Richard Ybars

Paisagens barrocas, grafadas em linhas retas: Pois o conteúdo deve ceder à forma

As vitrines de Eugène Atget: a cidade, o fotógrafo e seus simulacros

A série de fotografias de vitrines de Eugène Atget (1857-1927) denuncia uma forma de alienação constitutiva dos tempos modernos: Vultos espectrais, sorrisos cadavéricos e olhares pornográficos são os signos manifestos de uma Paris às voltas com as contradições que a atravessavam.


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Vitrines são como peças teatrais. O vidro se interpõe ao palco e à rua. Aqui, a platéia define-se por um certo olhar, entre libidinoso e encantado, que antecede o gesto aquisitivo. Lá, as mercadorias são os atores de uma cena instantânea de autoria coletiva e anônima. Mas a estabilidade dessas categorias (a platéia, os atores, a cena) é movediça, pois a fronteira que as separa o faz de maneira ambígua e deficiente. O mesmo vidro que se faz transparente também devolve ao espectador o mundo de aquém palco e o atrai para o centro de gravidade da cena representada.

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Nesse pequeno universo de entes permutáveis, a lente do fotógrafo não encontra um ponto de neutralidade ótica a partir do qual seja possível visar um registro objetivo. A câmera e seu operador, refletidos pelo vidro, são objetos de uma dupla projeção: Primeiro, para dentro da cena; segundo, de volta à rua. Essas passagens entre distintos espaços e funções são realizadas pelo sutil mecanismo do foco. O olho que vê e a lente que mira (o orgânico e o vítreo aqui se equivalem) devem repousar na cena, no interior da vitrine, nas mercadorias que se mostram. Esse é o olhar esperado, obediente e que nos permite evitar a vertigem reflexiva. Pousar o foco no vidro, ou aquém deste, subverte a cena montada com rigor e instaura uma confusão entre o consumidor e a coisa consumida.

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Essa dificuldade epistemológica é levada ao extremo na tomada da portaria do restaurante Le tambour. Ali, o pano negro do dispositivo fotográfico, que cobre um robusto tripé, medeia dois vultos caricatos, entre os quais podemos divisar o perfil do próprio fotógrafo, ambos refletidos de modo estranho pela vidraça do estabelecimento.

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É bem conhecida a maneira como Atget evita fotografar a burguesia francesa, como se esta não possuísse o estatuto ontológico dos seres críveis, dotados de carne e osso. As raras capturas dessa classe denegada se dá através de seus simulacros manequins: Senhoras de andar afetado, crianças detestáveis de braços abertos, sorrisos cadavéricos de vulgares dândis, são todos registros de personagens que parecem saídos do estúdio de um taxidermista: Espécimes de cujo interior se retiraram as vísceras e se preencheu o oco de seus corpos com formol e serragem.

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A obra fotográfica de Eugène Atget é extensa e apenas uma pequena parcela dela foi publicada em livro. A maioria de seus negativos pertence ao acervo da Bibliothèque Nationale de France ou ao espólio da fotógrafa americana Berenice Abbott (1898-1991). Para escrever este post, servimo-nos do belo Paris: Eugène Atget, publicado pela Taschen, com ensaio de Andreas Kase, que reúne toda a obra publicada em vida por Atget.


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