estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

O elogio da mulher

As assimetrias entre géneros persistem e a Mulher não está isenta de responsabilidades. Pelo contrário, a conivência acrítica está na génese de uma subalternização camuflada. Uma incursão de índole ensaística sobre a Mulher nas sociedades ocidentais, com Portugal como anfitrião.


PENLOP~1.JPGA odisseia é longa e ninguém, até hoje, desatou o nó. Para muitos, a subalternização da mulher está impregnada de vestígios criacionistas. Segundo as alegorias bíblicas, Eva fez-se a partir da costela de Adão. Um sub-produto, portanto. Inverter a equação, com algum lirismo, parece-me plausível. O esboço antecede a obra-prima. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Citar Pessoa, neste contexto, é espúrio, mas talvez seja esse o mérito da Arte: a partir da sequência demiúrgica de Pessoa, os arautos de uma qualquer primazia hormonal encontram a divisa adequada.

Ao longo dos séculos, as clivagens entre os géneros movimentaram-se como placas tectónicas. Transversal ao tempo dos homens é a falha sísmica que patrocina equilíbrios e desequilíbrios, acalmia e trepidação. Não é a harmonia que está latente, mas o sismo. Tempos houve em que a magnitude do sismo atingiu o zénite da escala, sempre com a mulher como grande força-motriz dos abalos. Aparentemente submissa, como Penélope, aparentemente ousada e livre como Helena de Tróia, as mulheres sempre foram pródigas nos ardis com que teceram a sua teia e derrubaram muralhas irídicas. Ignorar isto é ignorar o papel da mulher na Arte, a sublimação do espírito humano. É na penumbra clara que se preservam os grandes mistérios. Quem nunca se apercebeu disto que atire contra o espelho a primeira pedra.

Na contemporaneidade, com menos lirismo do que outrora, a luta das mulheres prossegue. Se, do ponto de vista formal, a igualdade entre géneros é um preceito constitucional das democracias ocidentais, as estatísticas e estudos sociológicos denunciam a persistência de assimetrias que se agudizam no meio laboral. São consabidas as ambiguidades que, em Portugal, beneficiam os homens em detrimento das mulheres com similares habilitações académicas e profissionais. O acesso às cúpulas do tecido empresarial, por exemplo, requer mais quedas do que Jesus, o Cristo, na via-sacra, e nem sempre se alcança o Gólgota. Quando chegam ao topo, a brisa que escala o vale ventila, amiúde, rumores sobre o ritual da lavagem dos pés. [Nem sempre os rumores são eufemísticos ou reflectem laivos de exegese bíblica.] Sobre os despojos ósseos de mulheres que sucumbiram, profana-se o mérito. A meritocracia é uma expressão de raiz feminina, mas o mérito é masculino. Se brandirmos o postulado segundo o qual “nada do que é humano me é estranho”, é lícito recorrer a traços civilizacionais idiossincráticos que, devido a uma pífia salubridade intelectual, são relativizados. É aqui que entra a pornografia, essa coisa execrada que está no cume da actividade dos internautas, mas não tem lugar nas discussões assépticas que incidem sobre o género.

Galáxia dos homens, as mulheres são as estrelas. Dir-me-ão que as produções pornográficas não podem ser invocadas porque representam o refugo cultural. Pelo contrário, as produções pornográficas não podem ser ignoradas porque, precisamente, exploram o imenso filão das brumas. “Não há enredo. Só sexo.” Errado. Há enredo. Básico e previsível, mas há. Também é previsível o facto de o enredo, amiúde, depender de uma entrevista de trabalho. Quem concorre ao lugar é a mulher. O homem entrevista. E entre as vistas de um decote generoso, a mulher inicia funções numa colaboração horizontal. A pornografia é uma das catarses dos tempos hodiernos. A mulher de joelhos, sujeita ao apedrejamento de línguas, enforma o imaginário, colectivo e privado, dos homens. [A maioria tem força de lei, pelo que lido bem com eventuais diatribes que denunciem generalizações pútridas.]

