exorbito

Devaneios e impressões de gaveta

Fabiana Lights

Estou ligada num futuro blue.

Preconceptualizar

Reflexões sobre preconceito e consciência.


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Abrir a janela e expor preconceitos em datações comemorativas encontra validade quando questões sócio-históricas são colocadas em reflexão, para além dos novos juízos de valor e moral. Na última década chacoalham-se movimentos e condutas que repreendem e colocam a prova as várias facetas do preconceito, e torna-o tabu.

As origens parecem óbvias, mas não explicam a perpetuação do ódio que se estabelece em adorno ao quesito cor. Um passado colonial e escravocrata parece ser bastante em respaldar, mesmo após o distanciamento de mais de 100 anos, a consciência negra em seu aspecto excludente e cruel. Comemora-se a consciência negra, mas qual seu real intuito?

Os questionamentos que se erguem a cada dia 20 de novembro não encontram vias fecundas em discussões pouco acadêmicas, e que se aquietam no passar dos outros dias de novembro. Cotas, leis, criminalidades que “protegem”? Qual o fundamento, o argumento? O problema foi resolvido? Sem dúvidas, estudiosos têm se lançado em minuciosos trabalhos que se não apontam soluções, buscam reflexões incômodas a qualquer brasileiro, afinal, ninguém quer ser preconceituoso

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O conceito é revisto, e classifica novas tensões. Preconceito não se trata, exclusivamente, de um pré-julgamento, mas de uma construção que se vale do ódio, do outro. O outro que não necessariamente opositório, mas o outro que vive sob a pele de sí mesmo. Negros, cujo ódio se aloca em negros; negros que odeiam brancos porque, na verdade, odeiam negros. Assim, o ponto catalisador que nos permite melhor pensar essas questões é compreender o preconceito em sua construção; para, talvez, interpelá-lo frente ao espelho tortuoso da Alteridade. O preconceito se aloca em detrimento da cultura? Corporifica suas representações na cor da pele? Ou se trata, após tantos anos, de um pensamento interiorizado, perpetuado silenciosamente pelas décadas, anunciado sob outros vieses? É um exercício quase psiquiátrico.

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O intuito do presente texto não é fornecer explicações, soluções; em momento algum foram sequer preteridas. Contudo, almeja compartilhar os questionamentos que aqui se exteriorizaram, são reflexões observadas e experienciadas no cotidiano.

Pessoalmente, penso nas saídas imediatadas para as pessoas acobertarem o preconceito e sorrirem hipocrisias, tolerando os novos velhos sujeitos sociais. Alguns adotam, com muito orgulho, a tolerância e se sentem descansados das relações implicadas ao viver em sociedade, se esquecendo da conotação da palavra, do ato, e de suas significações.

Outros optam por uma abordagem Freyriana, usufruindo de uma memória seletiva onde um passado composto por segregação, desigualdades e humilhações, se transforma em um ambiente de partilha onde o hibridismo cultural reina e dá lugar a versões romantizadas: o senhor de engenho que se apaixona pelo calor do corpo da negra, a mulata que amamenta o filho da Sinhá, criando-se, então, um laço fraterno entre culturas.

1.9.9.7-Sem-tiitulo-Di-cavalcanti.jpg Para além de uma crítica a Freyre – e ressalto que de modo algum o tenha sido, trata-se mais de uma referência – a intenção é chamar atenção para os preconceitos velados, reprimidos pelo alvorecer de uma outra mentalidade.São resquícios de antigas construções e fundamentos, onde o problema está pautado nesta “fossilização” das sensibilidades, das mentalidades. Estruturas que, agora, se escondem, mas estão ali presentes e profundas.


Fabiana Lights

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