fendas no guardasol

O artista abre uma fenda a fim de subverter a comodidade sensível para introduzir o caos.

Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe

“Cândido, ou O Otimismo” [Voltaire]: A questão do estupro onipresente

O estupro não é senão um abismo de misérias. É o não-jogo da sedução. É a morte do desejo. É o destempero.


Daan Noppen.jpgImage by Daan Noppen

O “Cândido, ou O Otimismo” é uma construção literária marcada fortemente pelo tom sarcástico, desenvolvido numa velocidade de leitura bastante rápida, onde as coisas vão acontecendo de maneira constante, sem pausas ou interrupções. O enredo vai traçando acontecimentos históricos, como o terremoto de Lisboa em 1755; guerras, estupros e tragédias também estão presentes na obra.

Voltaire desenvolve suas críticas contra a religião, governos, exércitos, as filosofias e os filósofos, através da imagem do principal personagem, Cândido, como sendo seguidor do filósofo Pangloss, indivíduo que tem como finalidade a representação de ideias otimistas (leibnizianas) acerca de um mundo como sendo “o melhor dos mundos possíveis”.

Cândido morava no castelo do senhor barão de Thunder-ten-tronckh, um dos senhores mais expressivos da Westfália. O jovem e seu “juízo bastante reto, com a mente mais simples”[1] foi instruído pelo mestre Pangloss, aquele que sempre dizia “no melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor barão era o mais belo dos castelos e a senhora, a melhor das baronesas possíveis.”[2] Cândido fora pego fazendo cortejos a filha do barão, a senhorita Cunegunda, e logo após expulso do paraíso ao qual vivia.

Mas, é a partir daí, que o jovem começa a lidar com situações de catástrofes naturais, guerras, estupros, mortes - e várias outras conjunturas que só são mais interessantes ao se ler o conto por completo.

Como foi dito, o enredo é por demais veloz. Ao ser expulso do “melhor mundo”, Cândido passa a habitar um mundo novo, totalmente do lado avesso, e, uma vez que eu conheço o meu mundinho, o meu canto e ele está ótimo, logo todo o resto do mundo também está, tal característica otimista (ensinada por Pangloss) vai sendo perdida na medida em que Cândido traça uma nova jornada mundo afora.

Nas turbulências de suas viagens, Cândido conhece Martinho, um dos homens mais infelizes que se poderia encontrar e que pudesse desentediar qualquer um durante uma viagem de barco. Aqui, o jovem de juízo reto e simples, dialoga filosoficamente com o seu mais novo conhecido. Eles passam a filosofar sobre suas vidas, sobre o mal moral e o mal físico durante toda a viagem (questões estas que eram comumente suscitadas na época de Voltaire).

Mas, o que queria Cândido ao rodar o mundo? Sua empreitada tinha um sentido emocional: reencontrar a bela Cunegunda. Todo o desenrolar da história perpassa numa busca quase utópica para encontrar Cunegunda, de modo que tudo é marcado por decepções, e, “entretanto, Cândido tinha uma grande vantagem sobre Martinho; é que ele continuava esperando ver a srta. Cunegunda, e Martinho não tinha nada a esperar.”[3]

A VIOLAÇÃO DO CORPO E A SACANAGEM COM A ALMA

Certamente, deve haver outros assuntos mais interessantes e legais de se tratar no conto de Voltaire, tais como religião, ética, otimismo vs pessimismo etc. Mas, existe um tema que é nitidamente visível no conto (o qual me chamou mais atenção): o estupro onipresente. Por que decidir tratar essa temática, havendo tantas outras discussões consideradas filosóficas? A questão aqui não é tratar duma questão que tem predominância filosófica (por exemplo, a questão do ser ou não-ser ou algum outro problema metafísico), mas sim o uso da filosofia como ferramenta, um instrumento que pode (não quer dizer que vai) trabalhar a problemática que pretendesse discutir.

De antemão, duas coisas devem ser deixadas claras aqui: primeiro, considerar o estupro como sendo um crime, obviamente, mas, mais ainda, uma violação do corpo e uma tremenda patifaria com a alma; em segundo, o estupro como sendo o não-jogo da sedução; a violência.

