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Um foco de luz para quem curte cinema e literatura

Daniele Pendeza

Musicista, aficcionada por livros e cinéfila de plantão.

Comer Rezar Amar

A história de uma mulher que tinha a vida aparentemente perfeita, mas que jogou tudo para o alto para poder se tornar nada menos que ela mesma.


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Havia resolvido pela leitura do livro Comer Rezar Amar por indicação de uma amiga, logo fui correndo à livraria tamanha a propaganda que me havia sido feita e o devorei imediatamente (ao contrário do que faço com vários livros que compro e leio meses ou até anos depois)! Infelizmente fiquei muito decepcionada com grande parte da narrativa e só olhei o filme porquê, em minha opinião, a Julia Roberts nunca foi atriz de se jogar fora.

Em um caso raro, achei a adaptação cinematográfica melhor que o livro e não senti inclinação para escrever nem ao menos um comentário mais significativo sobre o livro ou filme. Até o dia que em meio a uma viagem de ônibus, com passagens mais caras para ter o luxo de uma conexão à internet que por acaso não funcionava, resolvi começar a escrever qualquer coisa que me viesse em mente. A principio pensei em mais um conto, mas no momento em que iniciou o filme à bordo optei por prestar atenção.

Após um primeiro momento de reclamação (ah, esse de novo?!), já havia decidido sobre o que escrever: mais uma adaptação cinematográfica, uma que eu havia desprezado meses antes: Comer Rezar Amar (o livro foi escrito em 2006 e a estréia do filme se deu em 2010, mas aqui no Sul do Brasil os dois chegaram apenas em 2011, após o sucesso no exterior). Explico: nada como o tempo (agora estamos em 2012)! Vendo o filme atualmente, com o acúmulo de vivências que tive do primeiro contato com a narrativa até agora, minha visão sobre a mesma mudou, ficando muito mais positiva e reflexiva.

Estou falando de uma história verídica narrada pela própria protagonista, Elizabeth Gilbert, que em dado momento teve sua vida virada de cabeça para baixo, por conta de um divórcio conflituoso que culminou em uma viagem pelo mundo, a fim de poder encontrar a si mesma. Essa breve explicação se torna superficial (assim como fora minha primeira impressão) se ignorarmos todo o drama psicológico de uma mulher realizada profissionalmente, rodeada de amigos, linda e casada já há algum tempo que começa a receber cobranças do marido (e também de amigos e familiares) sobre o fato de ainda não ter filhos. Como Liz (para os íntimos) já está na casa dos 30 anos e com uma vida estável, aparentemente não existem empecilhos para este novo passo do matrimônio: ser mãe.

Drama? Não seria o sonho de toda mulher ter filhos? Liz nos conta que sempre adiou este momento de definir sobre a maternidade, que desde o início do casamento foi empurrando as conversas que viriam a ser definitivas sobre esta situação. Quando via suas amigas grávidas, ou já trocando fraldas, não sentia aquele impulso por também ser assim, não sentia aquele tão falado “instinto materno” que dizem aflorar em todas as mulheres. E isso a preocupava, pois passou a se sentir anormal, deslocada, além de cobrada por todos sobre este sonho que não era seu, pois quando pensava em realização, em seus verdadeiros sonhos, sua contemplação era escrever e viajar.

E foi aqui que minha simpatia e interesse por Liz surgiram, quando pude ver a mulher oprimida por sonhos alheios (seu marido ansiava por ser pai), por convenções seculares de que mulheres casadas devem ter filhos para serem completas e que este é um passo óbvio que se dá após o casamento. Bem onde seu drama interno foi apresentado que eu pude notar o retrato de mais uma entre tantas as mulheres vítimas de um machismo tão mascarado, que muitas vezes nos passa despercebido. Esse machismo de que mulheres só serão verdadeiramente mulheres se tiverem marido e filhos (nessa ordem, preferencialmente), ignorando seus outros anseios, se isso afeta sua carreira, seus estudos e principalmente se existe um desejo real para tal condição ser abraçada.

Ao contrário do casamento, os filhos são para sempre, e é de uma brutalidade enorme tentar forçar uma mulher a ter filhos (pois esta, muito mais que o homem, é cobrada sobre o assunto não só na concepção, mas também na questão da criação das crianças) se não é sua vontade, se não existe qualquer inclinação para a maternidade (pensem em quantas mães estão insatisfeitas com suas vidas consideradas perdidas cuidando de filhos, ou até mesmo os renegando; e a vida destes mesmos filhos que muitas vezes carregam pesos que não lhes competem, abandonados dentro do próprio seio da família, pois foram, no fundo, indesejados).

Voltando à história de Liz, vemo-la profundamente envolvida em um divórcio conflituoso, que lhe arranca não somente os bens materiais como também sua saúde. Para poder sair de sua depressão e seguir em frente, parte em uma viagem de um ano pelo mundo, em busca de si mesma, e a partir desta jornada surge seu livro, que tem a narrativa dividida em Comer (Itália), Rezar (Índia) e Amar (Indonésia), de acordo com cada passo interior que vai sendo dado.

Aqui deixo o conselho para quem o desejar: leia o livro e assista ao filme. Viaje com Liz, sinta a dor e as dificuldades que ela encontrou, e claro, também as alegrias de conhecer lugares e pessoas novas e que como o título da terceira parte já adianta, tratam sobre (aprender a) Amar. Mas aí temos um amor diferente, um amor maduro, imperfeito sim (como será muitas vezes mostrado na continuação da trajetória de Liz com o livro Comprometida, de 2010), mas acima de tudo, vemos que Liz aprendeu amar a si mesma.

***

Fiz questão de ler Comprometida e pude ter uma grande impressão que gostaria de compartilhar: o amadurecimento de Liz. Nesta continuação, encontramos uma nova mulher e que apesar de toda a situação desagradável que vai permear sua nova narrativa, ela se mostra racional e objetiva no tratamento de suas dificuldades. Além disso, o livro traz dados muito ricos sobre a história do casamento, desde os primórdios da humanidade até como ele é encarado hoje; visões de outras mulheres e povos sobre a instituição e claro, por fim, o desfecho do romance que se iniciara em Comer Rezar Amar (ou seria apenas o seu início?).

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Daniele Pendeza

Musicista, aficcionada por livros e cinéfila de plantão..
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