Christiany Yamada

Também conhecida como Kih. Paraense residente em São Paulo, tem 19 anos e estuda jornalismo

"Espero que vocês estejam entendendo"

Apontado pela revista Elle como a aposta de 2014, classificado como “uma versão chique do tecnobrega” pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, elogiado por Grimes e Caetano Veloso e prestes a se apresentar na Virada Cultural de São Paulo, Jaloo mostra que não é um fenômeno passageiro


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Em seu primeiro show do ano em São Paulo no Centro Cultural da Juventude, Jaloo aparece com uma peculiar combinação de calça listrada vermelha e branca com um coturno amarelo-mostarda que consegue ficar ainda mais interessante quando ele tira o moletom preto liso jogando-o no chão e revelando uma camisa de zíper com estampa verde original dos anos 1970 comprada na Feira de Antiguidades do Bixiga.

Jaloo abriu o show com o cover de Lucas Santtana, Cira, Regina e Nana, que foi emendada com Bai Bai – versão que ele fez para o hit “Wrecking Ball”, de Miley Cyrus –, e passou novamente sem interrupções para sua interpretação de Chuva – canção famosa na voz de Gaby Amarantos –, que foi acompanhada por duas dançarinas em uma coreografia que ora lembrava break dance, ora lembrava a delicadeza dos passos de balé contemporâneo. Ao final das três músicas, Jaloo faz a primeira pausa sendo aplaudido e, num rápido diálogo com o público, pergunta se estão entendendo aquilo, enquanto olha ao redor e os lábios grossos desenham um sorriso. “Espero que vocês estejam entendendo”, diz, antes de seguir com a apresentação.

Afinal, nada daquilo é algo ao qual estamos acostumados: seja a exótica performance das dançarinas, em que é impossível não desviar os olhos da principal atração para notá-las; sejam as músicas, que misturam o tecnobrega com carimbó, música pop, dub e outros gêneros, que dá início a uma sonoridade completamente diferente – já apelidada de “novo brega”, mas também conhecida como sci-fi brega; seja a vestimenta curiosa e bem humorada; ou pelo tímido Jaime Melo que fala com o público de uma maneira até infantil – como quando ele anuncia que vai tocar uma música inédita assegurando de que “ela é novinha, ainda nem foi dar uma volta” antes de cantar “In Your Eyes”– e, logo em seguida, com apenas uma pequena mesa apoiando alguns equipamentos eletrônicos, se transforma no estrondoso Jaloo cantando uma verdadeira ode à maconha.

jaloo_by_franch.jpg Foto: Junior Franch

São 17h04 quando chego ao apartamento de Jaloo, na Vila Mariana, onde ele mora com duas amigas e recebe o namorado semanalmente. São Paulo, porém, nem sempre foi o seu lar. Nascido e criado em Castanhal, interior do Pará, mudou-se bastante cético para a maior capital do Brasil há poucos anos devido a uma oportunidade para trabalhar como produtor musical. “Eu não me joguei como um artista que vai, acredita muito na sua arte e vai tentar sobreviver disso. Eu tinha uma proposta bem fixa, bem definida, que podia pagar minhas contas, e mesmo assim eu não acreditava muito nela, não”, ri.

A mudança de ambiente, porém, não fez com que abandonasse suas raízes musicais. “Eu tô muito longe do que vem de mais fresco no cenário do tecnobrega. Isso tá me levando pra outro lugar, mas eu não acho que as minhas raízes estão se afastando de mim, não. Eu carrego elas mesmo sem querer, elas estão lá, fixas, na minha sonoridade”. Ele admite, no entanto, que São Paulo se mostra mais receptiva para a sua música “principalmente por causa da mistura que São Paulo carrega. Todo mundo do Brasil tá aqui. A gente encontra um paraense, encontra alguém do Piauí, encontra alguém de Recife, alguém do Sul... Todo mundo tá no mesmo balaio, sabe? Então tá todo mundo meio que aberto pra o que tá vindo.”

