estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Funchal, um archote no Atlântico

Dezembro, ilha da Madeira, Portugal. Um festival de luz enreda a ilha, candeia acesa no breu do Atlântico. Na passagem de ano, o espectáculo pirotécnico confere uma visibilidade global à primeira ilha dos Descobrimentos portugueses. Em 2007, a apoteose com que o Funchal, capital da ilha, acolheu o novo ano foi consagrada pelo Livro do Guinness como o maior espectáculo pirotécnico do Mundo.


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Nas primeiras horas de um novo ano, a nostalgia de qualquer madeirense na diáspora pode ser combatida, ou reforçada, através da televisão. Os telejornais de todo o Mundo não dispensam a transmissão de imagens relativas à apoteose pirotécnica que assinala a chegada do novo ano, no Funchal. No espectáculo de transição para 2007, o Livro do Guinness distinguiu o dilúvio de luz que cobre todo a cidade como “o maior do Mundo”, conferindo ainda maior projecção a um cartaz turístico que seduz milhares de turistas. Se, até há poucos anos, o requinte de Sidney, na Austrália, e o Reveillon exótico de Copacabana, no Brasil, disputavam o arrebatamento do Mundo, a eternidade do Funchal nos sonhos do Homem necessita, agora, de escassos segundos.

As tradições do Natal madeirense são remotas. Apesar da maioria católica que se verifica em Portugal, a comemoração do nascimento do Cristo assume contornos pagãos, cuja génese radica na Antiguidade Clássica, assumindo o fogo e a luz faculdades purificadoras, como exorcistas do mal. Com o decorrer dos tempos, e consequentes avanços tecnológicos, também o substrato mitológico perdeu relevância, conquistando primazia o impacto visual provocado pela proliferação de luzes. As imposições dos tempos roubaram o oxigénio às fogueiras que, outrora, combatiam o breu da noite de Natal madeirense, impondo-se a luz eléctrica que a Madeira herdou dos ingleses, em 1897.

Hoje, todo o anfiteatro da capital madeirense é serpenteado por iluminações natalícias que lhe reforça os contornos, convertendo-o num presépio pulsante que extasia madeirenses e forasteiros. Se, na primeira metade do século XX, o alemão Thomas Mann, referindo-se a Veneza, escrevia que ”jamais alguém se deveria abeirar da mais inacreditável das cidades de outro modo que não fosse este, por barco, por mar alto”, não será arriscado prever o deleite a que sucumbe quem, independentemente do quadrante, debruça o olhar neófito sobre o altar celestial em que se transforma a primeira cidade nascida sob o signo dos Descobrimentos.

O enraizamento dos fogos de artifício como prática de acolhimento do novo ano é indissociável da presença inglesa na Madeira. Desde o século XVIII, a Madeira guindou-se a remanso para convalescentes, doentes da tísica pulmonar, cientistas, funcionários e políticos da Coroa Britânica. Juntos, os súbditos de Sua Majestade tentavam recriar a ambiência que envolve, na Grã-Bretanha, estas festividades, atribuindo ao fogo um carácter obrigatório. Pelo que nos diz a História, as origens do fogo-de-artifício moderno radicam na Florença medieval. Contudo, o primeiro espectáculo de pirotecnia que se conhece remonta a 1575, em honra da Rainha Elisabete, no Castelo de Kenilworth. O fogo-de-artifício, como tradição inglesa, alastrou-se pelos domínios britânicos, e por outros onde a sua influência era indubitável. A Madeira surge, assim, nesta rota de legados, contribuindo o Reid’s para a perpetuação das tradições.

Na segunda metade do século XIV, o turismo da Madeira dava os seus primeiros passos. Fundado em 1891, o Reid’s Hotel foi idealizado por William Reid, cuja morte, três anos antes, o impediu de assistir à consagração do seu labor, o único hotel do século XIX que se mantém em actividade nos nossos dias. Os seus dois filhos, William e Alfred, continuaram o trabalho do pai, e converteram o New Reid’s Hotel no principal pólo agregador de britânicos na Madeira. Já no século XX, o Reid’s foi o principal dinamizador das noites de Reveillon, avultando o nome de um italiano, director geral do Hotel entre 1920 e 1936: Luigi Gandolfo.

Desde 1911, pelo menos, eram habituais os festejos espontâneos, fomentados por populares e comerciantes, sem qualquer organização que tutelasse o lançamento de fogos. Assim, em 1922, Gandolfo foi o mentor do primeiro espectáculo pirotécnico organizado na Madeira. Embora fossem os hóspedes do Reid’s os principais beneficiários desta inovação, todo o Funchal pôde contemplar o fogo que se erguia do ilhéu da pontinha.

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A efervescência com que o Funchal vivia a noite do dia 31 de Dezembro, com a fusão entre a espontaneidade dos populares e o requinte de unidades hoteleiras como o Reid’s, desembocou na criação, em 1932, da Comissão de Festas da Cidade, estrutura que assumiu a missão de coordenar as festas, incutindo-lhe um matiz mais “democrático”. Dos palcos e salões elitistas dos grandes hotéis, os festejos transbordaram para as ruas. Em 1938, já sob a alçada da Delegação do Turismo da Madeira, realizou-se um cortejo luminoso, residindo aqui a génese da “Festa” contemporânea. A crescente adesão de madeirenses e forasteiros às comemorações natalícias - conjugada com o aprimoramento da tecnologia - transformou o Funchal num imenso archote no âmago do Atlântico.

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Toda a cidade se prepara para Natal e fim-de-ano com uma devoção a que o prestígio obriga. No final de Outubro, o odor à “Festa” - expressão pela qual é conhecido o Natal na Madeira - começa a evolar-se, quando as lâmpadas escalam as árvores, em contagem decrescente para um parto luminoso. Nas praças da cidade, são instalados grandes pinheiros em alumínio, ataviados com as cores que definem o Natal. As gambiarras, que se afirmaram a partir da década de trinta do século passado, mantêm a primazia, agora condensadas em mangas eléctricas que, amiúde, corporizam tectos de luz, oferecendo ao cidadão a ilusão de que a paz do céu é um lugar perto.

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Mas há ruas e avenidas do Funchal fiéis às mais antigas tradições, com lâmpadas a florescer nas árvores centenárias, invocando o Jardim do Éden, agora imune ao pecado. Pecado, só quando se eclipsam as luzes. As árvores já não ateiam corações, e lemos na soturnidade dos rostos: “O Natal devia ser todos os dias”.

Artigo publicado na revista Essential Madeira Islands, em Dezembro de 2008.

[Fotos creditadas a Nélio Abreu, Avelino Luís Fernandes e ao blogue Filho do 25 de Abril]


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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