fator caos

Divagações sobre música, poesia, vida cotidiana e nostalgia - tudo regado à muito café.

Marcella Chiapina

Música. Poesia. Café. E um milhão de sonhos.
Escolho caminhos duvidosos, o lugar-comum não me atrai.

E eu vos declaro: indignos de uma vida normal

O amor deveria ser o sublime, e não o fator desavença. O que te incomoda no meu jeito de amar?


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Eu acordo cedo todos os dias e me entorpeço de café antes da jornada diária. Tomo banho, escovo os dentes, tento dar um jeito no cabelo para não assustar ninguém – nem sempre obtenho êxito.

Vou para o trabalho disposta a dar o melhor de mim. Converso com os colegas de trabalho e me esforço para não parecer antipática por conta da minha timidez. Quando já me enturmei, costumo ser quem traz a piada pra animar o dia.

Acaba meu expediente e no caminho de casa, passo no banco para pagar alguma conta. Aproveito o atalho e levo pão pra casa. Chego, estudo, assisto qualquer seriado que me faça rir e durmo. Amanhã repetirei essa rotina – e depois e depois e depois de amanhã.

Leitura tediosa até aqui? Talvez. Pode ser que você tenha vindo ler na esperança de encontrar coisas extraordinárias que lhe tirem da sua própria rotina.

Mas somos completamente iguais. Ou quase, depende do ponto de vista. Talvez você seja o cidadão de bem fazendo a mesma rotina que eu. Mas eu sou a maçã podre, mesmo sendo igual a você.

O que nos difere é algo que eu julgo tão absurdamente pequeno que por vezes até ignoro, mas que talvez te incomode até as entranhas: quando eu amo alguém, é alguém do mesmo sexo que eu.

Amanhã quando você chegar ao trabalho e disser que sua esposa está grávida ou que seu noivo apareceu com alianças de noivado, você será parabenizado. Se eu chegar ao trabalho e assumir minha orientação sexual, os colegas que ouviam minhas piadas me evitarão – e não me venha com essa de “hoje as coisas estão mais liberais” – não estão não. Pode ser até que depois de amanhã eu já esteja até desempregada.

O que faz minha forma de amar incomodar tanto?

Eu tenho as mesmas obrigações que você, então, me explique: o que me torna indigna dos mesmos direitos?

Me dê ao menos uma explicação para que eu tenha que me esconder, estar sujeita à violência verbal, cochichos e risadinhas, piadas machistas, e viver com medo de um estupro corretivo para ‘aprender a ser mulher?!

Se você beija na rua, é normal, é bonito e talvez seja até incentivado seu romantismo em não ter vergonha de expor seu amor diante do resto do mundo. E se eu fizer o mesmo? Resposta: é nojento, é sujo, é anticristo, é rebeldia, é só uma fase, é falta de homem, é falta de surra, é para aparecer. Mas uma coisa, você diz que tem cer-te-za: é claro que não é por amor!

O que tem o meu amor que tanto dói em você?

Ao meu modo de pensar, o amor é o mais sublime sentimento. Não entendo o que o torna tão imoral diante de certos olhares.

Você ama seu marido. Seu cachorro. Sua roupa nova. Seu carro importado e até um time de futebol... Mas eu não tenho essa dádiva de poder amar tudo isso – eu estou fora de seus padrões de decência. Aonde diabos o meu amor por outra mulher é tão impossível e ridículo?

De tempos em tempos, às vezes numa conversa de bar; às vezes em uma reunião de família, ouço comentários ignorantes à cerca da sexualidade alheia. Mas, oi?! É sério que você quer dar palpite em uma coisa que diz ter medo até de chegar perto?

Será que é contagioso? – você se pergunta. E eu lhe respondo: SIM! O amor é contagioso – mas não a minha opção. Isso é peculiar de cada um. Você não vai ser contagiado por estar perto de mim. Bem como seus filhos e seus amigos. Talvez usar o termo ‘opção’ seja um pouco antiquado: ninguém me deu um papel e uma caneta e me pediu para fazer um “x” na minha opção sexual, simplesmente aconteceu. Num belo dia me dei conta de mim mesma, e desde então experimentei um tipo de amor e felicidade que me era desconhecido. Simples assim.

Qual o seu medo? Não, eu não estou lhe pedindo que você saia comigo na parada gay, nem que você transforme sua casa em uma boate GLS. É apenas o bom e velho respeito que eu e todos que fazem parte dessa minoria queremos.

Sabe aquele garoto que você ama incondicionalmente, gerado a partir de um ato de amor entre você e sua esposa? Sim, aquele que você levou para a escolinha de futebol, pagou escola, roupas, passeios e sustentou com muito esforço e às vezes com grandes dificuldades? Então... E se amanhã seu garoto vier a ser gay?

Você vai repudiá-lo, assim como repudia a mim? Ou vai finalmente entender que amar não é só dar e receber alegrias, mas é entendimento, companheirismo, coragem? Amar é transcender.


Marcella Chiapina

Música. Poesia. Café. E um milhão de sonhos. Escolho caminhos duvidosos, o lugar-comum não me atrai. .
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