filo chordata

Dos fios e sem fios tecnológicos às linhas e traços artísticos

Clarissa Butelli

Evan Roth: desconstruindo códigos para construir arte

Com recursos de baixo custo, estética lo-fi, humor implicitamente politizado, e participação social quando possível, Evan Roth faz o que pode para alfinetar ou 'burlar' o sistema.

Código html para testar o Pagerank do Google, câmeras escondidas para registrar os funcionários da TSA. Roth faz crítica à política, controle e privacidade com as mesmas ferramentas de seus "algozes". E acaba de ser premiado por um dos mais tradicionais nomes em design contemporâneo.


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Na Quinta Avenida novaiorquina, a Parsons The New School, onde o michigânder Evan Roth escolheu fazer seu mestrado em Comunicação, Tecnologia e Design, não fica muito longe da Times Square, na Broadway. Banners, outdoors e telas em LED de gigantescas proporções e sempre acesos são um termômetro do mercado: anúncios de perfumes, department stores e blockbusters recém-lançados representam o estilo de vida norteamericano pronto para consumo.

Totem do american lifestyle, a Times Square teve, até poucas décadas, seus bastidores também a poucas quadras, na Madison Avenue que centralizou as maiores e mais tradicionais agências de publicidade, incluindo a simbólica Stanley Cooper do seriado Mad Men.

Se não faziam parte do itinerário cotidiano de Roth, as avenidas são núcleo do mapa mental de quem, como Roth, frequenta o Midtown de Manhattan. Influenciado pela mentalidade larger than life da comunicação de massa, o artista escolheu como seu o campo adversário: a crítica cultural.

Com recursos de baixo custo, estética lo-fi, humor implicitamente politizado, e participação social sempre que possível, Roth faz o que pode para alfinetar ou 'burlar' o sistema.

Seu business card é um bom exemplo. A marca Google ocupa a metade da peça, o que significaria, por convenção, que o profissional seria funcionário da gigante. Mas aqui, a marca serve de contexto para o campo de pesquisa com o termo "bad ass mutherfucker" já digitado. O cursor no botão "I'm Feeling Lucky" mostra que o que estamos procurando é a primeira página da lista, eleita pela ferramenta de pesquisa a mais relevante entre todas que contém os termos.

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O resultado, claro, é uma página do próprio Roth. Seu portfólio hoje em dia. Ou seja: segundo a maior autoridade em relevância na web, o Google, Evan Roth é o sinônimo mais representativo de bad ass mutherfucker. O motivo para artista ser mais 'relevante' como resultado do que, por exemplo, um Chuck Norris, é puramente artificial: Roth burlou o sistema. Só que, para isso, teve que seguir à risca suas regras.

Toda série de parâmetros e algoritmos do sistema PageRank que a dupla de Stanford registrou e cujos critérios continua atualizando para assegurar a confiabilidade das pesquisas e filtrar spammers não foram barreira para Roth, que usou metadados (informações embutidas no código da página), conteúdo relevante, bem atualizado e diferentes URLs para alcançar a posição. Resultado que spammers tentam conquistar, sem sucesso, diariamente.

Roth seguiu todas as boas práticas da ferramenta de pesquisa para, de certa forma eliminar o sentido literal de "bad ass mutherfucker" e transformá-lo em um mero título. Tudo perfeitamente de acordo com o sistema. O cartão é que completa e dá a outra dimensão ao feito. Ao aplicar a expressão no cartão de visitas, faz dela sinônimo do seu nome e resgata o sentido literal da expressão, dizendo: é isso mesmo, bad ass mutherfucker aqui sou eu. É também uma forma sutil, apesar do linguajar, de comemorar a conquista.

O investimento financeiro de Roth em tecnologia é praticamente nulo. Puro código. Um computador e teclado dão conta com facilidade. "Bad Ass Mutherfucker" é de 2005, mas toca em questões que continuam atuais, com a regulamentação da internet em pauta e a web social cedendo lugar à versão mobile e cada vez mais fechada em aplicativos.

Roth fala de controle com uma rebeldia adolescente que também aparece em "Intellectual Property Donor", de 2008, um cartão plástico que aplica a lógica dos doadores de órgãos à propriedade intelectual: em caso de falecimento, sua propriedade intelectual deve ser transferida para domínio público.

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Outro alvo frequente do artista, hoje radicado em Paris é a Transportation Security Administration, famigerada autoridade de segurança em transportes responsável pelos procedimentos nos aeroportos. Nos anos de 2008 e 9, filmou a passagens de sua bagagem de mão pelo screening em "See You See Me" e cobriu seus pertences com uma chapa metálica contendo alfinetadas na TSA.

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Roth já promoveu o tagueamento coletivo da luva branca de Michael Jackson em 2007 e a liberdade de expressão com uma van e alto-falantes que circulavam Viena, dando voz a quem ligasse para o número adesivado nela.

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Sua obra mais recente pode parecer menos politizada mas não é menos relevante. Roth fala do meio digital em uma representação que é quase trocadilho: os rastros dos dígitos na interação mobile.

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Aplicativos padrão do iPhone como calculadora e e-mail até um dos jogos mais populares nesse formato, o Angry Birds, têm a interação documentada com folhas de acetato ou papel vegetal e impressões digitais.

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Ou seja: as mesmas digitais que servem de comprovante de identidade, assinatura e provas de crime também dizem muito sobre interação e privacidade na web.

Interações que parecem efêmeras muitas vezes deixam marcas fora de controle para quem as produziu. É o caso já comum de adolescentes e o sexting, ou seja, mensagens não de texto, mas com fotos nuas ou seminuas feitas para um alvo específico, e que às vezes acabam nas mãos de outros. Vide Scarlett Johansson, Carolina Dieckmann e muitos outros alvos menos conhecidos.

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Vencedor na categoria Design de Interação do prestigioso prêmio nacional de design de 2012 pelo Cooper-Hewitt com a materialização do já clássico baralho de paciência do Windows, Roth foi também criador do singelo cartão de boas festas da instituição. Prova de que o sistema está cada vez mais rápido ao absorver seus anticorpos.


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