Richard Ybars

Paisagens barrocas, grafadas em linhas retas: Pois o conteúdo deve ceder à forma

Manzanar: Um Ansel Adams sem tripé

Maciços imponentes, canyons que rasgam a terra, geysers que explodem com violência: A obra fotográfica de Ansel Adams (1902-1984) costuma ser associada a paisagens solitárias, signos impactantes de uma América selvagem. Mas, em alguns momentos de sua carreira, o inventor do rigoroso “sistema de zonas” precisou abdicar do tripé e das câmeras de grande formato, realizando reportagens onde o motivo principal viria a ser o próprio homem.


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Após Pearl Harbor (1941), toda a costa oeste dos Estados Unidos foi declarada “zona de exclusão” e dez “centros de realocação” de japoneses e seus familiares foram criados, da noite para o dia. Os estrategistas de plantão anunciavam o desembarque iminente das tropas imperiais nas praias da Califórnia. Dezenas de avistamentos de submarinos amarelos, vôos rasantes de kamikases e aterrisagens de tropas paraquedistas inimigas foram noticiados às autoridades. O fato de que nenhuma dessas notícias se confirmasse não diminuía o clima de medo e desconfiança entre os americanos.

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Nesse contexto, Adams foi convidado pelo Exército a registrar as condições de vida em Manzanar, um centro californiano que chegou a segregar 110.000 pessoas. Era importante para o governo responder às críticas de violação de direitos civis que lhe eram endereçadas. O trabalho fotográfico revelou o cotidiano de pessoas comuns que se viram imobilizadas entre dois mundos. Se as imagens sugerem que as condições materiais de vida dos internos eram satisfatórias, elas também acusam a existência de um óbvio processo de imposição de valores ocidentais e do estilo de vida americano.

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Dadas as condições da reportagem, o pesado e pouco ágil equipamento do fotógrafo de natureza teve de ceder a vez. As longas exposições, os complexos cálculos fotométricos, o emprego cauteloso do bracketing, a enorme câmera pousada sobre um robusto tripé, o perfeito alinhamento do horizonte, a espera paciente pela luz ideal, todos esses recursos, técnicos e estéticos, que tornariam Ansel Adams um marco na fotografia do século XX, precisaram ser moderados, em Manzanar.

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Fica então claro que a maestria de Adams não repousava em um culto fetichista dos meios técnicos. Seu olho parece o de um ágil repórter fotográfico. Os enquadramentos ousados, a atenção ao momento decisivo, a fotografia roubada sem aviso, revelam todos que não estamos diante de um especialista, mas de um artista com pleno domínio de seu meio de expressão.

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Mas o destaque dessa série é o seu trabalho como retratista. Nele é flagrante a empatia entre o fotógrafo e os sujeitos que emprestam suas poses e sorrisos à lente. Na contra-mão da paranóia anti-japonesa, Ansel Adams soube ultrapassar as condições históricas que se impunham e afirmar o valor universal de cada ser humano, independente da cor de sua pele ou do formato de seus olhos.

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No decorrer do século, Ansel Adams se tornaria um ambientalista incansável e influente. Suas fotografias do Parque Nacional de Yosemite (que ajudou a fundar) tiveram o poder de transformar acidentes geológicos em monumentos nacionais. Acabou por inventar uma certa “paisagem americana”. O sucesso dessa faceta de sua obra talvez tenha eclipsado suas reportagens sociais. Mas seu legado é extenso e uma pesquisa cautelosa ainda pode revelar algumas surpresas ao viajante incauto.


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