Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida.

As ridículas declarações virtuais

A famosa prática de escrever na web aquilo que não se diz, não se pensa e não se sente. Qual é a desse pessoal? Dificuldade em se expressar verbalmente? Vergonha de olhar no olho do outro? Ou simplesmente interesse em chamar a atenção? Dá para arriscar a resposta.

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O que antes era usado para datas comemorativas, hoje se tornou um grande pastelão. A cada dia que passa fica mais perceptível a utilização de declarações virtuais por parte das criaturas que usam as redes sociais para fingirem ser sociáveis.

Natal, Páscoa e Carnaval podem não ser as melhores datas para todo mundo, mas é até aceitável ler um textinho sem graça nessa época. É normal que num ímpeto de humanidade misturada com 15 minutos de fama, a pessoa queira declarar um bom momento a todos do Facebook. 

Claro que são usadas frases clichês num texto todo confuso, mal acentuado e algumas vezes cheio de erros ortográficos, mas uma vez a cada três meses dá para respirar fundo, contar até 10 e passar o mouse por essas baboseiras.

Mas hoje a coisa mudou. Não é preciso feriado religioso, tragédias naturais, nem reportagem emocionante do Fantástico para os caras incorporarem um escritor de meia tigela. Sem nenhuma pesquisa minuciosa é possível encontrar imensos textos de qualidade duvidosa (tanto em termos gramaticais, quanto em termos sentimentais). Sempre com muitos adjetivos e reticências - as quais não fazem nenhum sentido no contexto da frase.

Não é o foco do texto, mas é necessário abrir um parêntese para as coitadas das reticências. Quem foi que disse que os três pontinhos se multiplicaram?! Alguém precisa avisar a esses moderninhos da internet que qualquer ponto a mais de 3 não é reticência. E pior, qualquer grupo de quatro, cinco ou seis pontos, deixa o texto ridículo. Fecha parêntese.

A questão é que não é compreensível o uso excessivo dessas declarações. Não dá para entender o que leva um ser a escrever textos de amor para pessoas que estão ao seu lado, ou pior, para pessoas (ou animais) que não estão na rede social e, consequentemente, não vão ler o texto (pra sorte delas).

Já imaginou como deve ser a rotina dessas pessoas? Acordar, pesquisar qual o aniversariante do dia, descobrir que é a própria mãe, correr para o Facebook, escrever um texto apaixonado, marcar a mãe que não entra no Facebook há 3 meses, sair do site e dar uma passadinha na sala pra avisar a matriarca para curtir a declaração que fez. Afinal, “50 pessoas já curtiram, só falta a senhora, mãe!”

Sério mesmo, pessoal? Até quando as pessoas de bem, que abraçam e beijam para parabenizar os outros, terão que ver esse tipo de texto mal escrito e mal intencionado? Por que vamos combinar, né? A melhor intenção com essas declarações é conseguir curtidas e mais elogios falsos.

Sem reticências, a confirmação é simples: se não sente, não escreva, e se sente, fale!


Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida. .
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