estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Liberto-te e vou contigo

Um velho, o cárcere e o vício da liberdade. Conto do meu primeiro livro, "O Tricot do Tempo", publicado em 2007.


carcere.png Recordo-me, com uma nitidez que já não julgava possível pela erosão da memória, do primeiro contacto visual com aquele esguicho de humanidade. Num cárcere túrbido, um homem com a pele encarquilhada, encolhido pelos constantes espasmos a que se reduzia a sua vida, recebeu-me com um olhar ladino e furtivo, de quem, espiando o outro, se espia. Sob os andrajos imundos com que protagonizava um combate quixotesco contra o frio, a harmonia, cruelmente perfeita, entre os soluços do corpo e a intermitência do verbo. As primeiras palavras que me dirigiu atordoaram-me mais do que a exiguidade fétida daquele espaço, ou as cominações mordazes dos carcereiros. - Bem-vindo à liberdade -, soou, com um ímpeto hercúleo, aquela voz, originando o meu segundo espanto. Lá fora, os guardas, na orgia da acefalia, riam-se, antes de decretarem “silêncio”.

- Não quero diálogos à noite, oh louco. Silêncio, ou tomo a liberdade de te reabrir a liberdade.

Não podia compreender a motivação da última frase. Nos dias seguintes, quando ele se despojou, suando, dos andrajos, compreendi a ameaça. Ao longo de todo o braço direito, a pústula da liberdade exibia-se. Deduzi que a queimadura havia sido por ele próprio infligida, num arroubo de demência ou desespero. Enganei-me, porém. Ou não. Mesmo após a sua sucinta explicação, e decorridos tantos anos, não sei como avaliar aquele acto. Oscilo entre a loucura pura e a lucidez plena.

- Pedi cigarros, mas eles rejeitaram. Devido à minha pertinácia, os guardas acabaram por sucumbir ao enfado, comunicando à direcção prisional o meu desejo. Com o intuito de me iludirem, quebrando a minha obstinação, alegaram que a direcção só poderia reconhecer o pedido se redigisse uma carta, expondo, com minúcia, as razões que motivam o pedido. Por que pede um homem cigarros? Porque fuma, responderá você. Talvez. Não tenho dúvidas de que a direcção pretendia agudizar a minha inquietação, recorrendo ao escárnio e a dilações. A verdade é que eu não fumava, embora eles não soubessem. Comecei a fumar na prossecução da liberdade. Percebe, agora? Pedi cigarros, mas não fumava.

Não percebi. A sequência daquelas palavras, numa primeira fase, não produziu qualquer efeito inaudito. Um prisioneiro suplicava por cigarros, para satisfazer o vício. A direcção prisional negava e escarnecia, prolongando o sofrimento. Mas não. O prisioneiro pediu cigarros, mas não fumava. O prisioneiro confessa-me que fumar integrava-se num plano de liberdade. O terceiro espanto.

Durante dias, o nosso diálogo foi escasso. Limitava-me a observá-lo a fumar, com galopante avidez, aproximando-se do minúsculo postigo, para o qual olhava, absorto, alienado, vidrado, louco, enquanto o fumo serpenteante se evolava no ar, evadindo-se ao claustro. Enquanto a sua boca fumegava, perto do postigo, emitia um gemido catártico, obsceno, quase orgiástico. “Ahhhh”, e sussurrava nos ouvidos do fumo: “liberto-te, e vou contigo”. Depois, fitava-me, e com glacial naturalidade, alertava-me: - Você está cada vez mais só. Mais um pouco de mim partiu. - Não deixava de ser verdade. Outro dos meus espantos recorrentes era tributário da persistência da vida num corpo tão escanzelado. A cada sopro de fumo parecia murchar mais um pouco.

Dias após o primeiro relato acerca dos cigarros, explicou-me a origem da “liberdade”, tatuada com pus no braço.