Todas as estruturas sobre as quais se erguem as sociedades ocidentais padecem de discrepâncias quanto ao género. Tomemos Portugal como exemplo, para suavizar a opacidade. A condição da mulher, contudo, não está enquistada. A partir do prisma conceptual, a sociedade portuguesa, ao consagrar nos seus códigos legais a igualdade entre os géneros, promove a mobilidade social. A consciência de que as assimetrias persistem desemboca, porém, na denominada “discriminação positiva”. O conceito é, em democracia, um paradoxo, mas o peso das tradições dominantes, não raras vezes, impele o poder legislativo a beneficiar minorias. As democracias esquecem-se, porém, de uma nuance que a História ensina: os braços da lei podem ser longos, mas há limites. Demasiado longos, dão a volta e reencontram-se. No meio, entre os braços paternalistas da lei, algo vai sufocar.

Os regimes mais opressores serviram-se da lei para a prossecução do seu ideário. As democracias mais frágeis são, curiosamente, as que revelam maior voracidade legisladora. Há mudanças que se operam, exclusivamente, nos esquemas mentais dos indivíduos que compõem uma sociedade. Só depois se convertem em evoluções sociais. Querer que a lei acelere o processo, mediante transfusões em veias que não reconhecem sangue “estrangeiro”, é um absurdo contra o qual só tenho isto: reflexão e condescendência. Ou compaixão.

Há um caso sintomático e inescapável. A lei portuguesa forjou uma “discriminação positiva” para combater a hegemonia política dos homens nos diversos órgãos electivos. Aplausos. Detacaram-se as feministas militantes que exultaram com “mais uma conquista das mulheres”. A lei impõe a presença de um determinado número de mulheres nas listas que concorrem aos órgãos de soberania. Esqueceram-se, porém, de que o conceito de “discriminação positiva” surgiu para proteger minorias ameaçadas por heranças, algumas delas ancestrais. Dizem-me que também se recorre a este unguento para emendar a trajectória esculpida pelas tradições. Portugal é uma sociedade patriarcal, reforçam. Há quantos séculos nos conhecemos como país? Seria tão mais fácil se Aldoux Huxley ressuscitasse com a prerrogativa, concedida por Deus, de obliterar tudo o que fomos, até hoje, com aquela substância que deportava o pensamento. Oh, seríamos uns admiráveis imundos novos. O mais próximo que temos é a hóstia. E, com tudo o que ela significa, continuamos a digeri-la, porque mastigar Nosso Senhor é feio. [A palavra chave é esta: minorias. Glosando Pessoa, entender? Entenda quem lê.]

A imposição de quotas para “acelerar o processo” que idealiza a paridade é contraproducente. Mesmo que as mulheres que figuram nas listas ou, na melhor das hipóteses, nos órgãos electivos, disponham de indubitáveis méritos, a suspeita paira e corrói. O desempenho, ripostam os apologistas da medida, poderá erradicar as dúvidas. Pode. Mas o precedente foi aberto. Apetece citar um verso que Ana Moura canta: “Eu estava ali só porque tinha que estar” e é esse o remoque mais frequente que visa as mulheres que exercem funções de soberania à boleia do imperativo legal. A tradição confere primazia ao homem.

Assunção Esteves não foi guindada a Presidente da Assembleia por força da lei. Mas não foi a primeira escolha. [No âmbito partidário, há facções dentro do mesmo partido. As “mulheres socialistas”, porém, não representam uma facção, mas um gueto. De mulheres.] A necessidade de pugnar, na prática, pela igualdade entre os géneros não é uma responsabilidade exclusiva das mulheres. Numa democracia consolidada - cujo grande pilar é, sempre, a consciência cívica -, radica na lucidez o motor propolsor para a erradicação de deformações. Quando a lei se antecipa para alterar o copioso curso da história, as cheias são expectáveis. Cheias de nada. [Mantendo a analogia, os pequenos terrenos de cultivo que ladeiam os rios podem não ser úberes, mas a obstinação de quem o arroteia gera frutos. Quando a intervenção humana, mesmo que benigna, se arroga o direito de substituir constantes por variáveis, teremos crianças a caçar rãs nos pântanos.]

