fio da meada

Uns perdem. Outros acham.

Silmara Franco

Num mundo tão wireless, é fácil perder o fio da meada. Ou não

Os amigos do papa


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Hoje vi uma fotografia do Bento XVI. Não tenho intimidade com o papa. Mas olhei seus cabelos brancos tão penteados e notei seu olhar, estranhamente não-angelical. Matutei, enquanto apanhava uma maçã na fruteira da cozinha. Maçã gorda, suculenta.

Como é a vida do papa, além da eterna rezação? Será que ele gostaria de sair do Vaticano sozinho, ir a uma padaria e tomar um café, sem ter que abençoar meio mundo pelo caminho? O papa torce para algum time? E se o time dele vai para a final, no grande dia ele põe a camiseta por baixo da túnica, troca a mitra pelo boné e grita gol? Será que o papa xinga quando bate o dedinho do pé na quina da parede? Porque isso acontece com todo mundo, não vá dizer que com pontífices é diferente.

Será que o papa morre de vontade de sentar em frente ao mar, só de calção? Papas parecem ser feitos apenas de cabeça e mãos – as mãos que acenam para todos e para ninguém –, com longas e amplas vestes a encobrir o nada que as une. Como serão seus pés?

O que tenta o papa no pecado da gula? Um bom espaguete, eu arriscaria. Daqueles com bastante molho, com direito a passar o pãozinho no que sobrou depois. Iguais aos que minha mãe fazia. Papas lambem os dedos?

Saberá o papa todos os segredos que a igreja católica guarda a sete chaves? Os mistérios de Fátima, as verdades sobre outros planetas, as revelações sobre o final dos tempos. Se sabe, será que se assombra?

E amigos, o papa tem? Desses que a gente telefona quando a tristeza vem. Dos de conversar por horas e, em pouco tempo, já se sentir melhor. Quem é que dá colo ao papa, se ele precisar? E ele deve, vez por outra, como qualquer um. Para quem o papa liga quando quer prosear? Quem ele chama para um chá, não por protocolo, mas por saudade?

Para quem o papa dá seu primeiro bom dia, todo dia? Para o amigo mudo na cruz, que não pode lhe dar um abraço?

Será que o papa já teve um grande amor? Terá sonhado com casa avarandada, filhos, cachorro, férias de verão nas montanhas?

Será que o papa deseja, de vez em quando, ser apenas um anônimo na multidão, para ir ao cinema sossegado?

Quais músicas será que o papa gosta, além da Ave-Maria? Será que ouve, secretamente, Rolling Stones? Terá ouvido Tom Jobim? Que, cá entre nós, tem o efeito de uma oração.

Última mordida na maçã. Seu bagaço, amarelado, é a prova da missão cumprida do fruto. Sou apanhada pela dúvida entre pensar se a figura mítica do nosso imaginário é aquela que enxergo na fotografia, ou se é tão-somente um personagem construído, assim como o Homem-Aranha, a Branca de Neve. E estes, noves fora as fábulas que os envolvem, ao que tudo indica, tiveram seus amigos.

Arte: David Yerga, acrílico s/tela


Silmara Franco

Num mundo tão wireless, é fácil perder o fio da meada. Ou não.
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