fábulas do mundo esquecido

Das artes da simplicidade aos mistérios da verdade

Gustavo Padilha

"- Que ousadia é esta de questionar uma verdade tão dita por muitos, por que de tanto absurdo?
- Ora, as respostas mudam a cada tempo. Tola é a pessoa que vive em uma verdade tão clássica e intocável quanto uma moderna de hediondas pesquisas e teorias".

A inesquecida paixão de O Segredo dos Seus Olhos

Aqueles momentos em que a pessoa para e observa. Mas observa os pequenos, ou os muitos detalhes mal vistos, ou percebidos, ao redor. Seja de qualquer ação típica de conforto ou de espera, como olhar para as pessoas e tentar simpatizar, ou se elevar para a empatia, sobre sua vida, seus problemas e seus sonhos, em um momento enquanto estamos sentados (ou em pé) no banco de um ônibus, como também tomando um café em uma livraria. Seja qual for o momento, a troca de olhares podem falar, e dizer toda nossa angústia em um simples lance no olhar.


Sabe por que não conseguimos encontra-lo Benjamín? Porque somos dois idiotas. Olhe: 12 cartas, 31 folhas, 5 empregos... Não parei de pensar nem um segundo, minha cabeça esta explodindo Benjamín. Então me perguntei, como é possível não encontrar esse cara? Ele desapareceu, mas onde ele está? Ai comecei a pensar nas pessoas, mas em todas as pessoas. Não só numa em especial, mas em todas. As pessoas podem mudar tudo: de cara, de família, namorada, religião, de Deus. Mas tem uma coisa que não se pode mudar. Não se pode trocar de paixão”.

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Para dar uma atmosfera de romance, na tentativa de se aproximar do nível em que ocorre no filme, deixo aqui uma trilha sonora do filme. Quem sabe assim nos focamos como Esposito poderia ter feito? (caso queira conhecer toda a trilha sonora, clique aqui).

Como poderíamos deixar de conferir uma obra com Ricardo Darín? Uma história, envolvente de drama, mistério, e investigação que se completa num círculo de perfeita construção. Não somente possui um drama forte, com um romance inativo por falta de coragem, como na busca pelas respostas de um crime hediondo, em que os olhos revelam a autenticidade da pessoa, de seus segredos, de seus sentimentos e paixões. Uma obra que se completa, com as lembranças das vivências do passado, das recordações de não ações, arrependimentos, e um caso tão conexo com o investigador que o amedronta até o acordar no presente. Das novas descobertas, impasses, que o fazem relatar a vida e o caso em um livro. Um filme completo, com grande subjetiva busca policial, com o desejo incessante de dúvida, certeza, medo e não-coragem, para expor a sua paixão.

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A admiração passa ser o critério da busca e a resposta do mistério e do amor. Os olhos acabam dizendo tudo. É como a troca de mentes e desejos, de esperanças e sonhos, através de um olhar. Mas de duas confissões não respondidas, caladas pelo medo e a incerteza do desejo do outro. Uma conversa sentimental silenciada, mas nunca esquecida.

- Aconteceu uma coisa ontem, eu fiquei pensando a noite toda e não dormi. Eu pensei em você. Sabe quando você vê as coisas de outro ângulo. Quando olha pro outro e o que você vê no outro faz você olhar sua própria vida.

- Continua.

- Eu disse para mim: eu tenho que falar com Irene. É capaz de ela querer me mandar a merda.. desculpe.. ela vai querer me matar. Mas eu tenho que contar.

- Espere um minuto, eu vou fechar a porta.

- Você não sabe o que é o amor desse rapaz. Comove. É como se com a morte da mulher a vida dele tivesse parado para sempre, eterno, entende. Devia ver os olhos dele. Estão sempre em um estado de “puro amor”. Consegue imaginar que exista um amor assim? Sem o desgaste do cotidiano, das obrigações?

- Fale por você mesmo, para mim não é assim.

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Mesmo com o passar do tempo, anos da procura da felicidade, em acreditar nos mesmos sentimentos pelo outro, mostra-se que o tempo não passou, e sim parou. Uma atmosfera temporal, emocional, eterna. Que nos condena, dia após dia, noite após noite, casamento atrás de casamento, pela vida que poderia ter com a paixão clara pelo outro.

Agora eu me aposentei e não tenho mais nada para me distrair. Outro dia fui jantar perto de casa, e me vi, jantando sozinho. E eu não gostei do que vi”.

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Dois crimes juntos em duas histórias. O primeiro pelo caso de estupro seguido de morte, de uma alma eternamente agonizada e sofrida pela perda de uma perfeição, e o segundo pelo investigador, inquieto, de sonhos e olhares, culpado por não tomar coragem de mostrar sua paixão. És uma obra completa, em que Ricardo Darin e Soledad Villamil parecem naturalizar uma paixão lúcida, com ambas certezas de felicidade conjugal, mas impedida por não responder a clareza das perguntas pelos seus olhares. Um filme de se espantar pelas vidas que o drama e a investigação tornaram completos, tanto pelo caso sem provas, quanto à irrealização de uma paixão eterna.

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"- Sempre achei essa história das fotos sem pé nem cabeça.

- É, eu sei, eu só achei estranho o jeito com que ele olhava para ela. Acho que foi isso. Você vê o cara olhando para aquela mulher, com adoração. Os olhos... falam. Os olhos falam demais, deviam se calar”.

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Gustavo Padilha

"- Que ousadia é esta de questionar uma verdade tão dita por muitos, por que de tanto absurdo? - Ora, as respostas mudam a cada tempo. Tola é a pessoa que vive em uma verdade tão clássica e intocável quanto uma moderna de hediondas pesquisas e teorias"..
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