estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Valsa lenta

Nada é mais literal do que passados desfeitos nas ruínas das casas. Um tributo.


fechadura.jpgRefugiei-me sempre naquele muro alto, sobranceiro à rua, na fronteira perigosa da queda. As costas plasmavam-se na pele velha da parede exterior. Sentia-lhe o pulsar obstinado em cada intervalo da vertigem e guardava os pedaços de tinta que se desfazia. Creio que me precavia contra qualquer funesta eventualidade. Para as crianças, os bolsos são os mais fiéis cúmplices dos sonhos. Eu guardava fragmentos da casa e esquecia-os naquele reduto, privado até entregar a roupa nas mãos diligentes da minha mãe. Dias depois, quando voltava a envergar aquelas calças, o vazio dizia-me que a minha mãe tinha deitado a casa fora. “Tens sempre pó e coisas brancas nos bolsos”, censurava-me. Eu calava-me com a arrogância infantil de quem guarda o segredo da alquimia e lamenta a lucidez árida dos adultos.

Eu tinha o poder de refazer a casa. Só bastava que os adultos percebessem que a sujidade da minha roupa eram os despojos do meu ofício. [A casa também gostava de mim, mas faltava-lhe parcimónia quando expressava o afecto. Enquanto dormia, fazia-me cócegas nos olhos com a cal do tecto. Ao subir as escadas, rasteirava-me com o colapso súbito do degrau. Quando comemorei o primeiro aniversário, iluminou-se toda com o auxílio estouvado de circuitos demasiado eléctricos. Ardeu por completo e eu ainda não tinha começado a guardar os genes. A festa do meu aniversário foi uma notícia triste no jornal do dia seguinte. As casas podem exceder-se quando cometem a heresia de eleger um filho preferido.]

Sempre me pesou o receio de ficar aquém do que a casa idealizou para mim. Escrevo isto para devolver algum equilíbrio a esta relação ardente. Parecia-me que aquela casa não se resignava aos seus próprios limites. Sempre que um familiar emigrado regressava do Mundo, manifestava-se e exasperava os herdeiros que reagiam com desdém às demonstrações de cosmopolitismo. “Esta casa está a cair de podre”, vociferavam. E a casa infiltrava-se, furtiva, nas malas para o Canadá, África do Sul, Curaçau e demais paragens que se demoravam no léxico da minha avó. Podia ter durado mais o fulgor da casa, mas acelerou a decomposição na diáspora. Interpretei-lhe as ânsias e também contribuí para lhe alongar as fronteiras. Antes de cada viagem, percorria-lhe o corpo e deixava que ela escolhesse as partes que queria ancorar noutro país. Há quase 5 anos que não a visitava. Há quase 5 anos que sou cúmplice daquela implosão delimitada. [Dói menos quando morremos em vários lugares.] Voltei com o pudor de quem desilude e a casa deve ter reconhecido o cheiro que se apropria de um corpo feito sítio. Ou em estado de sítio.

Parece-me que a saúde das casas depende das vidas que as habitam. Quando lá vivia, ansiava pelo Natal que lhe devolvia o viço. A tinta fresca, nas paredes internas, devolvia-lhe a esperança de eternidade, com a cumplicidade de um homem crucificado, no único recanto da parede que não transpirava, condenado a nunca baixar os braços enquanto existir quem resista às hipérboles. [A crença deve ser um lugar fresco]. As paredes exteriores ficavam entregues aos ditames do tempo, não obstante a paciência de santo, ou de Sísifo, do meu tio. Hoje, a mesma parede exterior é atravessada por fissuras como feridas abertas nas gargantas que se calaram.

Quando questiono o meu tio acerca da casa, aquele voz que se fez langue retoma fulgor. Ele sempre foi um devoto das coisas paradas que poderiam mover-se, se quisessem. O Morris preto tinha o seu lugar, à porta de casa, tatuado pelas ervas daninhas que cresciam nos limites da sua sombra quase imóvel. [Só o sol lhe conferia a ilusão do movimento. Era um lugar parado com mais fusos horários do que a Rússia. No lado do passageiro, eu escolhia o destino e o meu tio acelerava. Um dia, perguntei-lhe se podia travar, porque íamos muito depressa. Ele respondeu que não há limites de velocidade quando sonhamos. “O travão é uma peça de desgate rápido”. Acho que se referia à vida. Ou à morte.]

Quando a casa foi votada ao abandono, os alertas de quem descobriu nela a intenção de se mover foram contrapoducentes. O meu tio regressava todos os dias àquele lugar parado que, se quisesse, se moveria. Tratava-lhe do corpo como se velasse um parente em fila de espera na câmara ardente. [Uma casa abandonada é como um cadáver em exposição e há ruas que lembram cortejos fúnebres à espera de vaga na vala comum da memória.] Agora, o meu tio está cansado e só lhe restava guardar no bolso a chave de uma casa que não mais será aberta com a mecânica liturgia da pertença. Aquela porta poderia mover-se. Se o meu tio quisesse.

Porque as casas merecem morrer com dignidade e é lícito negar-lhes o óbito, acompanhei-o com o silêncio pungente dos peregrinos que visitam relicários. A porta moveu-se com relutância. As sombras dos santos, que a minha avó coleccionava como cromos, ergueram-se como vultos que pregam Deus nas ruínas [ou nas ruínas de Deus]. Tudo na casa é lamento e pranto. Os degraus reagiram aos meus passos com cansaço, mas reconheceram-me na queda. [A solidão daqueles corredores escuros é uma epifania. Só os homem morrem de repente. Tudo o mais nasce com antídoto contra as promessas e figuras de estilo renovadas em novos testamentos.] Terminámos a volta fúnebre, fechámos a porta e o meu tio atirou a chave para a caixa de correio. A casa recebeu a notícia da solidão com o talento de alguns mortos exímios a criar hipóteses. [“Porque as coisas podiam ser diferentes, se eu vivesse”, imaginei-lhe o pensamento.]

Disse à minha avó que iam deitar a casa fora e eu já fui contagiado pela lúcida aridez dos adultos, penitenciei-me. “Trancaste a porta, filhinho?”

*Foto de Gil Reis


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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