estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Da glória

O equilíbrio dos dias é sempre precário. Uma micro-narrativa que procura traduzir a fórmula ritualística que urdimos para, no limite, preservar a sanidade.


fumo.jpgA minha avó levantava-se ainda de madrugada para engomar a roupa do marido. Um dia, acordou-me para acompanhá-la no pequeno-almoço. “Anda. Acabei agora de engomar a roupa do teu avô e o leite está a arrefecer” -, sussurrava-me com a rouquidão de manhãs gastas. Eu era criança e não media as palavras. Nunca a tinham confrontado. Talvez temiam uma reacção colérica. “Avó, o dei já morreu”. Ela sentou-se na cama, afagou-me os olhos estremunhados e beijou-me a fronte. Ergueu-se com a convicção de que a mudez seria mais eloquente do que as palavras que não tinha.

Cresci com os inúmeros rituais da minha avó. Só mais tarde percebi que a sanidade é mecânica e a loucura uma camisa do avô defunto esquecida no estendal. É preciso um esforço para manter intacta a jugular do quotidiano. Creio que o mesmo acontece com um velho que percorre o quarteirão, à tarde. Conheço-lhe a família desde criança e aprendi a ver as horas na beata fumegante que ele sempre depositou no canteiro. Quando já não havia sinal de fumo na beata, eu estava atrasado. Quando eu não encontrava a beata, temia que a morte já o tivesse fumado. Mas não. Talvez a empregada do prédio tenha aprendido outra fórmula para medir o tempo. Se pudesse, punia-a. Ninguém tem o direito de adulterar assim as horas.

O homem sempre fumou um cigarro por dia. Oferecia-lhe o irmão que já morreu. Se ele, agora, passasse a fumar dois e a depositá-los no mesmo canteiro, talvez eu não suportasse a existência de tempos paralelos. (Espero que o homem me proteja da loucura.) Como o irmão faleceu, ele vagueia em busca de um cigarro virgem. Enalteço-lhe o brio quando ignora um aborto precoce. Nos vários cafés do quarteirão, os clientes habituais também confirmam a cadência do tempo quando escondem os maços de tabaco. O velho ainda não despontou e já todos guardam os maços. É um espectáculo semelhante à hipnose colectiva. Se eu não interviesse, corria o risco de viver irremediavelmente fora do compasso.

O cigarro é a sua glória diária. É provável que saia de casa só para prosseguir a colecção de troféus na montra dos pulmões. Eu, que não tinha propósito algum, espero pelo velho para lhe oferecer um cigarro.

Eu não sou altruísta, velho. Vivo para te parasitar a glória.


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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