flow

Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Romances para celular

Poderíamos chamar de amor pós-moderno, este que, através de encontros virtuais, resgata de alguma forma as antigas maneiras de se relacionar por meio de palavras escritas. Voltamos a expressar sentimentos sem o contacto físico. A tecnologia é mais uma prova de que qualquer forma de amar vale à pena. Já dizia a literatura e nossas avós.


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Muito se tem falado do amor versus tecnologia. Dos encontros virtuais que não se solidificam. Dos contatos que alimentamos no celular, com fotos bonitas, desenhinhos e mensagens que impedem o sorriso tímido cara a cara. As críticas são muitas e poucos são os reconhecimentos da beleza que se esconde dentro desses aplicativos e programas como Tinder, Wathsapp e Facebook, onde se expressam sentimentos bem verbalizados.

Ao mesmo tempo em que vivemos uma distância pessoal moderna, resgatamos a inocência dos amores pueris regados a cartas e pensamentos solitários, como antigamente.

Palavras floreadas e intensas voltam a preencher mensagens e fotos que recebemos, aumentando o desejo de tocar aquele corpo que está a quilômetros de distância. Todo o intocável que pressupõem estas novas relações me remetem à histórias de amor contadas por minha mãe e à literatura, onde as palavras escritas são mais presentes que as faladas. O que seria da poesia de Dirceu sem sua musa Marília: “Os teus olhos espelham a luz divina, a quem a luz do sol em vão se atreve” (do livro Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga).

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Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, não teria sido escrito sem as longas cartas de Florentino Ariza à jovem Fermina Daza. Seus escritos emocionados que demoraram em ter resposta e esse amor alimentado de palavras durante muito tempo tem por acaso menos importância que os corpos que ardem em um encontro? O que seria dos amores platônicos se apenas houvesse os “reais”? Quais são as formas autênticas de amar? Clarice Lispector conta como uma relação pode crescer nos desencontros, em Um Aprendizado ou Livro dos Prazeres.

Lori escrevia a Ulisses, quando necessitava expressar-se a ele sem vê-lo. Viveu uma expectativa, deixando-se crescer, enquanto sua pele não tocava a dele. Ela só queria filosofia e não ia aos encontros marcados. Ele, que simplesmente a desejava, paciente esperou que ela estivesse preparada.

Estamos acostumados à matéria. Ao desejo de pegar, possuir. Às vezes, às palavras só o impalpável consente. Será que os encontros pessoais podem ter a mesma proximidade das declarações escritas e vice e versa? Ou se complementam? São muitas questões que deixam de ter sentido quando o gozo ultrapassa a carne, o tempo e a distância.

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Na época de nossas mães ou avós, talvez receber uma carta era algo que ouriçava até o último pelo pubiano, que as enchia de culpa e voltava a aquietar um vulcão entre as pernas. Lembro-me de minha mãe contando como ela e minhas tias iam para a praça no domingo à tarde e ficava cada uma olhando seu paquera, parado debaixo de alguma árvore com outros garotos. Passavam e quase se olhavam. Se riam escondendo os olhos e se iam. Um olhar guardado que dizia mais que todas as línguas juntas na cama.

Amar é bom em qualquer forma de expressão. Os amores platônicos são talvez os mais intensos. É o dar por duas pessoas. E o sentimento, que só as palavras desenham, quando correspondido, carrega uma energia imaterial que não deveria ser desprezada em comparação ao contacto físico urgente.

Quando conhecemos alguém que não está perto dos olhos, talvez possamos trazê-lo muito mais cerca do coração do que se imagina. Longe do olhar do outro, da respiração ofuscante, da surpresa dos atos do momento, brilham sentimentos cheios de luz.

Pensamos, meditamos, elaboramos a forma de nossas emoções e somente nos expressamos quando realmente sabemos que dizem o que de verdade (o pensamos que) sentimos. Quando sensações à flor da pele se encontram com o agora, talvez metamos os pés pela cabeça, digamos o contrário do que se quer dizer.

A tecnologia nos permite meditar. Talvez estejamos mais próximos do espiritual graças ao whatsapp. Antes de enviar uma mensagem, ponderamos nossos sentimentos e depois, com medidas frases, tentamos tatear outra alma. E que expectativa boa a da resposta.

Claro está que esta liberdade verborrágica também é viés para estragar tudo da maneira mais solene, usando palavras cheias de ego. Quando estamos com o computador ou o celular, nosso eu fala mais alto, é mais fácil ferir também. Mas uma mensagem lida e relida pode transformar aquelas injúrias em frases de ponderação.

Paixões são assombros do coração que se expressam pelos meios que encontram. Quando esta febre nos arrebata, o desejo será mostrado tanto na cama, como em textos imensos, repletos de lindas obscenidades.

O meio importa pouco quando os sentimentos são verdadeiros, ainda que perenes. Será a paixão uma droga branca? Tira-nos a fome, nos deixa rindo à toa, contagiantes de alegria, ainda que seja fugaz. Ao dia seguinte, pode não haver mais uma dose, mas valeram a pena as horas já desfrutadas. Seja em jogos através da internet ou por mordidas no umbigo.


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