fendas no guardasol

O artista abre uma fenda a fim de subverter a comodidade sensível para introduzir o caos.

Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe

Philosophy & Design - Pensando através da aquarela

Navegamos em águas das quais não sabemos sua extensão; pouco sabemos onde pisamos. Contudo temos Filosofia, Design, Aquarela e um bate-papo com o indivíduo que é ~ escravo ~ do seu próprio gato!


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O bato-papo (com cara de entrevista) foi com ele: Marcos Beccari. Designer Gráfico e Mestre em Design pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Doutorando em Educação pela USP. Atualmente é professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR, integra o podcast AntiCast, colunista na revista abcDesign e coordenador do site Filosofia do Design.

Bom, a minha intenção neste artigo será duas: expor suas obras artísticas e falar sobre filosofia/design. Já deixo claro que esta última está além do que muita gente acredita ser design.

OBS.: Todas as aquarelas são dele. Encontre mais no Instagram (link no final).

  • Prepare a pipoca, o refrigerante e... a mente: AVANTE!

Caso a filosofia influencie seus desenhos... até que ponto isso acontece?

  • Não acho que influencia. Ou não tanto quanto o contrário: é a prática do desenho que tem me influenciado filosoficamente. Penso que arte e filosofia são apenas duas formas diferentes de expressão afetiva, portanto duas formas diferentes de arte. Possuo maior domínio, experiência e entusiasmo no registro da filosofia. Mas desde quando fui escalado para lecionar desenho tenho aprendido algumas nuances estéticas da expressão filosófica: a maneira particular como cada pessoa lida com aquilo que de uma forma ou de outra a todos acomete (a vida, a morte, desejos, angústias etc.). Acho que é assim que o desenho pode nos influenciar filosoficamente: como capacidade de reinventar o que se enxerga, no intuito de atribuir sentido e importância a si e ao mundo em que se vive.

1.jpgCarvão vs Aquarela (O Marcos não sabe, mas essa aquarela foi o estopim para que eu fizesse tal entrevista. Assim como comentei no seu perfil, digo novamente: parece-me a dicotomia que há entre a vida e a morte.)

Surgiu, numa de suas postagens artísticas, uma pergunta sobre "comercializar suas obras" e, como resposta, você disse que não faria. Qual(is) sua(s) reflexão(ões), atualmente, sobre os artistas? Necessidade ou cultura pop (mainstream¹)?

  • Esta minha recusa é provisória, ou seja, não tem nada a ver com o que penso sobre os artistas e o comércio de arte. Não estou vendendo meus desenhos apenas porque ainda quero assimilar melhor as técnicas e porque ainda não me organizei para vendê-los (mas pretendo me organizar em breve). Agora, nunca concordei com essas distinções metafísicas entre arte e convenção (necessidade, indústria, consumo etc.). A meu ver, desde os xamãs pré-históricos, passando pelos imperadores, pelos papas da igreja, pelos mecenas e mercadores europeus etc., o que chamamos de arte nunca foi nada além de convenção social. Mas desconfio que o discurso predominante ainda seja romântico e idealista, isto é, fala-se em arte como um fenômeno transcendente, como uma dimensão inacessível a não-iluminados. Este é o meu problema com grande parte dos artistas atuais. Muitos assumem esta postura para além das aparências, para além das convenções, caindo porém na maior das convenções da cultura ocidental: a de se retirar do mundo, seja pela porta da metafísica, seja pela do niilismo (que para Nietzsche dá no mesmo que metafísica).

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Algo que me chama atenção, é que quase 100% de suas pinceladas são contextualizadas com mulheres. Por que a "preferência"?

