estranho estrangeiro

Vou em guerra e que ninguém me acompanhe.

Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra"

Dinis Machado

Viagem às Ilhas Desertas

As Ilhas Desertas pertencem ao Arquipélago da Madeira e dão abrigo a uma das mais importantes colónias de Lobos-Marinhos. Relato de um périplo pela Deserta Grande.


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No horizonte da Madeira situam-se as Ilhas Desertas, parcela reincorporada no Estado Português em 1971, depois de alguns séculos sob a tutela de particulares. Gerida pelo serviço do Parque Natural da Madeira (PNM), as Desertas foram legalmente protegidas em 1990, passando a ostentar o estatuto de Área de Protecção Especial. Em 1995, ascenderam à condição de Reserva Natural, o corolário de um longo processo que visava o intento primordial de proteger uma espécie em vias de extinção. Devido ao labor visionário de homens e mulheres que, no passado, semearam a necessidade de proteger uma preciosidade, o presente colhe os frutos. A colónia de Lobos-marinhos cresce e só no plano técnico a espécie continua na lista da agonia. O SPNM continua a fomentar a consciencialização ecológica, admitindo, em circunstâncias excepcionais, o voluntariado nas Ilhas. Pelas especificidades atinentes a uma Reserva Natural, o voluntariado é a ambição de muitos, mas o privilégio de poucos. O relato posterior, por isso, não é um convite. Antes, resume a excepção com que fui contemplado, graças à anuência do Parque. O que se segue representa a minha retribuição, porque o trabalho do SPNM – o qual não se confina às Desertas – merece reconhecimento nacional.

Uma expedição à Deserta Grande

Provavelmente não haverá relação científica, mas depois do eclipse lunar, o sol desertou das Desertas. Tímido e amordaçado por despojos de breu que a noite deixava, fugazes aparições reforçavam a nostalgia do Verão precoce que havia estagiado, uma semana antes, no meio do Atlântico. Naquela terça-feira sombria, o torpor matinal esvaía-se entre o pequeno-almoço e os últimos preparativos. Actualizadas as informações climatéricas, eu, o neófito do grupo, e três vigilantes do Parque Natural da Madeira (PNM) zarpámos de bote em direcção ao Vale da Castanheira, percorrendo grande parte da vertente ocidental da Deserta Grande. Pelas 11 horas, após uma curta viagem, eu e o Isamberto Silva devolvíamos o corpo à terra firme no desembarcadouro do Vale da Castanheira. Nas proximidades, um pequeno barco dava assistência a dois pescadores que escrutinavam a reentrância das rochas lodosas, em busca de lapas.

Naquele varandim sobre um mar agitado, os poros começam a respirar a realidade do Vale, imponente e sobranceiro. Quase 200 metros de matéria solta suscitam o alerta do Isamberto. “Não caias”, satiriza, quando uma pedra rebola após um passo incauto. Não caí, mas resfolegava, na ânsia de acompanhar o andamento cadenciando do Isamberto. Entretanto, algumas paragens para descansar, camuflado o cansaço pelo pretexto de fotografar o abismo. Decorridos 30 minutos de pulsação cardíaca frenética, a esperança de repouso espraiou-se no topo verdejante do vale. O afã de olhos absortos em trânsito desalinhado, contrastava com a languidez do corpo. Aninhado na vegetação quase virgem, o corpo sente-se noutra dimensão, noutra ilha, distante da aridez que predomina nas Desertas. Revendo o caminho percorrido, o olhar despenha-se no Ilhéu Chão, pequeno e frágil apêndice do idílio. O sudeste da Madeira, além-mar, é nevoeiro, mas real.

Depois do interregno catártico, retomámos a caminhada, palmilhando os dois quilómetros do Vale, abrigo de tarântulas endémicas das Desertas. Fosse outro o guia da expedição e teríamos superado o Vale num ápice, mas a devoção do Isamberto pelas tarântulas fez-nos serpentear entre as pedras embutidas no verde. Com faro de especialista, o Isamberto parecia adoptar o lema de Saramago, rastreando o que se esconde sobre pedras ancestrais. “Aqui está mais uma”, anunciava, sem cessar, enquanto as capturava. - “Esta é grande. Vê, está a morder a unha. Olha o veneno a sair.” –, relatava, com a mesma naturalidade com que, à distância, eu fotografava. No terreno das tarântulas, senti-me seguro ao observar a mestria com que o Isamberto as manuseava e media, esticando as patas refractárias até ao limite, enquanto as garras se acoplavam à unha. Capturou e mediu várias, incontáveis, cessando a busca com um jubiloso “11 centímetros”. Percebi, então, que procurava uma espécie de recorde, exibindo para a objectiva o troféu. Alcançado, retomámos o caminho, desbravando uma superfície informe camuflada por mata. Percorridas várias centenas de metros, a História, jazendo numa casa de pedra, convidava-nos a visitá-la.

