Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida.

A gente se esbarra qualquer dia

Foi muito pouco tempo para se apegar a detalhes.

Essa foi a última frase que Joana ouviu naquela noite fria, entre os ventos do outono e a garoa do inverno que estava se aproximando. Ela abriu o portão sem querer, mas com a força que precisava para entrar e não olhar para trás. A força ficou na maçaneta do portão, pois seu olhar fraquejou e mais uma vez olhou c que não queria te enxergar. Joana deu tchau sem falar e ouviu como consentimento o ronco do motor do carro prata, do qual ela não decorou nem modelo, nem placa. Foi muito pouco tempo para se apegar a detalhes.

Um romance de pouco mais de 3 semanas, que começou numa festa universitária, sem pretensão, teve suco de laranja pra curar o resfriado de Joana quando ela menos esperava, 3 noites seguidas de muita paixão num apartamento pequeno e improvisado, risadas em todos os tons e horários, café da manhã e almoço numa rede de fast food qualquer e beijos de despedida intermináveis. Tudo que uma paixão avassaladora precisa, tudo que um roteiro de romance com fim previsível procura. 

Na quarta noite – numa segunda-feira de fim de mês, quando o salário já terminou e a única diversão possível era um miojo de galinha caipira, Joana foi surpreendida no final da aula com uma mensagem de “Posso te buscar na faculdade? Precisamos conversar”. E num misto de sim e não, aceitou a carona pela curiosidade e medo de tomar chuva, mas num pressentimento de que algo ruim estava por vir, quis pular do carro em movimento por 4 vezes durante os 7 minutos até o seu apartamento. 

Abriu o portão, a porta de vidro que precisa de um macete especial, a porta do apê e por fim a porta da geladeira. Sabia que não ia encontrar nada de bom, mas por educação ofereceu leite, omelete e água gelada. Todos foram recusados. Na mesa de 4 cadeiras meio bambas, ouviu frases desconexas e previsíveis. Joana percebeu que era melhor ter recusado a carona e comido o miojo do fundo do armário. 

Por mais uma vez ela não estava fazendo bem pra alguém. Por mais uma vez esse alguém estava se sentindo pressionado, precisava de espaço e não estava preparado para um relacionamento. Por mais uma vez Joana viu todo o sentimento construído se desmoronando num chão branco cheios de cabelos, dela e dele. 

O cabeludo não entendeu que Joana também não queria namorar, nem prendê-lo, nem tirá-los de seus amigos. Joana queria carinho, queria mais noites a dois, queria risos de madrugada e quem sabe, até dividir o miojo. Ela queria alguém que a quisesse também, mas achou alguém que ficou com medo de sua graça, de sua liberdade, de sua risada alta e de sua geladeira vazia. 

Paixões são efêmeras e intensas, ao passo que para senti-la em todos os pontos é preciso coragem, muito mais do que vontade. 

Naquela noite Joana se deparou com um covarde e preferiu se recolher a sua solidão bem resolvida. Pegou o molho de chaves, deu um gole na água gelada, abriu novamente as três portas e, ao olhar para trás, ouviu: a gente se esbarra qualquer dia. Faltou o abraço apertado costumeiro dos últimos dias, ficou a tristeza daquela escolha e a certeza que bons encontros duram pouco. 


Natany Pinheiro

Não há pessoa nesse mundo que me entenda. E eu, pra contrariar, entendo tanto de todos, que prefiro me distanciar. Escrevo para organizar meus anseios, minhas angústias. Escrevo para trair minha própria afirmação, na esperança de um dia ser entendida. .
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