estetoscópio lírico

Instrumento imaginário para amplificar essa barulheira que nos assola o interior

Vinicius Ribeiro de Andrade

Graduando do curso de Letras na UFSCar. "Ledor", escritor e humano.

As andanças do "Demônio", ou Jorge de Sena, pelo mundo físico e literário.

Um pouco da trajetória e da obra de Jorge de Sena.

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Jorge de Sena: o autor brilhante e a brilhante obra.

     Exilado de sua amada pátria, Portugal, de Sena redigiu sua existência entre dois continentes: o americano e o europeu. Jorge Cândido de Sena nasceu em Lisboa, no dia dois de novembro de mil novecentos e dezenove. Filho de pai militar e mãe dona de casa, De Sena desfrutava dos benefícios da alta vida burguesa, inda que propiciados numa suposta infância infeliz. Aos rastros do pai, nutria o desejo tornar-se oficial da marinha – desejo que depois se revelaria dar-se mais por conta das suas viagens, andanças e paixão pelo mar infinito, que pela carreira.

     Porém, no final da viagem de instrução a que embarcara em 1937 – viagem que propiciara-lhe contato com os portos de São Vicente (Cabo Verde), Santos (Brasil), Lobito e Luanda (Angola), São Tomé (São Tomé e Príncipe) e Dakar (Senegal) – , foi-lhe comunicado que, apesar do excelente desempenho nas demandas teóricas do curso, que fora excluído da Marinha Portuguesa por falta de algumas das qualidades exigidas para um oficial de tal órgão militar. Sete anos mais tarde, quando fora designado, como oficial miliciano (ou oficial de forças armadas que não faz parte do quadro permanente), para acompanhar um destacamento militar transferido para os Açores, escrevera em carta para a então noiva, Mécia:

“(...) Sinto-me imensamente bem-disposto, matando saudades do mar, se é possível matá-las numa viagem de turista, em que a navegação é por conta alheia. A facilidade com que eu largo tudo por uma coisa destas não deve admirar-te: está-me na massa do sangue, e nada tem que ver com o profundo sentimento que levo comigo. Mas, para mim, ainda maior que o prazer de vir ou estar em novas terras (onde, aliás, detesto demorar-me – a não ser o muito que mas torne reais, como aconteceu com o Porto) é o de viajar, ir até elas. Nisto compreendo bem, por mim, o que seja o espírito de aventura, que, entre nós, temos sempre. E é curioso como, em face dele, chegado o momento, os hábitos e as ligações desta se esfumam, para só reaparecerem quando as condições de estabilidade tornam possível e necessária a criação de novos hábitos, cujo aparecimento gera a saudade dos antigos.

      Ele acrescenta ainda:

“(...) Senti mais uma vez e, agora com lúcida e não infantil consciência, como era verdadeira a vocação que me arrancaram.”

      Essas correspondências calham por confirmar seu prazer pelas andanças, o que, depois, acabará por tornar-se motivo – inda que inesperado e, poderá se especular, forçoso – “estilo de vida”.       Com a Marinha fora de seu alcance, De Sena ingressou no curso de Engenharia Civil à fim de “amenizar” o desprestígio de ser excluído da Marinha. Terminado o curso em 1944, este não lhe motivou grande interesse e nesse período escrevera em abundância ensaios, cartas, artigos e poemas. Em 1940, sob o pseudônimo de “Teles de Abreu”, publica seus primeiros poemas nos Cadernos de Poesia. Em 1942 publica Perseguição, seu primeiro livro de poesias – livro este chocou pela “obscuridade e dificuldade de leitura” de suas poesias, o que se mostraria, no futuro, ser apenas uma enorme riqueza literária que não tinha ainda encontrado a expressão poética adequada.       Em 1947 acabou por iniciar sua carreira de engenheiro. Em 1949 casara-se com Mécia e, ainda exercendo a profissão de engenheiro, iria ocupar todo o seu pouco tempo remanescente com as atividades de tradutor e revisor até 1959. Em 12 de Março de 1959, De Sena teve participação num golpe revolucionário abortado, onde houve várias prisões, o que deixou a sensação de “quem será o próximo?” no ar.       Em agosto deste mesmo ano, aproveitando o convite para participar do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, pela Universidade da Bahia e, logo em seguida, sendo convidado a permanecer como catedrático de Teoria da Literatura, em Assis, São Paulo, resolveu ficar e dar início a seu exílio. Dois anos depois fora transferido para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara como docente de Literatura Portuguesa. Defendeu sua tese de doutoramento em Letras e livre docência em Literatura Portuguesa em 1964. Em 1965 fora convidado – e aceitou – a dirigir cursos avançados e teses de doutoramento em literaturas de língua portuguesa na Universidade de Winsconsin, Estados Unidos. Depois, em 1970, fora transferido para a Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, como docente de Literatura Comparada – local ainda onde viera a falecer, em 1978.

