fendas no guardasol

O artista abre uma fenda a fim de subverter a comodidade sensível para introduzir o caos.

Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe

Literatura russa + Fantasia + Realidade = Gogol

X + Y + Z = Гоголь. Um dos maiores escritores russos que influenciou tantos outros, tais como: Dostoiévski, Tchékhov, Tolstói e até seu próprio mestre, Alexander Pushkin. Seus contos retrataram a realidade social russa, porém servem até hoje como referencial. Seus personagens foram criados a partir de seu olhar observador para consigo e, mais ainda, ao outro - de modo que há por grande parte dos seres humanos declínios espirituais geradores de contradições existenciais.


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O CARA Conseguiu criar contos imaginativos e atemporais que perduram até hoje. Seus escritos de extrema significância contextual revelam, com tamanha combinação entre a dicotomia da fantasia e realidade, personagens perturbados.

Nikolai Vasilievich Gogol, nascido na Ucrânia, mas com alma russa, foi um eminente escritor russo que conseguiu extrair dos detalhes miseráveis da vida, extraordinárias metáforas que o torna um dos fundadores da literatura russa moderna. Morreu aos 43 anos após, por escolha própria, parar de comer. Personalidade complexa e enigmático enquanto ser humano, pouco relacionava-se afetivamente.

Obs.: Fico imaginando o que há de tão *inexplicável* especial nascer ou descender na Ucrânia, visto que temos na literatura uma das, se não a, escritora mais *sinistra* intimista de todos os tempos, Clarice Lispector! Fora Carl Sagan na astronomia, Leon Trótski na política e tantos outros.

Screenshot_2.png Nikolai Vasilievich Gogol

POSSÍVEIS EXPLICAÇÕES Podem ser dadas acerca de sua forma de escrita, pois suas variadas angústias e influências literárias são das mais intensas (e autenticas), de Goethe até Pushkin, este último foi seu grande amigo e mestre.

A mãe transmitiu-lhe a religião, que acabou resultando em grande misticismo doentio; já o pai, um oficial cossaco que nunca fora um amparo psicológico, desenvolveu seu gosto pela literatura.

Suas tentativas (frustradas) de publicar, ainda muito jovem, poesias, renderam-lhes críticas negativas que logo resultou no recolhimento e queima total dos exemplares. Outrora, por desilusão à sociedade russa, naquela época o czarismo.

Obs.: São diversas possíveis explicações a respeito de seu léxico textual, e, mapear a linha de pensamento de alguém é tão obscuro quão a falta de luz que gera a escuridão, não obstante Gogol foi conhecido por seu extremo realismo literário – de modo tão intenso que tem ar surreal.

O RETRATO É um conto dividido em duas partes que retrata a vida de um artista. Tchartkov, um pintor com “seu casaco velho e suas roupas mais do que modestas denunciavam o trabalhador obstinado para quem a elegância não tem esta atração fascinante que exerce costumeiramente sobre os jovens.” (p. 4) Após andar pelas ruas do mercado, encontra um retrato com grande expressão facial, cujo os olhos estão concentrados com tamanha intimidação que pode levar (qualquer um) à loucura; até mesmo o próprio autor.

Parte 1 - SOBERBAS REFLEXÕES SOBRE A VIDA E A ARTE

Nikolai faz isso muito bem! Logo no início do conto tem uma breve descrição da sociedade que, mesmo sendo de outro contexto e país, reflete o que mais temos hoje na cultura artística: se não é “o crítico”... é o “gozador”.