  • A princípio, tenho mais facilidade em desenhar mulheres. Mas talvez o que mais me motiva seja o erotismo feminino, coisa que tenho investigado nos períodos do helenismo, do barroco e do academicismo. Sob este prisma, o aspecto feminino se dilui no velho mito de Eros e Psique: ela está sempre atraindo Eros, que está sempre tentando encontrá-la. Quer dizer, o caminho para o belo erótico nunca deve ser imediato, mas sempre mediado por um tipo de véu que ao mesmo tempo esconde e revela algo. Penso que algo semelhante acontece em nossa relação com o mundo: é preciso escondê-lo em nossos valores, significados e sensibilidades para fazê-lo aparecer. A representação da mulher tem me servido para expressar este movimento, mas talvez eu encontre outras maneiras para dizer o mesmo.

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No AntiCast 143 - Pensar o Desenho, você especula que desenhar está dividido em 20% habilidade manual/técnica e 80% é olhar/observar. A pergunta é: perdemos a sensibilidade de observarmos, visto que estamos num contexto líquido de imagens fugazes ou é uma preguiça no ato de pensar/contemplar a arte como um todo?

  • Isso lembra um pouco o discurso de John Ruskin, patrono da Irmandade Pré-Rafaelita (séc. XIX) que buscava recuperar uma “inocência do olhar”, uma percepção pura e elevada que os artistas já teriam perdido há muito tempo. Discordo totalmente deste e de qualquer outro discurso nostálgico-romântico do gênero. O que eu quis dizer naquele momento é que mesmo a técnica é uma forma de “saber ver” o que nos interessa, e não um empecilho. Este saber-ver não deve ser entendido como algo excepcional e privilegiado, e sim como uma habilidade de expressão a ser construída, portanto uma habilidade de engajamento com a vida – aquilo que Nietzsche queria dizer com “fazer da vida uma obra de arte”. É este tipo de artimanha que me parece, sobretudo em sala de aula, cada vez mais rara e desprezada por pessoas que se pretendem criativas. É cada dia mais fácil encontrar uma verdade, uma receita, uma opinião sobre tudo, o difícil é saber o que fazer com isso. Eis o que quero dizer com “saber ver”: se desenhar é basicamente ver no papel o que nunca esteve nele, também implica saber recusar uma “verdade-em-si” que possa haver lá onde queremos vê-la.

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[Já finalizando, é justo deixar um ensinamento não só para estudantes de design (ou um mero aspirante de design como eu), mas para a vida]

Um ensinamento que você sempre passa, como professor de design, aos seus alunos?

  • Gosto de usar a metáfora de que o peixe é quem menos sabe da água em que está submerso: não lhe importa ver a água, interessa-lhe enxergar através dela. Não se trata de uma maneira metafísica de apontar a uma verdade oculta por trás das coisas; pelo contrário, trata-se de entender que não há nada para se ver além da água (nossas crenças, valores e ficções) e que, porém, não é a água o que importa enxergar. Em meio a um oceano de informações e possibilidades, o que importa é movimentar-se melhor dentro dele para, em última instância, não se afogar. O desenho é um caminho para isso, dentre muitos outros (a literatura, a filosofia, a música etc). Ao mesmo tempo, no entanto, qualquer caminho pode nos afogar numa lamentação uníssona; a diferença é querer sair da água, retirar-se deste mundo, ou afirmá-lo. Ora, o mundo não precisa de afirmação alguma para existir, assim como não deixará de existir por nossa recusa, então por que afirmá-lo? Para expressar a nossa existência nele, para não nos afogar. Toda e qualquer explicação, incluindo esta, não explica nada além de si mesma. Podemos lamentar a falta de sentido das coisas ou podemos compreender esta mesma falta de sentido – entendendo que compreender nada mais é do que expressar, fazer falar, reinventar o que se quer compreender.

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NOTA¹: Caso queira ler sobre cultura pop (ou mainstream), segue link do meu artigo sobre isso aqui.

Encontre Marcos Beccari no: Instagram | Site | Twitter | YouTube

10.jpgMarcos Beccari e seu dono: Fiodóro


Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe.
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