Brasil.

      No período de cerca de seis anos em que esteve no Brasil, escrevera para além da metade do romance Sinais de Fogo e a totalidade dos contos que compõem as Novas Andanças do Demónio, além de obras nos campos da poesia, teatro, ficção e ensaios.       Suas obras, principalmente as compostas aqui no Brasil, se fazem de interessante leitura não apenas pela constante dor do isolamento e exílio de Portugal, mas também pelo fato de De Sena exilar-se no Brasil justamente nos em que se iniciavam o golpe e a instauração da truculenta ditadura militar. Além do incomensurável valor literário do autor, é questão interessantíssima direcionar o olhar de leitor através dos modelos de vida experimentado por ele nos anos em que viveu no país.       Jorge de Sena era imensamente consciente da literatura que produzia e do seu vanguardismo estético. A novela O Físico Prodigioso – que fez parte, antes de sua publicação solo, das Novas Andanças do Demónio, em especial, traz todo esse vanguardismo e autoconsciência, permeados por uma libertinagem sexual e de valores que é – ou pode ser – justamente a concretização do amor humano. A obra toda constitui uma grande ironia, articulada em torno do “manual moralizante” português Orto do Esposo e que ainda gera grande especulação sobre tanto a trajetória da personagem do Físico, quanto dos elementos que compõem o enredo e se misturam (?) com a própria vida do autor (De Sena chega a dizer no prefácio de uma das edições da novela que “pouco do que eu alguma vez escrevi é tão autobiográfico como esta mais fantástica das minhas criações totalmente imaginadas”). Mais detalhes sobre a obra nesta pequena resenha.       Interessante também, ainda pela mescla de obra literária e exílio no Brasil, é a obra Correspondência – Registros de uma convivência intelectual, 1997 – editora Unicamp. Nela estão reunidas as correspondências trocadas entre Jorge de Sena e seu amigo e docente que conhecera em Araraquara, Dante Moreira Leite.       Nas correspondências pode se observar não apenas a conversa de dois amigos, mas também uma visão dos cidadãos contemporâneos à época da ditadura – e ainda, algumas vezes, sob uma visão acadêmica – que assolava o país. Tem um “saborzinho histórico” e, com certeza, sem interferência – que encontra-se em algumas obras aqui publicadas – propiciada pelo jogo de interesses e “favores” instaurado como doença crônica do Brasil. É realmente interessante.       Finalizando, em 1995 o romance Sinais de Fogo – que, como já anteriormente dito, teve largo de sua parte escrito em terras brasileiras – teve sua adaptação para os cinemas, dirigida por Luís Felipe Rocha. Em 2011 fora lançado o volume póstumo América, América, que reúne textos sobre a vida política e cultural estadunidense entre os anos de 1968 e 1978.       Enfim, apesar de um pouco extenso, este artigo ainda é ínfimo no que diz respeito a descrever a carreira desse proeminente – e, infelizmente, ainda não tão conhecido no Brasil – autor português e também sua incrível capacidade literária. É minha dica de leitura para quem gosta de se aventurar em leituras de caráter fantástico e também extremamente interpretativo.

     Obra completa, biografia e vasto material relacionado ao autor pode ser encontrado nesse excelente site da Universidade Federal do Rio de Janeiro: ler Jorge de Sena.

Referências:

Jorge de Sena: Perfil do Homem e da Obra. Lisboa, Eugênio. Editorial Presença - Londres, 1983.

O Físico Prodigioso. De Sena, Jorge. Edições 70, 4ª edição - Lisboa, 1977.


Vinicius Ribeiro de Andrade

Graduando do curso de Letras na UFSCar. "Ledor", escritor e humano..
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