estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Ruínas com gente dentro

O poder da palavra escrita a quem está privado dela.


velho.jpgA velhice é uma brutalidade. Uma brutal idade. Dizem-me que parti a perna, mas eu sinto que as consequências daquela queda não são tão prosaicas. Os velhos, quando caem, não partem membros. São vítimas de eixos demasiado corroídos pela ferocidade do tempo. E é tudo tão branco e puro quando um velho é feito refém de uma cama impessoal. Porque somos inofensivos pelos actos, parece que a brancura nos molda o pensamento. Eu podia concluir que este branco totalitário é uma espécie de beatificação forçada, como se fôssemos obrigados a esquecer as cores com que se fazem as manchas.

Eu estou lúcida e quero ser capaz de ser má, para poder escolher a bondade. Apetece-me dizer às minhas filhas, aos meus netos e bisnetos, aos meus genros e a todos os que me visitam: “vistam os enfermeiros e os auxiliares de outros cores, até de preto.” Eu podia ser mal interpretada, porque aos 80 anos temos de medir as palavras para evitar diagnósticos que financiam os depósitos de velhos. Se eu pudesse aconselhar todos aqueles que visitam os seus velhos, mesmo aqueles que respiram já envoltos em mortalhas recicláveis, diria para não dispensarem o negro. Mesmo que signifique uma preparação do luto e todos vos censurem. Todos nós gostaríamos de ver que aspecto tem a dor de quem sofre pelo nosso fim.

O corpo traiu um espírito que se mantém obstinado e ágil. Não me obedece e os meus movimentos estão muito limitados. Mas vejo tudo com uma nitidez inusitada. A senhora que jaz na cama do lado passa o dia a fitar o tecto. Nota-se a lucidez quando falamos, mas ela mantém os olhos na altitude máxima a que eles podem aspirar. Se o colar cervical não lhe manietasse o pescoço, creio que manteria os olhos fixos no tecto. Disse-me que viajou muito e arriscou ainda mais. “Vivi sempre nos limites”. Ficou-me esta frase de quem encara a cama do hospital como outra odisseia e o tecto como o hábito de contemplar o limite do horizonte.

O lápis do tempo foi particularmente minucioso nela. Desenhou-lhe no rosto o espanto. Os pómulos descaídos denunciam a sucessão de admirações. Estar boquiaberto costuma ser o estado de quem se espanta. Não é a posição normal da boca. A minha vizinha está sempre boquiaberta. Parece fazer um esforço para não juntar os lábios, como se os condenasse a uma orfandade que só se interrompe quando o marido a visita, nos sonhos. Reinventar o espanto, nesta cama, é uma Arte. [Dei por mim, há dias, a observar outra paciente revoltada porque alguém se antecipou e juntou o pacote de leite caído. Durante minutos, protagonizou um duelo épico com as suas limitações, quando tentava alcançar a embalagem que se aninhou sob os lavabos. A velhice reduz as ambições, mas continuamos a tê-las.]

Há alguns anos que padeço de problemas ósseos. O meu médico sempre disse que precisava de ferro. O ferro que me atravessa a perna esquerda tornou literais as palavras dele. Estou, agora, em comunhão com a minha velha casa, desde que lhe reforçaram o equilíbrio com vigas para adiar o colapso. Sinto bolor nas esquinas, a queda do cabelo lembra-me a cal a sinalizar o cansaço das paredes e os sonhos parecem a trepadeira que se cansou de crescer. Mantenho o mesmo peso, mas é cada vez mais difícil transportar-me, sinto-o pelo esforço dos enfermeiros. Acho que as pessoas doentes pesam mais. Somos uma casa em ruínas com gente dentro.

Dizem-me que o hospital está lotado. Há pessoas em lista de espera, lá fora. Eu sinto que me faltam à verdade. Há, sim, pessoas em lista de espera para morrer. Devia ser possíve acelerar a implosão. Uma companheira de quarto revela uma louca lucidez. Ouvi diálogos dos familiares sobre o extravio da sanidade. Tudo porque a senhora não cessa de premir o botão que convoca os enfermeiros. Sempre que alguém acorre ao seu chamamento, ela pergunta: “Posso ir?”. Viverá em paz exterior o tempo que lhe resta. Não grita nem contesta. Resginou-se aos ditames insondáveis traduzidos por enfermeiros e médicos que só sabem que “ainda não”.

Os andares do hospital parecem camadas de silêncios podres que se acentuam na subida. Acho que os doentes com uma maior esperança média de morte estão reunidos nos últimos andares. A morte, aqui, é uma coisa pouca higiénica e nada privada. Disseram-me que um homem, na agonia, conseguiu expressar o seu último desejo num papel. “Peço que saiam todos. Quero morrer sozinho. Já me bastou viver entre estranhos. Obrigado.” Há uma grande coerência nisto. Se definem a morte como um sono eterno, poucos são os que admitem dormir com estranhos. A morte é toda uma vida nua.

Há dias, enquanto observava um pouco do mundo pela janela do quarto, a rotunda exerceu um efeito magnético. Foi uma espécie de revelação alucinada. Pareceu-me ver o mesmo carro amarelo em círculos ininterruptos. Era o táxi do meu marido, o Zeca, num serviço longo sem sair do mesmo sítio. Ele tinha o poder de se iludir. Transportava os estrangeiros em visitas guiadas à sua prisão. Um dia, o meu neto disse-me que já tinha conhecido outros países e até tinha atravessado o Atlântico, mas nunca teve mais prazer do que sonhar no carro antigo do meu cunhado. Era um Morris preto, sempre parado à porta de casa. Lembro-me de vê-lo a fingir que tirava fotografias, quando criança, enquanto o meu cunhado pressionava o acelerador de um carro que não saía do mesmo lugar. Espero que o meu neto nunca descubra o travão.

Gosto particularmente das visitas da minha primeira bisneta. O quarto do hospital foi um mundo novo para ela. As crianças são portadoras de uma arte poética. Quando me visitou, eu tinha um peso atado à perna para impedi-la de se mover. A minha bisneta olhou para o objecto suspenso, sentiu-lhe o peso e disse-me: “avó Marieta, não deixes que te tirem esta bola. Tens de ficar presa ao chão.” Depois, olhou para o céu e carregou no botão. Chegou um enfermeiro. Ela disse: “a avó Marieta tem medo das alturas e isto é muito alto.”. Olhou pela janela e viu o afã de obras no piso térreo. “Avó, os senhores das obras vão deixar-te boa.”


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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