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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Por uma nova safra cinematográfica

Festival Internacional realizado na Espanha aposta em cineastas do futuro dentro das escolas. Sergio Negrín, diretor do evento, conta nesta entrevista como o cinema pode ser muito mais que entretenimento.

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Novembro é o mês do vinho em San Cristóban de La Laguna, Patrimônio da Humanidade e centro cultural e gastronômico por excelência das Ilhas Canárias. Quando todas as bodegas da ilha de Tenerife apresentam sua nova safra, a cidade também é palco do Festival de Cine Gastronômico Cine Es Cena, o maior realizado sob esta temática na Espanha, prova de que os canários têm terra fértil não só para boas uvas. Muitas de suas atividades estão focadas na formação de público y novos cineastas. O diretor do festival, Sergio Negrín, é adepto do ditado “é de pequeno que se torce o pepino”. Ele acredita que aos oito anos de idade já podemos começar a formar uma opinião cinematográfica crítica e social. “Vejo o cinema como uma ferramenta que leve ao respeito e à solidariedade, até mesmo entre crianças muito pequenas”, comentou. 

“Educar los Sentidos” é um dos programas do festival dedicado aos estudantes, uma mostra de filmes de diferentes países e temáticas, que contou este ano com 1600 participantes. Depois das sessões, os adolescentes participam de fóruns, com o objetivo de refletir sobre o que assistiram. Outra atividade voltada aos jovens é o concurso de curtas-metragens “Despertare”, que recebeu em esta última edição 50 trabalhos de alunos da escola secundária. 

Além de incentivar talentos, o Cine es Cena abre portas para a criação de novas produções profissionais. Através do Fórum de co-produção, cineastas mais, ou menos experientes, apresentam projetos a produtores, empresas públicas e a investidores privados. 

Ademais de comentar as atividades do evento, Sergio explica ainda como realizar um festival internacional abrangente com pouco orçamento. Durante nove dias, foram projetados 201 filmes, entre curtas e longas-metragens. Spots publicitários também concorreram à premiação. 

The Lunchbox (India, 2014) do realizador Ritesh Batra, recebeu os prêmios Aguere ao melhor filme e de Público. Closet (Espanha, 2013) ganhou como melhor curta-metragem de ficção. Nesta categoria, o brasileiro Carne (2013) levou menção especial. GMO OMG (Organismo Modificado Geneticamente), (E.E.UU, 2013) e o curta-metragem Le Dimanche em Famille (Suiza, 2013) foram os documentários premiados. 

A boa comida também foi protagonista do evento em jantares comentados e encontros que contaram com uma farta oferta de pratos locais e internacionais, cursos e palestras.

Comente um pouco sobre a evolução do festival nesta quarta edição.

O Cine es Cena nasceu em plena crise e fomos adaptando-nos. Ao contrário de outros grandes festivais, como o de Las Palmas, que já tem 16 anos e estreou em uma boa época, com altos investimentos e logo teve que diminuir seus gastos, os nossos foram basicamente sempre os mesmos. Mesmo assim crescemos e inserimos novas atrações a cada ano. Tentamos cumprir todas as expectativas do público. Como se faz isso? Com muita imaginação e esticando cada euro. Também trabalhamos com intercambio. Tivemos a colaboração de algumas empresas que nos cederam veículo ou jantares para os participantes, por exemplo. Alguns organizadores acreditam que 200 mil euros não é um orçamento viável para um festival. Penso que é possível realizar um evento maravilhoso com este valor. O complicado é fazer com muito menos dinheiro.

Estamos falando de quanto?

Prefiro não dizer. Porque, como disse, contamos com muitas colaborações voluntárias e fica difícil falar de números.

A pesar de ser um festival de cinema gastronômico, o evento conta com uma programação bastante abrangente que vai além de seu tema. Como você vê esta amplitude?

Acredito que um festival de cinema tem que ter diferentes aspectos. Deve oferecer ao espectador outro olhar, com uma oferta de filmes mais alternativos e independentes. Projetamos produções de qualidade que estão fora do circuito comercial. A partir do núcleo que é o tema gastronomia, começamos a por galhos à árvore. No ano passado incrementamos a programação com o concurso "Despertare", para premiar curtas-metragens realizados por alunos do ensino médio. Esse ano o tema foi Direitos Humanos.

Como funciona este programa?

Começamos a preparar os alunos dois meses antes do início do festival, com palestras sobre cinema e Direitos Humanos, através da Anistia Internacional. A idéia é que os curtas a serem produzidos reflitam temas que afetem suas vidas diretamente.

E de que forma eles trabalharam o tema direitos humanos? 

O bullying foi o assunto recorrente. O que mais me interessava era avaliar a história e a maneira de contar-la. Não estamos aqui para fazer um grande filme, e sim para utilizar o cinema como um meio de formação. Quero que estes jovens comecem a valorizar outros aspectos por trás do cinema comercial, que esta experiência implique em maior respeito e solidariedade entre eles.

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Quais suas conclusões sobre a realização desta atividade nesta última edição?

Este ano participaram 1600 alunos e foram apresentados 50 curtas-metragens com um nível altíssimo. Deste total selecionamos 16 finalistas. Para mim, o cinema é uma ferramenta pedagógica, que pode solucionar inclusive problemas dentro da sala de aula. Isso é possível até com alunos menores, de 8 a 10 anos. Certa vez trabalhei com crianças da primária, de oito anos, que tinham um problema de convivência dentro da escola, especificamente envolvendo um aluno que era negro e sofria certo tipo de preconceito. A partir do trabalho conjunto em classe com cine, todos começaram a se respeitar mais.

E como conseguiram este resultado?

Implicando estas crianças na construção do filme, no cuidado do material. Todos começaram a participar de um projeto comum. É quando o cine se desborda e faz com que todos se sintam participes. Vivemos no século do áudio-visual, em que as crianças manejam a tecnologia quase de maneira intuitiva. Esses jovens já têm uma parte assimilada e podemos complementar com a formação, ensinar a usar equipamentos e a linguagem do cine.

O festival também favorece a produção de um cinema profissional? Como funciona o Fórum de co-produção neste sentido?

Este é o terceiro ano desta atividade e fomos evoluindo nesta parte também. Um fórum é a vida como ela é. Produtores e investidores em busca de projetos. Instituições públicas também participam. Basicamente, são cineastas tentando vender suas idéias. Este ano participaram cinco profissionais que já têm certa trajetória com curtas-metragens e produção e outros que ainda estão começando. O Fórum atua com esta dupla função, de apresentar o talento de quem já tem alguma experiência e de dar oportunidade para os mais iniciantes.

E quais os resultados concretos dos fóruns de anos anteriores?

Foram realizados três filmes em dois anos e há um quarto sendo rodado. Entre 2015 e 2016, serão gravados outros dois.

E quanto ao interesse geral pelo fórum, também aumentou?

Muito. Na primeira edição era difícil reunir cinco produtores. Este ano tivemos que selecionar, devido à restrição de pressuposto não podemos ter mais de seis. Também participaram cinco instituições públicas e outros cinco investidores privados, por primeira vez este ano, alguns que manejam capital internacional. Foram apresentados 12 projetos. Após o fórum, realizamos uma mesa redonda para poder avaliar e melhorar no próximo ano.

Qual a importância do Cine Es Cena dentro do circuito de festivais de cinema que existe hoje na Espanha? 

Acredito que há poucos festivais sob esta temática no país. Como este, com tal volume de programações paralelas, diria que não há nenhum. Minha idéia é que este evento tenha cada vez mais peso. Já estou preparando surpresas para o próximo ano.


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