Além de parcerias – dentre elas a mais famosa “Prostituto”, com a funkeira carioca Deize Tigrona –, Jaloo já tem dois álbuns lançados por conta própria (ambos disponíveis para download gratuitamente)*, e parece se superar a cada um deles: o primeiro, Female & Brega, nasceu de remixes que ele fazia despretensiosamente misturando hits pop com o tecnobrega. O segundo, Couve, que, como sugere o trocadilho, é formado inteiramente por covers, marcou sua transcendência como um músico que, agora, também surpreende cantando, se envolve mais com outros ritmos, mas ainda se mantém fiel ao ritmo paraense que o tornou conhecido.

A partir de Couve também se originaram três clipes, lançados da mesma forma independente dos álbuns. “A minha inspiração maior no tecnobrega – mais do que o próprio tecnobrega, o som – é essa autonomia pra você fazer o que você quiser. Tipo os meus clipes: eu cuido deles. O som, o acabamento, lançar... tudo eu que tô cuidando. Porque é isso: quando o apoio não vem, meu bem, eu não vou parar de fazer o que eu faço, não”.

Seu primeiro projeto audiovisual, Diamonds (cover da cantora Rihanna), foi, por acaso, gravado em uma só tomada. E, a partir daí, Baby (cover de Gal Costa) e Bai Bai (Cover de Miley Cyrus) seguiram a mesma linha. “E quando eu defini a idéia do [clipe] Baby, que fosse em câmera lenta, que fosse letárgico e tal, eu já tinha essa idéia de dublar e esticar o vídeo, e criar uma dinâmica nova. E o último, pô, a idéia já existia, por que não virar ela ao contrário? Que foi a [concepção para o clipe] de Bai Bai, que a gente acelerou tudo.”

“Toda vez que eu assisto um clipe parece que a música cria um frescor novo no meu ouvido. Tem muita música que eu ouvi e quando eu fui assistir o clipe parece que ela se abriu inteira pra mim”. Para Jaloo, os clipes são para “você passar a identidade sonora e visual daquele som que você tá propondo”. E qualquer um pode perceber que, não só nos seus clipes, mas também nos shows, Jaloo se preocupa muito em expor a sua identidade através da apresentação visual de sua música. Quando pergunto sobre as dançarinas muitas vezes presentes, ele comenta: “mesmo gostando muito disso, eu acho meio forçado. A música é pra curtir, né? Então eu falo isso pros dançarinos, sempre. A gente define uma coreografia muito idiota pra um ou outro momento da música, mas o foco principal é a diversão deles também. Eu quero que eles se divirtam no show inteiro. Só se divirtam. Esse é o lema da coisa.”

A dedicação nas apresentações , aliás, fez com que ele se tornasse uma das atrações da Virada Cultural de São Paulo**. “[A oportunidade] veio totalmente do meu mérito, como artista, me apresentando, sabe? O pessoal que tava organizando, definindo ainda quem ia se apresentar, assistiu o show, gostou pra caramba e o convite veio. Não podia ser de outra forma que me deixasse mais orgulhoso de mim mesmo. Porque eu mostrei no palco que eu merecia estar lá”, conta, feliz. “E espero que mostre isso no dia também, porque eu tô nervoso”, ri.

6204_596966250341276_103864048_n.jpg Foto: Quebramar / Divulgação

Mesmo depois da repercussão nacional e até internacional de sua música, ele ainda se mantém bastante pé-no-chão, e responde calmamente a todas as perguntas com o sotaque paraense intacto. Diz que está numa fase mais introspectiva e longe da imprensa, enquanto prepara seu novo álbum – embora seu nome esteja na capa da revista FFWMAG e, quando liga o notebook ao final da entrevista, tenha um convite para participar de um programa de televisão. Faz questão de separar o Jaime, que seria sua vida pessoal, do Jaloo, o profissional, afirmando, porém, que não se trata de uma questão de alter ego. “O Jaloo eu preservo de algumas coisas”, esclarece. “Por enquanto, eu cuido pra que ele só se preocupe com o trabalho dele. Que ele exprima as emoções dele, que ele veja a realidade e dê a opinião dele em relação às coisas...”, e de repente interrompe o próprio pensamento: “Ai, eu to falando na terceira pessoa. Isso é horrível!”, ri.

