estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Um cálice de história do Vinho Madeira

O Vinho Madeira é um dos mais afamados do Mundo. Uma pequena incursão pela história de um vinho que até Shakespeare e Dostoievsky incluíram nas suas obras.


vinho madeira.jpgNo dia 20 de Janeiro de 2009, os olhos do Mundo convergiram para Washington, quando Barack Obama tomou posse como Presidente dos Estados Unidos da América. A cerimónia foi presenciada por dois milhões de pessoas, concentradas no Mall, uma extensa alameda com o Capitólio como epicentro. Depois da consagração pública, decorreu uma das festas privadas mais cobiçadas da História, pelo que muitos dos contornos manter-se-ão imunes à curiosidade. Mas tendo em conta que Obama prestou juramento sobre a mesma bíblia que amparou a mão de Abraham Lincoln, no longínquo ano de 1861, não seria estranho se o primeiro Presidente negro dos Estados Unidos da América celebrasse a entrada na Casa Branca com um cálice de Vinho Madeira. Porque o “sonho americano” – que embriagou tantos e ressuscitou, para muitos, com Obama – foi baptizado, a 4 de Julho de 1776, com Vinho Madeira, por George Washington e companheiros, logo após a Declaração da Independência. Alguns dos sucessores de Washington, como John Adams e Thomas Jefferson, mantiveram por perto os “vinhos odoríferos” da ilha, como os definiu Luís de Camões, autor da epopeia Os Lusíadas, no episódio da Ilha dos Amores, epíteto que muitos camonianos associam à Madeira. A presença do néctar madeirense no momento fundador dos EUA garantiu a eternização da ilha, e do seu vinho, nas veias do “sonho americano”.

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Na fronteira do século XIX, a sombra de Napoleão começava a pairar sobre a Europa. A pulsão imperialista de Bonaparte provocou uma espiral de medo na Europa, com o avanço implacável das tropas francesas. Portugal não se manteve imune às aspirações do Imperador francês, pelo que se socorreu da “velha aliança” com Inglaterra. Os ingleses atribuíram ao General Beresford a missão de preservar a soberania portuguesa, e no contingente britânico incluía-se John Blandy, um jovem de 23 anos destacado para a Madeira. Blandy chegou à ilha em 1808, e logo se interessou pelo comércio do Vinho Madeira. Depois de um breve regresso às Terras de Sua Majestade, onde se casou com Janet Burden, o casal Blandy fixou-se, em definitivo, na Madeira, corria o ano de 1811. John Blandy, consciente das potencialidades do Vinho Madeira, urdiu uma rede de contactos que não se confinaram à ínsula. Para além de ampliar o seu domínio interno no comércio de vinhos, Blandy estabeleceu acordos com agentes de navegação, impondo o Funchal como porto de escala nas rotas do vinho. Quase 200 anos depois de John Blandy ter associado o seu nome ao Vinho Madeira, a saga continua, já que os seus descendentes mantêm residência na Madeira.

Não obstante a predominância da família Blandy na produção e comercialização do Vinho Madeira, a mais antiga empresa dedicada à produção e venda de Madeira é a Cossart Gordon & Co., constituída em 1745, e fundada por Francis Newton, um jovem escocês. A Cossart Gordon & Co. atingiu o seu período áureo em meados do século XIX, quando, dizia-se, “exportava metade da produção da ilha”. Para a expansão do Madeira, sob o rótulo da Cossart Gordon & Co., muito contribuíram os contactos do seu fundador, na América, através do seu irmão Andrew, o qual abandonou a Escócia com destino à Virgínia.

A necessidade de reduzir os custos inerentes à produção de Madeira levaram duas empresas a unir esforços, nos alvores do século XX. Para isso, a Welsh & Cunha e Henriques & Câmara associaram-se, constituindo a Madeira Wine Association, em 1913. O sucesso da empreitada atraiu outras empresas, entre as quais a Blandy, a Leacocks e a Miles. As duas primeiras, brandindo já um estatuto ímpar entre os produtores de Madeira, aliaram-se à Madeira Wine Association em 1925. A adesão da Cossart Gordon e Co. é mais tardia, remontando ao ano de 1953. 28 anos depois, a associação alterou o seu nome para o actual Madeira Wine Company, a casa comum de vinhos distintos que conservaram, sempre, as suas características distintivas.

As feridas causadas pela II Guerra Mundial também deixaram sequelas no comércio dos vinhos. A adesão da Cossart Gordon & Co. constitui um indício das dificuldades por que passaram os produtores de Madeira, não obstante a notoriedade de que dispunham. A Madeira Wine Company, congregando várias empresas, soube encontrar a fórmula para manter a coesão, sem sucumbir ao perigo de anular as singularidades de cada vinho. Visionários, os Blandy, principais accionistas da empresa, sentiram necessidade de incutir novo fôlego na comercialização do Madeira. Para concretizá-lo, convidaram os Symington, uma insigne família cuja história se confunde com o Vinho do Porto. Decorria a década de 80, e logo os Symington foram seduzidos pela proposta. Assim, os líderes no comércio de Vinho do Porto formalizaram sociedade com a família Blandy, pelo que o néctar madeirense voltou às principais artérias do Mundo, exploradas pelos primeiros. 20 anos após a concretização da sociedade entre os Blandy e os Symington, as duas famílias mantêm-se como as principais proprietárias da Madeira Wine Company. E o fôlego abrangeria o universo, se os consumidores de Madeira não se confinassem à Terra.

