fendas no guardasol

O artista abre uma fenda a fim de subverter a comodidade sensível para introduzir o caos.

Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe

O ideal de beleza e a (nossa) morte prematura

"A beleza ideal está na simplicidade calma e serena" - Johann Wolfgang von Goethe


beleza_interior.jpgImagem: Google

O ideal de beleza nos gregos

A procura pelo ideal de beleza não é de hoje. Já na Grécia Antiga tínhamos filósofos se debruçando sobre “O que é o Belo?”. Antecedentes de Sócrates, chamados de filósofos pré-socráticos, foram os que deram iniciativa a tal pergunta. Eles, mais especificamente os da escola pitagórica - seguidores de Pitágoras -, usavam a ideia da proporção áurea, visto que objetos simétricos são mais belos.

Platão fez a asserção de que o belo só existe fora do mundo sensível, ou seja, está no mundo inteligível (das ideias). Sócrates, pelo contrário, afirmou que o belo é o resultado da observação contemplativa dos nossos próprios órgãos sensíveis. De modo geral, os gregos desenvolveram e utilizaram a partir da razão áurea um modo de vida para a sociedade; da arquitetura até a arte, justificaram que este número envolve a ordem do crescimento.

Entendendo o hoje, o agora

Fossem os pré-socráticos, fosse Platão, Sócrates ou Leonardo da Vinci com “Homem Vitruviano” cada um tinha sua finalidade. A diferença entre todos esses citados e nós, hoje, contemporâneos é: as finalidades deles convergem muito mais entre si do que as nossas com as deles. Ficou confuso? Eu explico. Simplesmente quis dizer que nossa demasiada procura pelo ideal de beleza é inútil. Sim. Inútil por dois motivos que se sobressai sobre todos os outros que possamos apontar: ela (a procura) é efêmera e os meios pelos quais procuramos são absurdos.

Caro leitor, entenderei muito bem se você parar por aqui e voltar a procurar “o ideal de beleza”. Mas…por exemplo, a palavra cosmético deriva do termo grego kósmos, significando “ordem”, “organização”, “beleza”, “harmonia”.

Mas você pode pensar: “E daí? O que tem a ver uma coisa com a outra?”. Tudo. Como eu bem disse, os gregos tinham uma finalidade: aproximar-se do Cosmos, cujo termo define o universo e sua totalidade estrutural.

Homem-Vitruviano-Leonardo-da-Vinci.jpgImagem: Homem Vitruviano, obra de Leonardo da Vinci

Cansou de ler sobre filosofia? Entendo muito bem! Talvez prefira literatura

O alvo agora será a literatura, ou seja, o lado “não chato” de toda essa discussão sobre ideal de beleza.

O conto de Honoré de Balzac, A Obra-prima Ignorada, traz à tona uma abordagem mais psicológica, mas que pouco distancia-se dos dois motivos que citei acima. Esse enfoque psicológico monstra como não apenas os artistas, mas todos nós morremos de forma prematura, nos autodestruindo aos poucos e levando cada um a fins dificilmente reversíveis.

Segue dois trechos do conto:

  • A missão da arte não é copiar, e sim expressar a natureza! Você não é um mero copista, é um poeta!”
  • “Nem o pintor, nem o poeta, nem o escultor podem separar o efeito da causa, que inelutavelmente contêm um ao outro! (…) Suas mãos reproduzem, sem vocês pensarem, o modelo que copiaram no ateliê do mestre.”

Estas foram as palavras ditas do mestre Frenhofer a uma das telas de François Porbus. Depois de certo tempo, exatamente três meses, Porbus e seu aluno, Nicolas Poussin, foram até a casa do mestre, onde “o homem tinha-se pura e simplesmente cansado, dando acabamento ao seu quadro misterioso. Estava indolentemente sentado numa ampla poltrona de carvalho esculpido, forrada de couro preto e, sem sair de sua atitude melancólica, dirigiu a Porbus o olhar de um homem que se acomodou em seu tédio.”

Após um grande diálogo, Frenhofer diz a Porbus que a pintura de Catherine Lescault (seu quadro misterioso) é sua própria filha, amante e criação assim como Deus cria; que não pode ser vista por “olhares frios” e indivíduos tolos. Louco? Razoável? Apaixonado, decerto.

Para elucidar o que citei acima, segue um pequeno curta que pode exemplificar o que falei. Dá o play:

Vídeo: Mauricio Bartok

Somos apenas consumidores de manequins em vitrines

Como bem disse sobre a diferença entre os gregos e nós, divergimos a partir do momento em que usamos os meios. As vitrines estão aí para isso. Um amontoado de itens que saem de linha rapidamente.

Você pode cogitar: “Mas os gregos não tinham esculturas e, consequentemente, não podem ser entendidas como um manequim hoje?” Não! Por um motivo: culto. A Escultura da Grécia Antiga era uma maneira de expressar os cultos que eles tinham, de promover a imagem dos deuses, homenagear o homem, veicular os valores da sociedade, falar sobre o cotidiano etc.

Talvez eu seja considerado anacrônico. Não obstante, devo deixar claro que minha finalidade é fazer uma abordagem filosófica e não apenas histórica. Estou usando os aspectos ideológicos/filosóficos/sociais de uma época remota e que certos aspectos residem em nós até hoje.

Herakles_Farnese_MAN_Napoli_Inv6001_n01.jpgImagem: Hércules Farnese, de Glykon, reproduzido a partir do original por Lísipo

Nenhuma abordagem lhe serviu? Então lá vai uma biológica

Após a permissão do próprio Pirula, linko aqui o vídeo dele a fim trazer uma outra via de explicação sobre os ideais e padrões de beleza hoje e como somos submetidos.

Vídeo: Canal do Pirula

Complemento do vídeo.

Apesar de tudo isso que eu falei, não tenho a mínima intenção em que você, leitor, mude sua opinião, pelo contrário: quero que você mantenha tal opinião, mas que a partir de uma chuva ácida, indague-as com o uso de meios alternativos, tais como: Filosofia, História, Sociologia, Psicologia, Biologia, Literatura ou qualquer outro meio que traga o sentido dessa procura pelo padrão de beleza que tanto se fala, mas que pouco se tem.


Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe.
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