Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida.

Sobre ser prático e permanecer no raso

Decretaram que o ser prático vive mais e melhor. Sem complicar situações, leva a vida mais leve e pouco tem a se preocupar. Decretaram que é mais fácil viver na superfície e que quem teimar em se aprofundar, vai acabar afundando.

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Decretaram que o ser prático vive mais e melhor. Sem complicar situações, leva a vida mais leve e pouco tem a se preocupar. Decretaram que é mais fácil viver na superfície e que quem teimar em se aprofundar vai acabar afundando. Eu ando oscilando entre o fundo e o raso, sem saber a qual me fincar.

Ouvi dias desses que para viver melhor em sociedade é preciso ser assertivo. Assertivo é o termo usado pela psicologia para designar o equilíbrio entre o passivo e o agressivo; é aquela pessoa controlada, que consegue dosar as palavras para não brigar com ninguém, mas ainda assim consegue se impor.

Teoricamente o assertivo é uma pessoa prática, pois resolve as situações com facilidade, sem grandes dramas e sem consequências negativas. Mas pra mim soa como a tal pessoa em cima do muro. Aquela que nem concorda, nem discorda. Que não é oito, nem oitenta. Aquela a qual nada afeta.

Não acho ser possível ser assertiva o tempo todo. Pensar sempre antes de fazer algo é como criar um personagem para se dar bem na vida. É ser prático por praticar. É esquecer das próprias vontades e regras para sempre se adequar.

Os textos dizem que a pessoa assertiva não usa de palavras de baixo calão e tom de voz exaltado, pois isso é o que designa um ser agressivo. Mas como não ser agressivo quando alguém comete uma injustiça com você? Como ponderar a voz quando se descobre que está sendo prejudicado no trabalho? Como segurar a raiva ao sofrer um assédio moral do chefe?

Não despejar a raiva não é sinal de assertividade e sentir raiva já nem é considerado passividade. Ter o sentimento e se segurar para não expor é ir contra você mesmo. É esquecer de quem você é para se adequar ao que os outros querem que seja. É ficar no raso com medo de se molhar.

Em tempos de relacionamentos abertos e casais se conhecendo via aplicativos, ser prático é dançar a dança da maioria. É se adaptar ao parceiro, fingindo não querer um relacionamento por que o outro não o quer. É guardar o sentimento para não perder o prazer imediato, sendo passiva às vontades alheias. É sentir vergonha por se apaixonar e por isso deixar o sentimento ir embora pelo ralo junto de suas lágrimas.

Ser prático nos dias de hoje é ser raso. É gostar e esquecer em duas semanas; é se preocupar até a página 3; é sofrer até o próximo final de semana; é saber de tudo lendo apenas as manchetes; é seguir a maré e não ter opinião própria; é engolir o choro para não borrar a maquiagem; é nunca se mostrar por completo.

É mais prático viver praticando o desapego, pois se aprofundar em algo ou alguém gera danos. Mas na prática, quem não vai fundo não conhece ninguém de verdade, não sabe sobre nada, não vive nenhum sentimento por inteiro.


Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida. .
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