estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Agora e na hora da nossa morte


ceu.jpgTrocamos sinais codificados. À noite, só à noite. Somos insones sobre as vagas. Eu na vaga que Deus me confiou. Vocês nas vagas altas que pescam homens que não andam sobre as águas. Gosto de pensar que a ponta incandescente do cigarro é o único ponto luminoso que vos indica o caminho do regresso. Ou que as vossas luzes bruxuleantes, no horizonte místico, são mensagens em código morse que me indicam o caminho da partida.

Registo-vos a localização com a cartografia dos olhos. Quando um ponto de luz se extravia, temo que Deus vos tenha atribuído vagas na ausência. [Morrer é um concurso público sujeito à arbitrariedade do empregador. Ou de quem emprega dor.] Na noite seguinte, espero pela hora do ardina. O jornal devolve-me a vossa localização, porque a cruz abrange todos os pontos cardeais. Nunca houve símbolo mais absoluto para compor a cartografia da ausência. [Amanhã, os homens tratam de vos vingar. A página que consagra a vossa omnipresença na memória servirá de mortalha aos peixes que vocês perseguiram até ao último porto.]

Tinha de conhecer o ardina. Escolheu uma profissão que lhe permitia preencher as horas vagas da madrugada. Chegava sempre com as calças molhadas e das mãos libertava-se um odor a mar. Carregava um saco que, numa das noites, sucumbiu ao peso pétreo dos habitantes das rochas. Eram lapas e caramujos embrulhados em jornais estrangeiros. Antes de iniciar a distribuição de jornais, percorria as ruas arrendadas pela miscelânea de línguas. Explicou-me que, para sobreviver à condenação de quem se confunde com a pedra de basalto, aprendeu a mendigar em todas as línguas. Continuou a ambicionar descobrir a língua de Deus, de quem nunca recebeu uma esmola. Desistiu da ideia quando percebeu que o problema não é dos homens. Mais tarde, deixei de o ver. Disse-me que pretendia oferecer-se a Deus como intérprete dos homens que O procuram. Encontrou-O numa vaga do horizonte que apagou o fogo que consumia aquele desejo ardente de tradução. No mar, não tinha moedas para subornar Caronte.

Só lhe comprava um jornal quando algum emissário dos horizontes opacos deixava de emitir sinais em código morse. Depressa outro ardina o subsitituiu. [Nunca há crise de oferta entre os homens que distribuem lápides no sono dos outros.] Já estava à espera do jornal que explicaria novos cortes na jugular do meu horizonte secreto. O homem chegou a cambalear. Facultou-me um jornal e fez-me um sinal para esperar. Da bolsa, retirou uma fotografia. Outras, iguais, caíram. Eram réplicas. Também retirou dois copos sujos e uma garrafa de whisky. Encheu os copos e estendeu-me um. Embebeu uma das fotografias em whisky e queimou-a. Brindámos. Ele trepidou. Bebeu como se fosse lava e deixou que uma gotícula pousasse na ferida aberta do pulso. “É preciso ver o sangue correr e estancar a hemorragia a tempo. Nada é mais belo do que a dor de ver Roma arder. O sol nunca se põe nas terras do Imperador. Aquele onde impera a dor.”

Despediu-se e nunca mais o vi. Soube que morreu numa casa em ruínas, antes de o sol se pôr. A casa ardeu. Encontraram no jardim uma mensagem composta pela disposição milimétrica das fotografias replicadas de uma mulher. Lia-se: “o sol nunca se há-de pôr no Império da nossa morte.”

*Foto da autoria de Joana Ferreira


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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