O ritmo paraense que também é representado nacionalmente por Gaby Amarantos, Gang do Eletro e até pelos goianos da Banda Uó tem ganhado uma repercussão tão grande que passou a ser cool. Jaloo acredita que é porque “O tecnobrega é eletrônico. Você pode trocar tudo. Ficar fiel ao ritmo, mas em relação à melodia, você pode mudar tudo”, e lembra: “toda semana quando eu morava no Pará, eu ouvia algum insight novo, sabe? Eles nunca paravam de criar. Além da fórmula do tecnobrega que são as versões, né? De pegar um sucesso internacional e transformar em um tecnobrega em português... carregado de sofrimento”.

O sucesso do gênero musical de periferia foi tanto que conseguiu até chegar às elites. “Eu acho ótimo, porque é a nossa arma. O pop de periferia é a arma da gente. Se a gente souber exibir muito bem as nossas reivindicações, sei lá, os nossos problemas, nossa alegria – alegria eu acho que já é bem definida nas músicas. Mas acho que tá faltando só um pouquinho mais de realidade, né?”, e por realidade, se refere aos problemas. “Porque a arma a gente já tem. A gente já alcança os ouvidos”. Mas não deixa de ver, porém, o gênero como um manifesto social: “O engajamento do tecnobrega não é tanto político, é mais emocional, né? Ele reflete muito como os jovens amam hoje em dia. Isso é importante pra caramba. Acho que todo mundo é movido a amor.”

329550_228853610509258_480038968_o.jpg Foto: Antonio Kaio Araujo

“Eu sou um artista de periferia porque minha realidade era essa. Eu sempre tive uma vida difícil, mas muito divertida”, ressalta, mesmo tocando atualmente para um público predominantemente de classe média e tendo uma situação econômica mais confortável.

Para o próximo álbum, ele revela que todas as músicas serão completamente originais: cantará e escreverá todas, além de cuidar da melodia. Jaloo já teve essa experiência quando fez seu single Pa Parará: “Eu me preocupava com a sonoridade das coisas, agora é imprimir o que é que eu vou dizer na música”. Sobre as letras do futuro álbum, pondera: “a sociedade tá cada vez mais introspectiva, né? Acho que essa vai ser a grande discussão da coisa. Essa introspecção total pro amor, pro próximo... pra vida. Quero que a gente se abra mais pras coisas. E respeite mais quem já vive assim, feliz. Parece que a felicidade alheia tá incomodando todo mundo”, e conclui: “É isso. Quero que a gente desabroche. Como uma flor”, ri, carismático. Além disso, deixa incertezas como a possibilidade de um curta-metragem, sem dar muitos detalhes.

Jaloo, que não tem nenhum contrato com alguma gravadora, não tem previsão para o lançamento do novo álbum. E parece não ter pressa para finalizá-lo, mas só se preocupar em criar algo que considera realmente bom enquanto se dedica a mais uma maneira de surpreender o público com sua arte. No próprio single Pa Parará, por sinal, ele critica a efemeridade das músicas, a velocidade com que elas são consumidas e descartadas. “É chato dizer isso, mas [o motivo pelo qual isso acontece] é principalmente pela falta do valor da música em si. Tanto de sonoridade, quanto de conteúdo, as coisas estão muito fracas. Eu sinto muito isso. E eu luto muito contra isso”. E garante: “Eu sempre vou fazer um som muito sincero, que reflita na minha vida como sonoridade”. E o tecnobrega seria uma parte da sua identidade? “Uma grande parte”, assegura.

*Download dos álbuns disponíveis no seguinte link: https://www.facebook.com/JalooMusic/app_190322544333196 **Jaloo se apresentará no Palco Cabaret no dia 17 de maio às 19h30


Christiany Yamada

Também conhecida como Kih. Paraense residente em São Paulo, tem 19 anos e estuda jornalismo.
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