É bastante visível a presença do estupro na obra de Voltaire. A senhorita Cunegunda, a velha e a camareira do castelo westfaliano, Paquette, foram, em dado momento do enredo, violentadas de maneira cruel e atroz. A primeira foi “[…] violada tanto quanto se pode sê-lo”.[4] A outra, pretendendo ser mais infeliz que a anterior, diz: “Imaginai que situação para a filha de um papa, com quinze anos de idade, que no espaço de três meses experimentou a pobreza, a escravatura, tinha sido violada quase todos os dias […].”[5] A terceira, de maneira muito mais infeliz, diz: “Fui […] obrigada a continuar esse ofício abominável que parece tão prazeroso a vós homens, e que não é para nós senão um abismo de misérias.”[6] E conclui:

[...] se pudésseis imaginar o que é ser obrigada a acariciar indiferentemente um velho comerciante, um advogado, um monge, um gondoleiro, um padre; ser exposta a todos os insultos, a todas as avarias; ser com frequência reduzida a colocar uma saia para ir fazê-la levantar por um homem nojento; ser roubada por um daquilo que ganhou com o outro; ser extorquida por oficiais de justiça e ter como perspectiva apenas uma velhice medonha, um hospital e um monturo.[7]

Quando paramos para observar e entender o estupro como uma violação do corpo, damo-nos conta de que o desfloramento não invade apenas a questão do corpo, mas também uma espécie de apropriação do desejo sexual do outro. Ao ser invadido, o indivíduo é tomado e obrigado a sentir um desejo de repulsa em todas as vezes que sofre tal abuso. De qualquer forma, é um infortúnio que beira o inefável. A sacanagem com a alma, como mencionado no título, não está voltada às características cristãs do que vem a ser alma, mas volto aqui ao stricto sensu da própria etimologia no sentido latim da palavra, que quer dizer: o que anima ou aquilo que anima. Para tanto, pergunto ao meu leitor: pode alguém sentir-se animado quando invadem o seu mais belo recinto, ou seja, o seu corpo?

Enquanto pensaste a resposta para a pergunta acima, faço-lhe outra sem cerimônia: não é o estupro senão o não-jogo da sedução? Que quero dizer com isso, é que: quando entramos numa relação que se pretende sexual ou não, estabelecemos regras para o bom convívio, para a boa manutenção que rege toda a estrutura do relacionamento. Regras estas que regem a construção do espaço que cada indivíduo determina mediante seus desejos, princípios etc., a fim de criar algo estável. O não-jogo da sedução é, aqui, a morte da sedução que une o ato sexual. É, em todas as vezes que se viola e invade o corpo e a alma de outrem, que se mata por asfixia o jogo sedutor.

Não pretendo tratar o sexo como sendo um jogo, a ideia do texto é, certamente, mostrar que no estupro nunca temos algo consentido, nunca temos o jogo sedutor (mesmo que, como disse Paquette, seja algo prazeroso aos homens, não passa de um abismo e miséria para as mulheres); o que temos, na realidade, é um autoritarismo que impõe suas próprias regras ao jogo, onde, na verdade, não passe de uma tentativa prepotente em sufocar o outro.

O estupro é algo tão miserável e indigno, que presos acusados, ao serem levados à cadeia, são colocados em selas afastadas dos outros presos para não acabarem mortos. Por que isso? Porque, até o mais delinquente dos delinquentes sabe que tal ato é demasiadamente desumano e intolerável. Ou seja, parece haver uma espécie de regra consensual dentro das próprias prisões acerca da imagem de um estuprador que sugere a morte ou uma mesma situação para ele.

Para concluir, chego no fim deste texto apenas relatando o que mais me chamou atenção na obra de Voltaire, a fim de esclarecer que: o sexo, tal como em qualquer jogo, nunca pode deixar de ter regras (consenso estabelecido entre os companheiros), pois são elas que dão significados ao jogo, e a sedução é um dos elos que unem dois jogadores de xadrez, tal como dois companheiros de alta luz. Já o estupro, este é o não-jogo; a violência; a desmedida e o destempero. É a morte do desejo, é o ato que sufoca a alma.

* Este texto foi publicado primeiramente no blog Entrelinhas & Alegorias.

_____ Referência

[1] VOLTAIRE. Cândido, ou O Otimismo. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 20. Edição digital utilizada: Le Livros.

[2] Idem.

[3] Ibidem, p. 54.

[4] Ibidem, p. 24.

[5] Ibidem, p. 36.

[6] Ibidem, p. 64.

[7] Ibidem, p. 64-65.


Iago Santos

São 24 anos terrestres, mas com o dobro de idade mental. Graduado em Filosofia pela UFS. Gamer. Desenha idiossincrasias e cola na parede do quarto; é amante da arte e casado com a música. Diz que não bebe café, mas prefere o da mãe.
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