Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida.

Ela não gosta de crepe

Foi assim que ela começou a fazer coisas que não gostava para satisfazer uma pessoa que nunca soube o que é gostar de alguém. Desculpe a decepção, mas esse texto não vai chegar ao cerne da confeitaria. É só um relato sobre um relacionamento precário que levou uma pessoa bem resolvida a dizer sim para n coisas que normalmente diria não.

Ela ama doces, é chamada de formiguinha pelos mais íntimos e tem uma predisposição para à diabetes. Adora chocolate, brigadeiro, bolo, mousse, tortas, mas não gosta de crepe. Não que crepe seja necessariamente considerado um doce, mas é que foi exatamente essa frase no dia do convite, que deu início a tudo:

- Vamos comer um doce?

- Que doce?

- Crepe!

- Eu não gosto de crepe!

Foi assim que ela começou a fazer coisas que não gostava para satisfazer uma pessoa que nunca soube o que é gostar de alguém. Desculpe a decepção, mas esse texto não vai chegar ao cerne da confeitaria. É só um relato sobre um relacionamento precário que levou uma pessoa bem resolvida a dizer sim para n coisas que normalmente diria não. 

Ela não gosta de crepe, mas naquela noite aceitou o convite e comeu. Ela não gosta de compromissos sem aviso prévio, mas naquela noite aceitou e foi. Ela não gosta de chegar de madrugada em dia de semana, mas naquela noite chegou depois da 1h. Ela não sabia, mas aquela noite seria a primeira de muitas em que ela ia abdicar de suas próprias vontades. 

Ela abdicou da sua opinião quando ele disse que ela não tinha experiência para saber sobre tal assunto; abdicou do seu sorriso quando ele não achou graça das suas brincadeiras; abdicou do seu sono quando ele insistiu em chegar só após às 23h; abdicou do seu respeito quando aceitou que ele fosse embora às 3h da manhã, após um cochilo e uma ducha. 

Ela não comeu crepe novamente, não houve mais o convite. Nos meses que se passaram foram só delivery e comida que ele já levava para o apartamento dela, para não perder tempo. O tempo dele era precioso, o dela não valia nada. Esperava dias para uma resposta, por um encontro. 

Ela abdicou da sua sanidade quando deixou ser chamada de louca em cada vez que tentou conversar sobre eles; abdicou dos seus estudos quando deixou de frequentar palestras para esperá-lo; abdicou de sua beleza quando ouviu piadinhas no lugar de elogios ao seu novo corte de cabelo; abdicou do seu orgulho quando ligou no trabalho dele para confirmar onde ele estava. 

Ela continua não gostando de crepe, mas aprendeu que precisa experimentar algumas coisas para sentir o gosto. Ela descobriu o gosto da humilhação, da falta de respeito, do machismo enrustido, da cara de pau, da grosseria e do crepe de nutella com morango. Mas de todos, o último é o único que ela aceita experimentar de novo.

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Essa é uma entre milhares de histórias de relacionamentos abusivos que eu e, tenho certeza, você também conhece. E se não ficou muito claro o que é esse tal de relacionamento abusivo, assista ao vídeo da Jout Jout. 


Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida. .
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