Divergimos do percurso delineado quando avistei um antigo posto de vigia, construído pela Capitania do Porto do Funchal (CPF) em 1942, durante a II Guerra Mundial, para proteger a Madeira dos navios alemães. Situado no nordeste da ilha, os vestígios da História morrem devagar, ainda e sempre fitando uma imensidão de mar que se enrola, a algumas milhas, nas areias voluptuosas do Porto Santo. Não obstante a decomposição da estrutura, escritas na pedra e invulneráveis à usura do tempo estão a sigla e a data que resumem vidas. CPF 1942, sussurra o vento que pede a quem gere as Desertas a imortalidade daquelas pedras. Naquele acoito proscrito, também se ouvem os murmúrios dos baleeiros que, após a II Guerra Mundial, até à ilegalização da caça à baleia, fruíram do espaço. Mais abaixo, uma similar estrutura volta a testemunhar a actividade humana nas Desertas. Também construída em 1942, mas de maiores dimensões, preserva a utilidade, acolhendo vigilantes da natureza que, no cumprimento de missões, lá se exilam durante um par de dias. Recordava-se bem o Isamberto da casa, depois de lá ter pernoitado, solitário, na semana anterior.

Ultrapassada a casa, recuperámos o contacto com a imagem que se arreigou às Desertas, definida, amiúde, como um insonso amontoado de pedras. Durante os quase cinco quilómetros que se interpõem entre a casa e a vereda que desemboca na Doca, a aridez voltou a reivindicar primazia. Não é seca, porém, a Natureza, cujo engenho arbitrário forjou segredos ímpares. Num ápice, quando nos encaminhávamos para a “casa do Pedregal” – outro posto de vigia debruçado sobre um desfiladeiro – embrenhámo-nos num labirinto tingido de vermelho fogoso, cavado pela água das chuvas. Num devaneio, senti-me explorador onírico das catacumbas cristãs, em Roma. Mais adiante, outro sopro da alienação transportou-me até à Ilha da Páscoa, ao divisar um rosto, esculpido na rocha pelos elementos. Perfeita a definição do Carlos Filipe, membro da equipa que integrei, além do Maurício Paixão: “O mais antigo vigilante das Desertas”. A fidelidade à missão petrificou-o, diria.

Prosseguindo o caminho, e perseguidos pelo assombro, aproximámo-nos do “Risco”, longa e abismal vereda que visita ambas as costas da Deserta. Quando o cansaço já toldava a lucidez, a vertigem da beleza voltou a irromper. Numa fase do percurso, a Deserta é tão delgada que permite, com um simples meneio de cabeça, avistar o mar de Janus. A oeste, plácido. A leste, encarniçado. Daí, empoleirados em pedras pouco fiáveis, observámos a Doca, sob a escarpa temível que, no século XIX, desabou, formando um pequeno maremoto que galgou várias milhas e fustigou, principalmente, Machico, na Madeira. Todos os anos, nesta cidade, é relembrada a “aluvião”, na qual muitas vidas desertaram para a aridez do desconhecido.

Quase seis horas após o desembarque no Vale da Castanheira, iniciámos a descida em direcção à Doca. A vereda provocaria o espanto dos mais insensíveis. 400 metros de trilho moldado por quem tentou colonizar a ilha, desde a sua descoberta, no século XV. Há poucos anos, uma articulação entre o PNM e os militares, permitiu a recuperação do trilho, obra dos últimos. Quase 3 semanas depois do meu regresso à Madeira, o espírito ainda digere a inverosímil sumptuosidade da Deserta Grande. Um privilégio de poucos.

*Artigo publicado no suplemento Fugas, do jornal Público, em Março de 2007.


Vítor Sousa

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras, e que às vezes as encontra" Dinis Machado.
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