A Madeira Wine Company situa-se no centro do Funchal, contígua ao Jardim Municipal, uma das zonas mais cosmopolitas da cidade. Antigo mosteiro do século XVII, o edifício foi adquirido em 1840 pelos Blandy, sendo hoje um ponto incontornável em qualquer roteiro turístico. Exaltada como uma verdadeira “catedral do vinho”, as “Antigas Adegas Blandy” – outrora residência da própria família -, permitem ao visitante uma incursão pela história do vinho, numa viagem que faz escala em todos os processos que antecedem o clímax: a degustação dos melhores Madeira. Para além das adegas, espaço de forte atracção turística, a Madeira Wine dispõe, também, de um centro de produção localizado no Complexo das Mercês, local onde radicam as áreas de vinificação, armazenamento e engarrafamento da empresa.

Mas é nas “Antigas Adegas Blandy” que todo o fascínio do Vinho Madeira se espraia. Com capacidade para 7.000hl de vinho, o visitante serpenteia por entre cascos e cubas de carvalho americano, algumas delas com mais de um século, onde envelhecem vinhos produzidos a partir das quatro castas tradicionais, do seco ao doce: Sercial, Verdelho, Bual e Malvasia. Estes vinhos envelhecem num sistema de”canteiro”, e o tempo do seu engarrafamento varia em função do seu potencial, avaliado pelos enólogos da empresa. Os mais comuns são engarrafados entre os cinco e os quinze anos, enquanto os vinhos de melhor qualidade – conhecidos como “frasqueiras” -, raros e caros, repousam em cascos durante um período mínimo de 20 anos. O mais antigo vinho disponível para venda, nas adegas da Madeira Wine, permaneceu 77 anos em casco, e o ano da sua produção remonta a 1908. Para além destes vinhos, a empresa também trabalha com a Tinta Negra Mole, uma casta muito versátil e usada, normalmente, para vinhos de três anos, decorrendo a primeira parte do envelhecimento num sistema de “estufa”, o qual acelera o processo. Estes vinhos, pela relação qualidade/preço, representam 65% do consumo de Madeira, enquanto os refinados “frasqueiras” preenchem 0,41% do consumo total.

churchill_paints.jpg A literatura universal é pródiga em alusões ao Vinho Madeira. Dostoievsky e Tolstoi, talvez os dois principais romancistas russos, mencionam o Vinho que Shakespeare ajudou a imortalizar, quando o Duque de Clarence, na peça Ricardo III, escolhe morrer afogado numa pipa de Vinho Madeira, depois de ter sido condenado à morte pelo Rei Eduardo IV. Mas não só a ficção contribuiu para elevar o Madeira à posteridade. Napoleão Bonaparte, antes de partir para a ilha de Santa Helena, onde morreria no exílio, aportou na Madeira, sem, porém, pisar terra firme. Aí, recebeu um casco de Vinho Madeira, cortesia do cônsul britânico. Napoleão nunca o bebeu, e alguns biógrafos alegam que o deposto Imperador temia a morte por envenenamento. Napoleão acabou por falecer em Maio de 1821. Dois anos depois, o casco regressou à Madeira, intacto. Winston Churchill, em 1950, visitou a Madeira e provou o néctar que havia pertencido ao Imperador. O estadista inglês, de consabida ironia, ao saborear um vinho mais antigo do que a Revolução Francesa, terá clamado: “Imaginam que estamos a beber um vinho do tempo em que Maria Antonieta ainda era viva?!” No Museu encontramos, entre outras, cartas de Churchill e de Dwight Eisenhower, ex-Presidente dos EUA, a agradecer vinhos oferecidos pela Madeira Wine Company. Marcas indeléveis na História que merecem, de facto, honras de moldura.

O prestígio da Madeira Wine Company tem sido, ao longo dos anos, confirmado por inúmeros prémios internacionais. O enólogo da Cossart Gordan, Francisco Albuquerque, recebeu em 2008 o galardão de “Wine maker of the year”, distinção que preserva há três anos, atribuída pelo Internacional Wine Challenge. Recentemente, a empresa lançou dois novos vinhos que representam uma ruptura com o conservadorismo que define o sector dos vinhos. O “Colheitas”, da Cossart Gordon, e o “Alvada”, com selo Blandy – um vinho que mistura duas castas nobres, Bual e Malvasia -, protagonizaram inovações que os devotos de Madeira apreciaram. O tempo passa, os séculos renovam-se, e tudo muda. Ou quase tudo. O estatuto da Madeira Wine Company, como produtora de um dos melhores vinhos do Mundo, desafia a lógica de que tudo morre.

Artigo publicado, originalmente, na revista Essential Madeira Islands, em Fevereiro de 2009.


Vítor Sousa

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