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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Cinema de autores

“Andávamos sem procurar-nos, mas sabendo que andávamos para encontrar-nos”. A frase de Julio Cortázar pode ilustrar a trajetória do cineasta espanhol José Alayón. Não lhe importa a ideia formada, mas sim algo que se intui e ele tenta abster-se de rótulos como “cinema de autor”. Slimane, seu primeiro longa-metragem de ficção, foi recentemente premiado em festivais espanhóis. Fotos de Beatriz Pedrosa.


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O diretor espanhol José Alayón aposta em um cinema desvestido de rótulos como temáticas e divisões de gêneros, que contribua para o crescimento do ser humano por trás da câmara, de todos os envolvidos na sua realização e que consiga, ainda, conectar-se a um público também inclassificável. Além de reivindicar a produção de todos para todos, ele argumenta que a energia criadora vale mais do que ideias encerradas em um projeto pré-determinado. Seus filmes tomam forma durante as gravações.

Slimane, seu primeiro longa-metragem de ficção, nasceu do encontro do diretor com o protagonista que participava da seleção de atores para outro roteiro que nunca se realizou. O filme foi premiado nos Festivais Internacionais de Cine de Murcia (melhor obra-prima) e de Las Palmas, Ilhas Canárias (melhor longa-metragem).

O jovem marroquino Slimane entrou por primeira vez numa sala de cinema para ver o filme que protagoniza e foi mais que uma grata revelação como ator para Alayón. “Quando o conheci e coloquei a câmera na sua frente por primeira vez, pensei: aqui há um filme, que ainda não sabia qual era”, comenta.

Mestre em contar histórias que fogem das estruturas narrativas tradicionais, com pouco orçamento, o cineasta apresenta neste seu último trabalho a realidade de dois jovens marroquinos que acabam de sair das casas de acolhida para imigrantes, ao cumprir 18 anos. Considerado um criador do chamado “cinema de autor”, ele não se sente cômodo dentro de qualquer denominação. Slimane esteve presente tanto em festivais e mostras de documentários como de ficção. “Eu prefiro falar de um cine cine, não consigo enxergar esta divisão”, explica.

A intuição guia seu trabalho, possibilitando a liberdade de construir ou desconstruir um filme durante sua realização. Ele acredita que o cinema deve retratar o ser humano, dispensar aplausos e não depender da chamada indústria cinematográfica.

José Alayón também trabalhou como produtor dos documentários Hotel Nueva Isla (2014), Las Carpetas (2011) e dirigiu La Vida Según Era (2008). Como roteirista e diretor de curtas-metragens, realizou El Insomnio (2010) e Um dia en el Paraíso (2011).

Esta entrevista foi concedida durante o último Festival Internacional de Cine Gastronômico, Cine es Cena, da ilha canária de Tenerife, realizado em novembro de 2014. O cineasta participou do evento dirigindo a Oficina de Produção de Obras Primas.

Com que valor financeiro você contou para a realização de Slimane e qual o mínimo que se necessita para fazer um filme?

Zero. Você pode não necessitar de dinheiro algum para fazer um filme. Meu último trabalho foi realizado com um pouco menos de 200 mil euros. Cerca de 180 mil. Mas é possível rodar você sozinho, inclusive. No entanto, é sempre bom ter um pouco de dinheiro para a parte de divulgação, que leve seu trabalho a festivais, que faça a promoção na mídia. No meu próximo projeto tentarei reservar parte do orçamento para estes gastos.

Você sempre começa a filmar sem ter todo o orçamento?

Tendo apenas uma pequena parte. Sempre nos adiantamos por uma necessidade. No caso de Slimane nos apressamos porque queríamos jovens de até 18 anos.

Qual a vantagem de gravar com pouco orçamento?

Perdemos espaço criativo se temos muitos produtores ou investidores. Fazer filmes com pouco dinheiro te permite trabalhar de maneira mais livre, ainda que tire um pouco da sua própria liberdade financeira.

Com que tipo de financiamento você conta nos seus filmes?

Tentamos atirar a vara para todos os lados, contando com ajuda pública, de algumas empresas privadas e sempre buscamos aliados nas co-produções. Slimane, por exemplo, é uma co-produção com Marrocos e Hotel Nova Isla foi uma parceria com Cuba. Nunca sou o dono de 100% dos meus filmes.

Sendo Slimane seu primeiro filme que mescla realidade e ficção, pode-se dizer que você prefere trabalhar como documentarista?

