fendas no guardasol

O artista abre uma fenda a fim de subverter a comodidade sensível para introduzir o caos.

Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe

os deuses não estão mortos, estão rindo

Foi durante a queda de Ícaro que os deuses do Olimpo descobriram o poder do riso. A descoberta foi tão grande, que logo se espalhou para as outras mitologias. Assim, Odin, o (principal) deus de Asgard, ao entrar em contato com Zeus, deixou claro que também queria a receita de tal poderosa descoberta.


A Queda de Ícaro.jpgA Queda de Ícaro, Pieter Bruegel

Odin senta-se ao lado de Zeus e, em seguida, diz-lhe algo em voz baixa. Não pude ouvir o que um disse ao outro. Ambos cochichavam e riam, e isso poderia durar a eternidade, já que são imortais.

Não havia trono algum, nem para o deus de Asgard, muito menos para o do Olimpo. Eles estavam sentados no chão, sem a mínima preocupação com a mitologia que os sustentam. Pouco importava o que os outros deuses iam pensar. Ao longo do tempo que observei eles ali, sentados no chão, não pude ouvi-los de maneira alguma. Entretanto, só conseguia ver que, quando um falava algo para o outro, os dois caíam em altas gargalhadas.

Enquanto eles conversavam, parei um pouco para imaginar como isso seria possível: como dois deuses, de diferentes mitologias, poderiam estar 1) juntos, rindo e cochichando e 2) sentados no chão?

Vez ou outra eu conseguia ler os lábios de um deles, mas só conseguia entender palavras soltas. “Amor”, “Dote”, “Guloso”, “Avarento”, “Lucro”, “Ouro”, “Herdeiros”. E novamente mais gargalhadas. Não consegui anotar todas as palavras que li, minha leitura labial é boa, mas minha memória é fraca, e por isso escrevo aqui as únicas palavras que pude lembrar.

Bom, eu não sei em que ou qual contexto estas palavras estão inseridas. Não posso fazer julgamentos. A minha única vontade era de participar da conversa deles, mas um mero mortal só pode contemplar os deuses através da mitologia e seu jogo de palavras. Sou um mero mortal escrevendo aquilo que os deuses dizem. Mas eles continuam rindo, e isso é o que mais me intriga. Meu desejo não é saber por que eles estão ali, juntos, nem saber por qual razão estão sentados no chão, mas saber por que eles riem!

Volto pra casa. Vou ler um pouco, como de costume. Continuo minha leitura com Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, e me deparo com ele dizendo que também já esteve entre deuses em algumas ocasiões, e que eles sobem no mais alto topo do Olimpo a fim de contemplar o que se passa na terra, até não poderem mais gargalhar, e voltam pro seu trono:

"Este morre de amor por uma mulherzinha, e quanto menos é amado, tanto mais ama; aquele desposa mais o dote que a jovem. Este outro se afana na procura de amantes para sua mulher; aquele outro é tão ciumento da sua que a não deixa um instante sequer. Aqui, um homem, surpreendido pela morte imprevista de um íntimo, faz e diz extravagâncias, e aluga choradores profissionais que finjam dor e lágrimas. Acolá, outro, com o júbilo no coração diante de igual acontecimento, faz esforços inimagináveis por parecer triste, e chora, como dizem os gregos, sobre o túmulo da sogra. Mais além, um guloso amontoa o que pode para satisfazer a sua gulodice, e se esquece que, dalí a pouco, não terá um pedaço de pão seco sequer; um preguiçoso, escravo da sua soberana ventura, entrega-se à inação e ao sono. Uns, negligenciando-se constantemente pelos do vizinho. Outros, pedindo dinheiro emprestado para pagarem as dívidas, julgam enriquecer, embora se encontrem à beira do precipício. Este, avarento, só encontra prazer em viver na miséria, enriquecendo assim os herdeiros. Este outro, negociante insaciável, por um lucro insignificante e incerto singra os mares, abandonando ao capricho dos ventos e das ondas uma vida que o ouro do mundo não saberá devolver-lhe. Outro prefere buscar a riqueza na guerra a viver em casa no meio da tranquilidade e do conforto. Alguns esperam locupletar-se facilmente, enganando um velho que não tem herdeiros; outros, com o mesmo fim, buscam o amor de uma velha endinheirada. Que prazer para os deuses, porém, quando uns e outros são enganados pelos que eles pretendiam enganar!"

Assim que terminei a leitura, olhei para o quadro de Pieter Bruegel, que estava na sala, e pensei: “é, velho, Ícaro se deu mal. Os deuses agora não param de rir.”


Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe.
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