Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida.

Eles são os médicos ou os doentes?

Será que é possível formar médicos saudáveis em um ambiente opressor, preconceituoso, que trata os alunos como animais?

Conheci dia desses um cara que se intitula R1. Demorou um pouco pra cair a ficha até eu perceber que significava residente 1. Sim, ele era médico / estudante de medicina. Não sei explicar muito bem, sou de humanas, gosto mesmo é de poema. Me assustei de início, afinal, pra mim, médicos eram pessoas acima do normal, inalcançáveis, sem problemas. Me enganei. 

Ele foi simpático e me encantou logo de cara, mas falava o tempo todo de sua profissão. O quanto um médico ganha, como é difícil ser médico, a falta de tempo por causa dos plantões, e contava cada cirurgia e cada morte como se fosse uma história de gibi. Me assustei novamente.

Nos envolvemos e o sentimento fluiu por poucos dias. Até que ele resolveu surtar e não querer mais nada. “Não quero mais falar com você” “Não quero mais te ver” “Estou me sentindo sufocado” foram as frases mais usadas por ele. Me assustei, mas dessa vez preferi entender que, após 36h de plantão, houvesse uma confusão mental. Ele iria acordar no outro dia mais calmo e então a conversa ia fluir.

Não acordou. Foram mais alguns dias de briga sei lá por qual motivo. Ele nunca conseguiu se explicar. Misturava “gosto de você” com “não quero mais conviver”, e eu fui ficando cada vez mais assustada. Me magoei, corri atrás, escutei coisas que não merecia, cansei e pus um ponto final. 

Não se passaram muitos dias desde o ocorrido e eu estava tentando esquecer. Mas parece que essa semana o assunto mais comentado nos noticiários foi “estudante de medicina”. Uns fizeram uma piada de mal gosto e viraram vilões na internet. Outros foram citados em caso de tentativa de suicídio e depressão. E a minha ficha caiu. 

Estudantes de medicina e médicos são pessoas normais, como qualquer um de nós. Eles sofrem, mas não tem tempo de demonstrar. Eles passam por muita pressão, mas não podem fraquejar. Eles estão doentes, mas precisam curar aos outros. 

Hoje, lendo essas notícias, enxerguei o tal R1 de uma maneira diferente. Ele não é só um cara confuso que me magoou. É um cara confuso que passa por situações extremas diariamente. Vê a morte o tempo todo e, muitas vezes, é responsável por ela. Ele deve ter estudado muito, nem consigo imaginar o quanto,e continuará fazendo pelo resto da vida. 

Eu não sei o que é se sentir assim – médico, mas imagino que a pressão deva ser insuportável. E é natural que algumas partes da vida fiquem de lado – a parte sentimental principalmente. Por isso, hoje, eu só queria abraçar esse Dr. e dizer que não sinto raiva, tenho apenas compaixão. 

E às faculdades fica o alerta: será que é possível formar médicos saudáveis em um ambiente opressor, preconceituoso, que trata os alunos como animais? Precisamos desses profissionais para nos curar, mas antes eles precisam estar bem.


Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida. .
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