os olhos e proferiu um profundo grito e os objetos ao redor simplesmente pareciam flutuar. Helder então viu os dias passarem rapidamente pela janela até que tudo a sua volta escureceu e quando sentiu que aquele ser o havia soltado, sentia muito frio num lugar alvo como poucas vezes viu. O sangue lhe escorria pelas narinas até a boca quando sentiu a brancura ao seu redor afundar denunciando ser a neve, porém, algo ao horizonte vinha enormes colossos de pelo como elefantes cortarem aquele vale fazendo uma pequena avalanche sobrevir sobre ele soterrando-o e um daqueles paquidermes que nunca havia visto antes dando-lhe apenas tempo de cerrar seus punhos com a pequena flor em sua mão. Na casa da jovem, agora uma mulher pela idade biológica, esta despertou assustada e perguntando por sua mãe. Sem saber o que acontecera, Celestino sob o olhar perplexo e silencioso do enorme negro nada disseram se não apenas vê-la sair caminhando lentamente da cama como se nada lhe houvesse ocorrido. Ao descer o bispo retirou o pequeno chapéu que tinha sobre sua cabeça como se tivesse cansado de procurar o corpo de seu amigo Helder. Alberto surgiu perguntando o que houve após ver a mulher a estranhando menos ela ao homem que o reconheceu como se tivesse o visto ontem. Alberto percebendo então de quem se tratava apontou para o corpo coberto que ao ser descoberto revelou uma senhora de cabelos brancos fazendo a agora adulta garotinha chorar exatamente como se tivesse cinco anos.

- Não saberia relatar o que ocorreu aqui. - falou Celestino com Alberto. - Onde está Helder? Ele morreu? - perguntou ele olhando para o negro. - Acho que encontramos o corpo dele, antes mesmo dele sumir e desaparecer.

Fosse o que fosse aquilo, por menos ainda que compreendesse jamais o que ocorreu tanto Alberto quando Celestino, certamente Celestino nunca mais foi o mesmo assim como meses e anos após nunca mais viu o tempo do mesmo modo. Há mesmo quem diga ter sido considerado louco pelo próprio Vaticano em seus relatos fantásticos, mas que em seu íntimo dos porões passou a guardar como relíquias uma quase múmia, um corpo de um homem que eles acreditavam ser o de Bispo Helder Zanini, um quase patrono do Tempo, homem que não soube ter desaparecido ou encontrado.


Gerson Avillez

Fotógrafo e homem da prática de letras nas horas vagas, teólogo e pedagogo por formação, filósofo autodidata e por vocação. Descendente direto do Tenente-General Jorge Avillez, portador da Síndrome de Aspeger, trabalhou em eventos culturais nas Lonas Culturais no Rio (2002) onde produziu e fotografou, tendo fotos publicadas em jornais do Rio de Janeiro. Posteriormente trabalhou na Rede Globo como fiscal de figuração pela agência MMCDI especialmente na novela Avenida Brasil (2012). Membro votante do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Rio de Janeiro, membro número 1017 do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e da Sal (Sociedade de Artes de São Gonçalo), tendo escrito artigos para a Revista Somnium, teve contos selecionados e publicados na Revista Litera, Primeiro Capítulo e é autor de destaque da Obvious Mag. Finalista de diversos concursos literários, tem 21 livros escritos e dois publicados, 'Adormecidos' (2011 - Ryoki Produções) e 'Síndrome Celestial' (2013 - Editora Multifoco).Convido-os a curtir minha página no facebook: www.facebook.com/Filoversismo.
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