estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Titanic (carta ficcional de um passageiro madeirense)

A bordo do Titanic, cujo naufrágio ocorreu há pouco mais de 100 anos, seguiam passageiros naturais da Ilha da Madeira (Portugal), Manoel Estanislau, Domingos Coelho e José Neto. A carta, fictícia, é endereçada por Manoel Estanislau à sua mulher, Maria.


imagem_mensagem_na_garrafa.jpgMaria,

Não sei se alguma vez chegarás a ler esta carta. Escrevo-a na esperança de que ela sobreviva até aos nossos filhos. Há pouco, um tipo que trabalha como fogueiro, mas caldeiras do navio, esteve connosco a jogar cartas. É inglês, mas tem família em Portugal. Pensei tanto em ti quando ele nos levou a um dos conveses. (Desde que o Domingos ouviu a história dos monstros marinhos, teme que algo se erga das ondas. Eu e o Neto rimos tanto.) Concretizei, por ti, o sonho que persegues: ver mar e céu. Só. Se as coisas correrem bem nas Américas, compro-te uma passagem que te permita passar toda a viagem no Titanic a contemplar esta harmonia plena entre céu e mar.

No convés, a temperatura parece estilhaçar os ossos. Estamos no Atlântico Norte e navegamos há quase 4 dias. O Stuart, sempre que pode, vai até ao convés. Diz que o calor das caldeiras tornam-no mais permeável à dor que a saudade traz. Vi-o trabalhar. Alimenta o fogo com a alma. Depois de conhecer a história dele, parece-me que o suor é o degelo da angústia. No convés, o frio entorpece. É para lá que ele se esquiva, sempre que pode. Ficámos assustados quando ele se debruçou na varanda. Disse que queria ter no espírito o gelo do Atlântico para conservar intactos os bons momentos que a vida incinerou. Afinal, debruçou-se para remover um pouco de gelo que se incrustou no casco. Cuida do Titanic com um desvelo que se explica pelo facto de ter trabalhado nos estaleiros. (Para nosso espanto, mastigou o gelo. O tipo é um pouco excêntrico, mas bom rapaz.) Há muitos italianos na terceira classe. Conseguimos entender-nos. O ambiente tem sido agradável, mas os italianos são muito expansivos. Vi uma briga entre pai e filho por causa das cartas. Enganam-se uns aos outros e acabam aos abraços, bêbados. Boa gente. Dizem que, na primeira classe, estão alguns dos homens mais ricos do mundo. De alguma forma, somos todos tripulantes do mesmo navio. Maria, poucos pisos me separam da riqueza. Gosto de pensar assim. Com a graça de Deus, teremos o suficiente para que os nossos filhos não tenham de atravessar o Atlântico por necessidade.

Desculpa-me por ter partido de madrugada, enquando dormias. Não quis despedir-me. Seria mais doloroso. O Francisco estava acordado, mas fi-lo prometer que não te diria nada até à hora em que o navio zarpava do Funchal. Tenho a certeza de que cumpriu. Desculpa-me, também, por ter ignorado as tuas súplicas e temores. Aqui, de onde te escrevo, o compasso dos motores recupera a cadência das tuas palavras. Mas tu sabes que eu tinha de vir. Tenho mais anos de trabalho do que de vida. Não sou novo e não tenho tempo para ser velho. Dilacera-me o choro dos nossos filhos, quando o que a mesa lhes dá não é suficiente. Eu tinha de fazer alguma coisa.

(Despeço-me, por agora. Vou ao convés. É a folga do Stuart.)

Maria, estávamos no convés e o Domingos começou a gritar. Pensei que era alguma quebra de tensão provocada pelo frio. Ele tiritava e soluçava sílabas. Limitava-se a apontar o dedo para qualquer coisa indefinida no meio das águas. Era um icebergue. Nunca tinha visto tanto gelo. Parecia uma daquelas ilhas que vemos desde a Calheta, mas feita de gelo. O navio abanou um pouco, mas não deve ser grave. Devemos ter roçado o icebergue, mas os estragos não devem ser significativos. Sabes o que dizem acerca do Titanic? Nem Deus consegue afundá-lo. Sabes como é o Domingos, não? Benze-se sempre que ouve isto. Maria, continuo nas imediações do convés. Há alguma agitação no navio. Parece que aproveitaram o pequeno incidente para testar a reacção da tripulação numa situação de emergência. Nós pretendíamos regressar para a terceira classe, mas fecharam as portas de acesso. Devem limitar o exercício à primeira e segunda classes. Dá-me um instante. Chamam-me para ajudar a preparar um bote. Maria, o navio está ligeiramente inclinado e os motores pararam. O Stuart foi à sala das caldeiras. Já não há fogo, só água. Estão a embarcar mulheres e crianças da primeira classe. Só depois embarcam os restantes passageiros. Deve ser por precaução. O Stuart diz que o Titanic tem vários compartimentos estanques. Mesmo que algum esteja inundado, os outros resistem. Que assim seja. Maria, há pânico. Parte da proa do Titanic já está submersa. Ouvi um tiro. Não sei se foi para o ar, como sinal de perigo. Manter-se de pé começa a ser difícil. Dei por mim com a postura de um agricultor que trabalha os últimos centímetros de terra, antes do abismo. O Domingos e o Neto foram à terceira classe. Não voltaram, até agora.

Maria, meu amor, a garrafa de poncha* que me ofereceste, nas vésperas de eu partir, servirá de guardiã sem destino desta carta. Enquanto puder, escrevo-te. Já não há botes. O Stuart bebeu meia garrafa e atirou-se. Tentei demovê-lo. Registo as últimas palavras dele, como tributo. “Vivi no mar que me atraiu. Morro no mar que me traiu.”

Maria, daqui a pouco só haverá céu e mar. Nem o Titanic. Maria, daqui a pouco o silêncio cumpirá a sua missão de sossegar os mortos em parte incerta. Atei-me à varanda do convés. Não quero ser um morto à deriva. O meu sepulcro será o sítio onde eu queria que inaugurasses uma nova vida. Vou atirar a garrafa para o mar. Um epitáfio é a síntese da vida. Amo-vos. Amo-te. Este é o meu epitáfio.

Manoel

14/04/1912

Titanic

*Nota do autor: Poncha é uma bebida típica da Madeira, feita com aguardente, mel de cana e sumo de limão, segundo a receita original.


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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