fábulas do mundo esquecido

Das artes da simplicidade aos mistérios da verdade

Gustavo Padilha

"- Que ousadia é esta de questionar uma verdade tão dita por muitos, por que de tanto absurdo?
- Ora, as respostas mudam a cada tempo. Tola é a pessoa que vive em uma verdade tão clássica e intocável quanto uma moderna de hediondas pesquisas e teorias".

A vida não pode acabar

Beauvoir já nos disse isso! A vida não pode acabar. Ela é única, ela é última. E entre escolher ser o nada ou acreditar no amor. Melhor viver uma vida!


O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada.

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 01.jpg Cena: Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou) - A Espuma dos dias (L'écume des jours), 2013

Quando estamos na fase de crescimento, amadurecimento, ou mesmo envelhecimento, passamos uma trajetória de experiências, seja por qualquer meio de transmissão, internet, televisão, filmes. Essas demonstrações que presenciamos passam a nos influenciar nossos pensamentos. Construir no que acreditar, no que ter esperanças, talvez, distinguir a fantasia da realidade. Então, um questionamento de algo tão “natural” pode ser tão difícil como debater um assunto subjetivo, oposto ao conhecimento da pessoa, como a política, exatas, humanas, etc. O temível sonho do amor.

Eu estava lendo alguns textos da Magazine Obvious que deixo nos favoritos, pois só possuo o turno matutino para ler (ou em ônibus, na faculdade, cada um com suas adaptações), e encontrei a “categoria” que mais defendo (ao menos, é o que eu creio), a subjetividade da pessoa, a paixão do amor e da comédia humana. O artigo “O amor também acaba”, da colunista Luana Peres, me fez entrar em confronto. Como pode o ser humano desacreditar, tão simplesmente, na confiança no outro? São inúmeros motivos para sermos instigados a isso, desde os “falsos” amigos, as traições dos relacionamentos como incrivelmente os próprios familiares. O que pode ser tão forte, seja de modo único como acumulativo, de nos fazer esquecer, negar, ou não acreditar mais no amor?

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 05.jpg Cena: Holly Golightly (Audrey Hepburn) - Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's), 1961

Renunciar ao amor parecia-me tão insensato como desinteressarmo-nos da saúde porque acreditamos na eternidade”.

Diante das imperfeições, injustiças, crueldades desumanas, das descrenças cotidianas, estamos percebendo como o mundo pode ser injusto. O nível de inutilidade existencial cada vez aumenta. Se pode fazer a pergunta da seguinte maneira: como hoje avaliamos uma pessoa? Poderíamos dizer, objetivamente, do conhecimento no papel, do diploma e do trabalho. E todo o resto? A humanidade, na grande totalidade, possui tais “méritos”? Por que o conhecimento da vida, das pessoas, da família, de diversas matérias diversificadas, humanas e exatas, podem, simplesmente, “não significar nada”? Julgar, como o ser e o nada?

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 07.jpg Cena: Nathalie Kerr (Audrey Tautou) - A Delicadeza do Amor (La délicatesse), 2011

Toda a busca do ser está fadada ao fracasso; esse mesmo fracasso, porém, pode ser assumido. Renunciando ao sonho vão de nos tornarmos deus, podemos satisfazer-nos simplesmente em existir”.

Ao longo de cada dia, estamos nos auto classificando. Acusando, criticando, julgando. O que nos diferencia hoje, no mesmo nível de classificação humana, dos moradores de rua? Somos um objeto a mais no planeta? Que nada tem para contribuir? Como os seres humanos podem ser diabólicos. Os valores cada vez aumentam, e as pessoas, cada vez mais, diminuem. Se passarmos a enxergar as coisas dessa forma, o que mais nos resta? O que poderia existir que tenha importância em um planeta de classificações humanas? Creio que seja a única coisa que ninguém consegue tirar, mesmo com manipulações psicológicas da vida. A arquitetura do pensamento do ser.

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 02.jpg Cena: The Doctor (Margaretha Krook) - Quando Duas Mulheres Pecam (Persona), 1966

O que resta é a totalidade do homem e da mulher. De toda forma de conhecimento, dos defeitos e qualidades, dos sonhos e desejos, da mocidade do corpo e da beleza. Somos dos mais simples aos mais confusos e diversas pessoas, que vivem da maneira que foram instruídos ou aprenderam sozinhos. Vidas que se constroem, que amadurecem, que presenciam todo tipo de felicidade e desigualdade humana ao longo da vida. Um amadurecimento que nos fazem a adaptar como as coisas são. Mudar passa a ser desacreditado, indiscutível. As vidas humanas passam a ser entendidas como números. Se esquece a própria totalidade do ser que cada um possui. Como mudar o mundo sozinho?

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 03.jpg Cena: Dra. Alisson Cameron – Dr. House, E01 T02, 2005

Dessa forma, obrigados em se adaptar a ter de aceitar esse “terror do século”, da classificação e rejeita da vida humana, passar a desacreditar, ou rejeitar, o ser do outro? Negar a acreditar “naquilo que nos resta”, aceitar que a totalidade do homem e da mulher, com o tempo, sumiram. Fazer da mesma forma que o mundo nos obriga a fazer, esquecer dos sonhos e das esperanças da confiança e do amor as pessoas.

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 06.jpg Cena: Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou) - A Espuma dos dias (L'écume des jours), 2013

Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar”.

O mundo já nos castiga e culmina de mais para fazermos isso com nós mesmos. Acredito que se decairmos a desumanidade mundial, estaremos fazendo o oposto da vida. Estaremos a nos auto contradizer sobre a existência do significado do viver. Aceitar em sofrer e esquecer o ser humano em si. A culpa da falha humana não é só das más ou terríveis experiências com outros seres, como também, das manipulações do mundo. São abrangentes de acúmulos de um amontoado de falhas humanas. A vida passou a classificar e quem pode ter mais do os outros. Aprendemos a aceitar a "injustiça da engrenagem humana". O tempo não perdoa. Mesmo assim, com um amontoado de erros e pesadelos, não podemos entregar a vida e sermos marionetes, e mais nada. A vida é a única coisa que resta, que aos poucos, estamos deixando passar para segundo plano.

Melhor viver uma vida!

Gustavo Padilha - A vida não pode acabar 04.jpg

*Todas citações são de Simone de Beauvoir, brilhante filosofa feminista e existencial, do qual, utilizei algumas citações em referência de contradição a Paulo Leminski.


Gustavo Padilha

"- Que ousadia é esta de questionar uma verdade tão dita por muitos, por que de tanto absurdo? - Ora, as respostas mudam a cada tempo. Tola é a pessoa que vive em uma verdade tão clássica e intocável quanto uma moderna de hediondas pesquisas e teorias"..
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