- Redigi a carta que eles exigiram. Expus as razões com a minúcia imposta. Durante vários dias, não obtive resposta, pelo que previ a perplexidade de quem a leu. Depois, ao acordar, confrontei-me com uma carta branca a jazer no chão, perto da porta, e ao lado da tigela porca que abarcava o pequeno-almoço. Pequeno-almoço! Que hipérbole, hein! Adiante. Li-a com voracidade. Soube, então, que a direcção aprovava o meu pedido, desde que submetesse o meu desejo a uma prova. Teria de resistir à tatuagem, num sítio à minha escolha, da palavra “liberdade” escrita com a ponta incandescente do cigarro. Não hesitei. De imediato, respondi a aceitar o acordo. Nesse mesmo dia, três guardas e o director irromperam pela minha cela, ansiosos por penalizar o meu ousado desassombro. Sofri, naturalmente, enquanto eles crivavam o meu braço. Um deles foi especialmente cruel, ao revisitar, sem cessar, as letras já tatuadas. Mas resisti, ao contrário do director, que não mais suportou o espectáculo, decretando o fim da sessão. Enalteço-o, apesar do plano vil e pérfido que apadrinhou. Todos os dias recebo, como você já pôde ver, cinco maços de cigarro. Não falham. É um homem íntegro, mas inquinado.

Os nossos vínculos robusteceram-se, acompanhando a evolução da confiança mútua. De noite, receando que qualquer ruído exacerbasse a irascibilidade dos guardas, obrigava-me a permanecer de vigília, consciente de que, ao dormir, falo. Qualquer palavra minha poderia, desde o torpor profundo, originar a “reabertura” da liberdade, pelo que procurava dormir após vislumbrar os primeiros lampejos solares. Julgo que ele se apercebeu do meu comportamento, agradecendo-me, sem verbalizar, com aquelas pequenas, quase imperceptíveis, bolas reluzentes, entrincheiradas na concavidade ocular. Um agradecimento furtivo, envergonhado, como o primeiro olhar que me lançou, na noite do primeiro espanto. Soube que perdera toda a família na guerra. No dia em que foi capturado, uma emboscada chacinou toda a sua companhia, desertando os seus amigos para um território que lhe foi vedado. Foi poupado, acredita, por ser o mais velho, simbolizando, para os verdugos que nos oprimem, a decrepitude do inimigo. Mais do que a sua condição de prisioneiro, revolta-lhe a imensa abjecção humana.

- Não fui detido por acaso. Não escapei à morte por acaso. Fui preso porque sou velho, porque não tenho família nem amigos. Represento, para eles, o meu povo. Agonizando, agoniza a recordação do meu povo, e de toda uma mundividência idealizada. Sou a memória da morte numa gotícula de vida. Como velho, sou um compêndio necrológico, e passo o tempo a reler e rever as páginas dos que já partiram. Sou um depósito de passado, sem presente nem futuro, e limito-me a esperar pela página em branco. A última. A minha. Entretanto, faço tricot com o tempo, entregando-me a ilusões que suavizam a dor. Os cigarros são um instrumento da ilusão.”

No dia em que ouvi este solilóquio dolente, comunicou-me que deixaria de fumar. Depois de anos a fumar quase 100 cigarros por dia, aproximou-se de mim e disse:

- Já estou absolutamente viciado. Absolutamente. Não concebo a vida sem o cigarro. Estou mais preso a ele do que a este cárcere. Veja, olhe a minha mão. Tremo. Ainda não fumei hoje, nem fumarei mais. Começa agora o caminho para a liberdade. Necessitava do fumo para ser livre, quando soprava para o postigo. Mas já chega de depender dele. A partir de agora, entretenho-me com a dor de querer estar preso, forçando-me a estar livre.

Mais um espanto. Foram tantos que deixei de contar. Todos os dias, à hora habitual, os cinco maços no chão. Todos os dias, o ritual, que se tornou mecânico, de vê-lo a erguer os maços, juntando-os às centenas de outros. Acentuava-se a trepidação daquelas mãos cadavéricas quando os arrebatava do chão, levando-os ao nariz para, inalando, minorar a dor. Manteve-se fiel à decisão, responsável pelo silêncio opressivo que imperava na cela. A inquietação tornou-o bilioso, pelo que, temendo a ira, limitava-me a falar quando ele abria a porta ao verbo.