Eu acho que esta diferenciação é um erro de catalogação e agrupamento. Este filme é muito especial porque esteve tanto em festivais de ficção como de documentário. Esta linha não é muito clara. Não vejo essa divisão. No começo da história do cine, por exemplo, Lumiere filmou pessoas saindo de uma fábrica. Seria totalmente documental se não fosse o fato de que ele indicava o momento em que deveriam caminhar. Acredito que é muito cômodo trabalhar com as duas possibilidades. A história inventada tem coisas muito boas, te permite manipular, por exemplo, e o real também oferece características fantásticas.

Como surgiu a idéia de Slimane?

Foi durante o casting para outro filme que já não me convencia muito. Chamava-se Cama Caliente, a história sobre as pessoas que dormem em camas que se alugam por oito horas na Espanha. Slimane veio participar da seleção e quando comecei a filmar-lo percebi que havia outra história. Não sabia qual era, mas sabia que ali tinha um filme.

Mas existe um interesse maior por detrás desse processo intuitivo na realização de seus filmes?

É o interesse pelo ser humano que me move.

O que o cinema te acrescentou como ser humano?

A forma de refletir sobre tudo. O cinema me faz dar voltas sobre uma questão e descobrir que dentro dela existem coisas muito mais profundas.

E que este seu último longa mudou concretamente na vida dos atores participantes?

Ao sair dos centros de acolhida, onde vivem dos 14 aos 18 anos, esses jovens que participaram do filme receberam um documento que permite viver na Espanha, no qual se indica que não estão aptos para trabalhar. Essa informação pode ser mudada se conseguem uma oferta de trabalho de um ano. Sabemos o quanto é difícil hoje em dia conseguir um contrato desses aqui. Legalizamos 80% dos jovens que trabalharam em Slimane. Após a participação nesta produção, puderam se reintegrar na sociedade. A melhora na vida destes meninos foi talvez o resultado mais positivo do meu último longa-metragem.

Qual sua opinião sobre o festival de cine gastronômico? Você gostaria de realizar um filme com esta temática?

Muitos filmes poderiam se encaixar nesta temática, já que a gastronomia é presente na maioria deles. Mas meu cinema nunca sai de algo premeditado. Nem poderia rodar especialmente para participar de um festival, por exemplo. Meu trabalho nasce de um impulso de menino. Não me vejo como um cineasta de temas, quase mais como antropológico. É claro que a temática sempre está presente, mas prefiro a ideia de um cineasta retratista. Gosto de observar o ser humano e tentar encontrar resposta à existência de alguma forma.

Se houvesse mais investimento em produções com maior liberdade, fora dos padrões de industriais que temos hoje, o cinema teria mais força como motor de mudança social?

Não só o cinema, a cultura em geral deveria ter a função de salvação social. Cada vez que faço um filme tento oferecer um novo olhar sobre algo. O simples fato de observar alguém que está fora dos padrões e estereótipos é fantástico. O maior problema muitas vezes é a palavra indústria. O cinema de autor não pode ser medido através de números porque sairíamos perdendo muito. A cultura tem um valor escondido muito maior que o numérico. Acredito muito mais no qualitativo, que pode afetar o quantitativo.

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Ao falar de liberdade cinematográfica, nossa referencia no Brasil é o Cinema Novo, conhecido pela obra de Glauber Rocha. Qual sua opinião sobre este cineasta?

Este é o cineasta mais livre da América Latina! A primeira vez que vi seu trabalho não entendi muito bem. Pensei: esse homem o que é? Apaixonei-me por ele vendo seus filmes na Filmoteca de Lisboa.

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Cinema Independente, de autor, cinema marginal. Como você vê todas essas classificações?

Eu gosto da palavra cine, simplesmente. Acho excludente inclusive dizer independente. Independente de que? E quando falamos de cinema marginal, parece que estamos falando de um ponto de vista da classe media sobre uma população considerada marginal. O cinema social tem muitas vezes esse olhar condescendente, de "pobres meninos pobres", "pobres pobres", o que vejo com pouca dignidade. Acho complicado adentrar em um território do qual não participamos.

Qual sua opinião sobre o cinema produzido em Canárias?

Não sei se existe um cinema canário realmente. O que existe são algumas pessoas tentando buscar uma identidade. Se chegarmos algum dia a dizer cinema canário, eu acredito que há de ser algo que aporte uma identidade cultural, feito por nós para nós.

Você gostaria de filmar no Brasil?

Adoraria. Mas sou um cineasta que necessita estar muito tempo em um lugar para filmar-lo. Como contar algo que não se entende? Teria que passar um tempo no país para que ali surgissem idéias.

Você vê o cinema de maneira poética também?

Quando uma imagem dialoga com outra e forma uma frase, é a poesia por excelência.


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