Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida.

Os objetos que furtamos

O artigo visa passear pelos meandros do consumismo, do apego aos bens materiais e do inconsciente ato de privar o outro do direito de ter, tendo como base a frase de Mahatma Gandhi.

“Um objeto, mesmo que não tenha sido adquirido por meio de roubo, deve ser, no entanto, considerado furtado, se o possuímos sem dele precisarmos.” Mahatma Gandhi.

Descobri essa frase ao assistir o programa de TV Saia Justa do canal GNT que foi transmitido no dia 27/05/2015. O programa que mistura jornalismo com entretenimento e é comandado pela apresentadora Astrid Fontenelle, teve como convidado especial, nesse dia, o Filósofo Mário Sérgio Cortella. Foi ele quem citou a frase.

Possuir é um dos atos mais prazerosos cometidos por nós, seres humanos. Adoramos comprar, ter, admirar e guardar objetos que, muitas vezes não têm nenhuma utilidade ou só serviu uma única vez. Nos apegamos a coisas como se elas fossem gente e a elas atribuímos nossa felicidade.

Mas o artigo não tem como ponto principal o fato do consumismo ter assumido o comando de nossas vidas e como ele nos faz mal. Aqui o ponto é que, ter algo não nos faz ter mais, e sim o outro ter menos. De forma bem generalizada, ter algo que não usamos é como tirar o direito do outro que precisa usar.

A gente compra para ficar feliz ou para, simplesmente, mostrar aos outros. Mas o fato é que há outros que, não só não têm acesso ao nosso mundo, como também não têm acesso aos livros, roupas e, infelizmente, até à comida. Por isso a frase resumida “Toda posse de um objeto desnecessário é um furto”, me leva a crer que nós furtamos constantemente o direito de ter daqueles que são menos favorecidos.

Eu furto a chance do próximo de conhecer uma nova história de um dos meus livros que eu já li e que hoje está na prateleira pegando poeira. Eu furto do próximo que sente frio a chance de se esquentar com uma blusa que já não combina mais com meu estilo, por puro egoísmo. Eu furto o direito do próximo de se alimentar com um alimento que está no fundo do meu armário, só por que acho que um dia desses terei uma receita para usá-lo.

Eu furto, inconscientemente, por ter enraizada em mim a cultura do possuir para ser. É como se nós só existíssemos por termos uma casa, um carro, roupas, objetos e mais objetos para mostrar ao outro. Talvez por isso os moradores de rua sejam tratados como invisíveis. A lógica é: eles não têm, não fazem parte da sociedade, não nos preocupamos com eles. 

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Outra frase, agora de Millôr Fernandes, diz “O importante é ter sem que o ter te tenha”. É como se o autor dissesse que objeto nenhum, não importa o valor, tivesse mais importância do que você e todos os campos de sua vida. Afinal, você possui algo e não o contrário. É você quem deve decidir até quando precisa dele e saber que, quando isso acontecer, ele ainda poderá ser útil para outra pessoa.

Somos frutos de uma sociedade consumista, mas a escolha entre ser alguém e ter algo é de cada um.  

Eu quero sim ter roupas, livros e alimentos, mas quero também ser alguém que enxerga ao redor e consegue se desfazer de objetos para ajudar ao próximo.

A doação – seja de um objeto, de tempo ou de carinho, é um ato puro, de quem se desprende de seu mundo para oferecer prazer ao desconhecido, sem esperar nada em troca.


Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida. .
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