Estas obras, que desprezam os compradores, fazem as delícias dos bisbilhoteiros. É sempre possível encontrar, bocejando diante delas, tanto um criado paspalho trazendo da taverna a bandeja onde se encontra o jantar de seu patrão, o qual não correrá o risco de se queimar comendo sopa, quanto um destes “cavalheiros” aposentados que ganham sua vida vendendo canivetes, ou um vendedor ambulante do subúrbio de Okhta carregando um tabuleiro cheio de sapatos velhos. Cada um se extasia a seu modo. Ordinariamente, os mais rudes apontam as imagens com o dedo. Os militares examinam-no com ares dignos. Os jovens lacaios e os aprendizes têm ataques de riso diante das caricaturas, nelas encontrando pretextos para gozações mútuas. As velhas domésticas com seus casacos de lã param para examinar, coisa própria de desempregados, e as jovens vendedoras precipitam-se em sua direção por instinto, como bravas mulheres russas ávidas por compreender o que dizem as pessoas e observar o que elas estão olhando.

Ele conseguiu descrever de modo tão claro as mesquinharias duma sociedade extremamente materialista, que ao lê-lo, é percebido hoje muitos “críticos” e gozadores de plantão; de modo que estão ali, não para apreciar a obra técnica/ de arte, mas sim criticá-las por observações insensíveis - que acaba gerando a não reflexão.

Parte 2 - SOBERBAS REFLEXÕES SOBRE A VIDA E A ARTE

Gogol descreve de maneira objetiva ensinamentos que podem ser aplicados em qualquer situação, estou falando do mainstream. Melhor dizendo... “aquilo que está na moda”, “aquilo que está bombando”, etc.

Tchartkov era um jovem artisticamente muito bem-dotado e que prometia muito. Seu pincel conhecia acessos bruscos de vigor, de naturalidade, de observações refletidas. “Escute, meu rapaz”, dizia-lhe com frequência seu mestre. “Tu tens talento, seria um pecado sufocá-lo. Infelizmente, te falta paciência. Assim que algo te atrai, tu te lanças sobre ele sem cuidar do resto. Atenção, não vás te transformar num pintor da moda: tuas cores já são um tanto vivas, teu desenho não muito seguro, teu traço um tanto delicado. Costumas procurar os efeitos fáceis, as bruscas iluminações à maneira moderna. Cuida-te para não cair no gênero inglês*. O mundo te seduz e eu tenho medo disso. Muitas vezes te vejo com um lenço de seda no pescoço, um chapéu muito brilhante... É tentador, sem dúvidas, pintar imagens da moda e pequenos retratos bem-remunerados; mas, creia-me, isso mata o talento em vez de desenvolvê-lo. Paciência. Amadurece longamente cada uma de tuas obras, deixa que os outros arrebanhem o dinheiro; o que é teu não te abandonará de modo algum.”

O ucraniano com alma russa abriu as feridas de sua época a fim de mostrar a verdade que se escondia atrás das vestes de quem vendeu e se vendeu ao mercado. O termo mainstream é atual, mas os exemplos são velhos. E hoje tem-se pouquíssima diferença no que foi dito acima. Grandes artistas sendo comprados/vendidos, como uma mercadoria; perdendo o talento natural por questões de cunho social pouco relevante àquele que cria-transforma-sensibiliza o mundo.

Nota: Cuida-te para não cair no gênero inglês* é uma alusão do autor para com George Dow, que ficou rico após pintar uns quatrocentos retratos de heróis de 1812.

Enfim! O conto (e os outros escritos, tal como O Capote e Avenida Niévski) é muito interessante, vale a pena ser lido e refletido (e, claro, dialogado). O que foi dito acima é só um referencial que não deve ser interpretado como única-alternativa-de-se-pensar-os-dias-atuais, mas sim de trazer uma leitura instigante aos olhos de qualquer um. Há muitos outros trechos que remontam diversas análises para os dias de hoje, mas é apenas um "tira-gosto" literário russo (em breve penso em escrever sobre outros escritos russos).

Encontre o livro pela L&PM, Coleção 64 Páginas - O Retrato, de Nikolai Gogol: Completo ou um "tira-gosto".

courbet.jpgAuto-retrato, Gustave Courbet


Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe.
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