Foi numa manhã diluviosa que o director entrou na cela, entregando-lhe um envelope branco. Abriu-o, retirando uma carta branca, absolutamente branca. - Aqui está ela -, murmurou. Olhou para o director e disse: - Muito bem. Amanhã estarei pronto.

Para a manhã seguinte estava aprazado o seu fuzilamento. Chegada a hora, despedimo-nos com uma periclitante sobriedade, enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto, traidora do meu esforço. Um homem partia para a morte, vestido de branco, e não vacilava nem exteriorizava pânico. O seu abraço, forte como uma tenaz, espantou-me. Aquele corpo escanzelado era um pecúlio incomensurável de vida e de força. Então, legou-me uma carta, retirada do bolso. - Esta é a carta da minha liberdade -, apontando para o braço, antes de fitar o postigo, pela última vez, pelo qual tantas vezes se esquivou, entrelaçado com o fumo. - Adeus, companheiro. E fiquei só.

Fiquei só com a carta. Abri-a com uma subtileza reverencial, constatando que se tratava da carta endereçada, muitos anos antes, ao director.

“Senhor director, respeitando as exigências impostas para a concretização dos meus anseios, dirijo-lhe esta carta. Apesar da ausência de afinidades entre nós, há universais que vinculam, mesmo, os inimigos. Entre eles encontra-se a probidade, pelo que estou convicto de que, respeitando eu as suas exigências, não ignorará estas minhas palavras. O veredicto final será seu, mas, não estando eu em condições de impor regras, é a honra quem o obriga a ler o que se segue. Eu não fumo, e nunca fumei. Durante todo este tempo de clausura, tentei conceber planos de liberdade que se coadunassem com a preservação do estatuto de prisioneiro. Garanto que nunca tentei, nem nunca tentarei, evadir-me a esta prisão. Se este é o meu destino, aceito-o. Porém, e dirijo-me a um homem que também deverá aspirar à liberdade, necessito de iludir o meu sofrimento, surgindo o cigarro como um instrumento hipnótico indicado. Durante toda a minha vida, nunca tive vícios. Não fumava, não bebia álcool, não recorria a drogas. Farejava, sim, a liberdade, e coabitava com uma parte dela. Hoje, nesta cela, estou triplamente preso. A ela, ao passado e à ânsia de liberdade. Como não posso abandonar esta cela vivo, nem posso obliterar o passado, necessito de, ainda e sempre nesta cela, procurar a liberdade. Como? Viciando-me. Quero fumar até sucumbir à dependência absoluta, de modo a poder empreender o caminho inverso, da liberdade. Ou seja, pretendo naufragar no vício para reemergir, livre. Quando sentir que a minha vida e o tabaco são indissociáveis, repudiá-lo-ei, entretendo-me com a ilusão de que, ao combater o vício, me aproximo da liberdade. Por compaixão, não permita que a minha vida se resuma a uma espera indefinida pela página necrológica pessoal. Sei que, um dia, me cruzarei com a página branca da minha morte, mas não quero dedicar todo o tempo que me resta a rastrear as páginas carcomidas deste compêndio necrológico em que esta cela me transformou. Peço-lhe cinco maços de cigarros por dia. Atenciosamente, um amante da liberdade” Quando acabava de ler a carta, um guarda pergunta-me se quero assistir à execução. Hesitei, mas acabei por aceitar. Seria o único amigo dele no momento final. Já perfilado, e com as armas para ele assestadas, o director, fiel à tradição, autorizou-lhe um último desejo.

- Permita que seja eu o responsável pela ordem de fogo. Deixe que preserve, até ao fim, a ilusão de que comando a vida e a morte.

O director aceitou.

Respirou fundo e, com a vida condensada num brado, franqueou a última fronteira.

- Fogo!

Uma folha branca esvoaçou, aconchegando-se sobre o braço direito, onde jazia a liberdade.


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious //Vítor Sousa