fator caos

Divagações sobre música, poesia, vida cotidiana e nostalgia - tudo regado à muito café.

Marcella Chiapina

Música. Poesia. Café. E um milhão de sonhos.
Escolho caminhos duvidosos, o lugar-comum não me atrai.

Quanto vale a arte?

Algumas verdades incômodas sobre os bastidores da música.


music.jpg Há muitos anos trabalho com música. Nunca foi uma tarefa fácil, apesar de que sempre ser uma felicidade incomensurável. Mas houve um tempo que era possível se viver (ainda que modestamente) da arte sem se ‘prostituir’.

Não me formei em uma escola de músicos, nasci assim. Não, também não me creio portadora do tal “dom”, sou apenas uma apaixonada pela música, que se atenta a cada detalhe, cada milésimo de segundo, cada timbre e cada groove.

Até pouco tempo atrás, eu trabalhava com várias bandas como guitarrista. Porque eu desisti? Porque eu cansei. Cansei de tocar muito e ganhar pouco, cansei de receber convites para tocar de graça em troca de ‘visibilidade’, de receber com cheque pré-datado, cheque sem fundo, cansei de ter discutir com donos de estabelecimentos pelo cachê mínimo e de não ter dinheiro nem para comprar uma bala no fim do mês... Enfim. A música é sublime, mas também é um caminho tortuoso.

Nesses anos todos em que fiz incontáveis shows, me deparei com inúmeras situações desagradáveis, que aos poucos, foram me mostrando que o meu sonho de tocar era basicamente um sonho, uma visão exagerada de felicidade, baseada em sei lá o que.

Vou fazer um hanking do que acontece com maior frequência:

1) “-Faz um precinho mais em conta dessa vez”. Não, não faço mais isso. E sabe qual o motivo? Uma vez que você toca mais barato, eles sempre vão pedir pra manter esse preço. Se você subir para o preço real, eles não te contratarão mais. Simplesmente tem mais centenas de pessoas que vão passar por aquele estabelecimento para fazer a primeira apresentação cobrando menos. Fiz essa burrice uma vez. Não ganhei nada com isso.

2) “E com o que você trabalha de verdade?”. Eu sou musicista, esse é meu trabalho. O problema é que ninguém entende que música é uma profissão também – não só um hobby. Conclusão de quem não entende de nada: se é um hobby, não é necessário pagar direito, tratar direito e etc.

3) Outra coisa que acontece muito é quando você fecha um trabalho por um determinado valor, e quando chega ao final da noite, vem o gerente te ‘pedir’ (na verdade, é só informar, não é pedir) para fazer um precinho mais camarada porque não teve muito movimento, ou porque ele só recebeu com cartão de crédito, entre outras inúmeras desculpas esfarrapadas.

4) Via de regra, água deve ser liberada para os músicos. Já toquei em casas que cobraram por isso, apesar de parecer absurdo.

5) Música ao vivo todo mundo quer – parte I - mas ter estrutura para shows ninguém tem. A maioria dos estabelecimentos que toquei não tinham nem acústica para tal e nem equipamento de som, o que obriga o músico a ter o dobro de trabalho e gasto levando seu próprio equipamento. E quando a acústica não ajuda, ainda corremos o risco de que quem está escutando achar que o músico é ruim por causa da qualidade do som.

6) Música ao vivo todo mundo quer – parte II – mas o cliente não gosta de pagar o couvert artístico, mesmo que sejam míseros dois ou três reais. O pagamento do couvert não é facultativo (informe-se sobre direitos do consumidor e veja por si só). Vi com frequência pessoas reclamando na fila do caixa que não tinham obrigação de pagar músico. Mas aí eu me pergunto: então porque foi à um bar com música?

7) Música ao vivo todo mundo quer – parte III – mas repassar o couvert para os músicos é pedir demais. Muitos lugares que me apresentei ao longo dos anos cobram couvert do cliente, mas nos repassam uma porcentagem que varia bastante, mas normalmente, menos que cinquenta por cento. Aí eu me pergunto de novo: se era eu quem estava tocando, não seria justo que o couvert fosse meu por inteiro, ou no mínimo, a maior porcentagem?

8) Equipamentos... Ah, essa parte é dolorosa. Como se não bastasse todos os perrengues que passamos, tentamos ter o melhor equipamento possível, para uma apresentação digna, com qualidade. Mas... E como comprar isso? Artigos musicais são caros no geral. E ai se for coisa importada! Da última vez que fiz uma pesquisa sobre um pedal de guitarra, fiquei pasma com a diferença de preços: nos EUA, o pedal que eu queria custava em torno de quatrocentos dólares, mas aqui, na terra do imposto, o mesmo pedal estava custando mais de dois mil reais!

9) ‘Nós te daremos a chance de mostrar seu trabalho’. Muito obrigado, mas não. Essa barganha é a pior. O contratante lhe oferece o seu distinto bar para que você toque em troca de visibilidade. Ou seja – toque de graça e talvez, quem sabe você esteja com sorte, um produtor musical top de linha estará lá assistindo. Sério, isso nunca me aconteceu, tampouco com as centenas de músicos que eu conheço.

10) A carteira de músico. Além de termos que pagar um valor que não condiz com a realidade, a carteira de músico não nos dá vantagem alguma, e alguns lugares a estão tornando obrigatória. Mas nos pagar de acordo com a tabela da OMB não? Ah...

Enfim, essas são algumas situações, mas, se fossemos sentar para conversar com tempo, lembraríamos dezenas mais.

Quando eu era menina, me lembro de ficar maravilhada quando via pessoas cantando ou tocado algum instrumento – era como uma coisa fantástica para mim! Com o passar do tempo, fui me envolvendo com a música, e aumentando em mim a ideia de viver da música.

Acredito que para quem apenas assiste, quem esta de fora desse mundo, tudo parece como pareceu a mim: incrível, maravilhoso, perfeito. Não se iluda. É um caminho árduo, espinhoso, cheio de tramas, panelas, rivalidades e trocas de favores. Não é lindo; é grotesco.

Em algum lugar na nossa história, colocou-se preço na arte. E este preço, ao contrário do preço de tudo na vida, não para de descer.

Hoje eu falo aqui pela classe da qual ainda me considero parte, mesmo não estando mais na ‘ativa’, mas observo que outras ramificações artísticas estão em situação semelhante - vendendo o almoço para comprar o jantar.

E pra você, quanto vale a arte?


Marcella Chiapina

Música. Poesia. Café. E um milhão de sonhos. Escolho caminhos duvidosos, o lugar-comum não me atrai. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @obvious //Marcella Chiapina