A epopeia das mulheres é insofismável e merece a minha vénia. A minha e a de todos os que reconhecem as injustiças que compõem os séculos. Como exaltação dessa epopeia, a ONU consagrou o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, assinalando para a posteridade o sacrifício de mulheres que pereceram quando lutavam pelos seus inalienáveis direitos. Em Portugal, toda a sociedade comemora o dia.

Floristas que passam o ano a falar com as flores, ou a compor velórios, imergem num corrupio quando os homens se recordam de que, “pá, hoje tenho de lhe dar qualquer coisa.” Os restaurantes promovem ementas especiais e publicitam-nas com antecipação. Vale a pena atentar nas ementas. Há sempre qualquer coisa fálica, nem que seja um bife em forma de pénis. As ementas estão enxameadas de sexo ostensivo. As mulheres reúnem-se, orgulhosas. Esquartejam, enquanto mordem o lábio, o bife fálico. Talvez haja aqui um qualquer efeito catártico. Não faltam os pepinos, os chouriços e as salsichas. No final da refeição, já despidas de pudores, porque Baco sabe o que faz, tiram fotos enquanto bebem um shot com a perícia de quem não é neófita nas artes do fellatio. Na Madeira, onde os santuários da poncha são destinos incontornáveis, os “caralhinhos” exercem um efeito magnético. [Para o leitor à margem do jargão madeirense, o “caralhinho” é o utensílio com que se mexe a poncha.]

Para coroar a noite gloriosa das mulheres, um espectáculo de striptease masculino. É vê-las numa ebulição hormonal, celebrando a liberdade pela qual tantas pereceram quando recusaram a subalternização, a exibição como troféu ou a mera redução à condição de objecto sexual. Agora, felizmente, isso não acontece. É o homem quem tira a roupa, sujeito às ordens das mulheres. A mulher celebra, também, a sua liberdade sexual. Esta é a principal premissa que norteia a forma como a sociedade enaltece a mulher: liberdade sexual. Não percebem, porém, a máxima de Lampedusa, segundo a qual “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma.” Se, na sua génese, o Dia Internacional da Mulher presta tributo à epopeia, na prática a mulher é devolvida à condição de utensílio. Torna-se grave quando a mulher é conivente e alimenta, sob os auspícios da acefalia, este ultraje. [Desafio uma mulher a identificar um espaço comercial, na Madeira, que acolha espectáculos de strip masculino durante o ano. Esperem pelo dia 8 de Março.]

A noite é o terreno pródigo onde se manifesta a acefalia. As ladies night são um clássico. As mulheres não pagam. Discriminação, dirá um machista. Discriminação positiva, dirá uma feminista. Nessas noites, predominam os homens. Tendencialmente, bebem mais. A mulher é o isco economicista. Os proprietários estão cagando [perdoem-me o vernáculo, mas adequa-se] para os direitos das mulheres. Querem o consumo. Mesmo que os homens predominem, há sempre mulheres. E é vê-los, salivantes, em busca de presas. A noite é deles. “Perdoa-Lhes, Pai, porque elas não sabem o que fazem”.

Vai longo o texto. A ideia seminal que o gerou está aqui, neste parágrafo. No idos de Março, uma discoteca do Funchal dinamizou uma noite temática. A descrição da festa está pejada de lascívia subliminar. A ideia é esta: na porta, o homem recebe um parafuso. A mulher recebe uma anilha. No cartaz, porém, recorre-se a um sinónimo: porca. A festa assenta na lógica das compatibilidades: para cada parafuso, uma porca correspondente. Já me disseram que me falta um parafuso. Já que ofereciam na porta, só faltava ir à procura da minha porca. Só para essa noite.


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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