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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Rir dos restos é o que resta

O talento mental também envelhece? Até que ponto nossa condição física influencia a idade da nossa inteligência? Seremos seres esgotáveis na essência? Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, James Dean, Marilyn Monroe… Quantos não deram tudo de si em poucos anos e se foram como quem não tem mais nada a dizer?


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O Último Ato, dirigida por Barry Levinson, é um filme que minimante faz refletir, rir e permite admirar a grande versatilidade de um ator do calibre de Al Pacino.

Trás um primeiro giro em que o ator se acidenta (propositalmente?) em cena, vem à tona a crise criativa de Simon Axler (Al Pacino). Ele perde a memória, e vê sua rotina invadida por duas belas mulheres. A mais normal, por assim dizer, pede a Simon que assassine seu marido, que ela considera violador da filha. Sybil (Nina Arianda) não consegue separar o ator da sua realidade e o considera perfeito para o crime, inspirada em algum personagem interpretado por ele. Os limites entre realidade e ficção vão além dos insólitos diálogos entre eles durante o filme. Mas é uma lésbica de 20 e poucos anos, Pegeen (Greta Gerwig), quem mexe de verdade com as emoções de Simon. Seria cômico, não fosse trágico, que, além de ver seu talento minguado, ele começa a arruinar-se financeiramente para manter os caprichos da egocêntrica garota.

Dizem que os outros são nossos verdadeiros espelhos, que é nas relações que sobressaem nossos piores defeitos e impotências. Nessa convivência com a juventude cruel, grita toda a vulnerabilidade de seus mais de 60 anos. Este caótico encontro arranca boas risadas do público na sublime interpretação de Al Pacino, “culpado” por alguns críticos de sustentar o filme sozinho.

O roteiro (Buck Henry e Michal Zebede) ataca com humor a impotência de um corpo já cansado e o bloqueio criativo, ingredientes que compõem a crise do personagem de Al Pacino. Quem saberá quando chega esse desaprender. Este momento onde já não podemos seguir pelo mesmo caminho, realizando os sonhos, talvez porque perdemos a capacidade de sonhar. A fonte esgota. A solidão se apodera de nós. O que nos resta se não nós mesmos? Al Pacino faz com que o espectador ria do que parecem ser os restos de Simon. Deixa a dica de que é rindo de nós mesmos que encontramos o conforto por existir.

Simon busca outros caminhos de fuga para a própria inexistência. Quando conhece Pegeen, se sente salvo nessa nova ansiedade que só as paixões doentias costumam oferecer. É um verdadeiro brinde a: Que não dure para sempre. Não interessa muito saber o tempo das coisas quando o nosso parece se acabar.

É no encontro com esta jovem, cujo objetivo maior é tudo por seu bel prazer, que Simon percebe que já está mais pra lá do que pra cá. Mas se deixa levar, por este delírio, torturante mais cheio de vida.

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Em alguns momentos do filme, parece que a maior crise que desencadeia a história é somente uma sombra sobre as pequenas tramas que costuram a narrativa e que de alguma forma podem dar outros sentidos à vida do personagem. Mas, ainda que discretamente, a morte do talento e a esperança que ressuscite, é o questionamento inicial que nunca sai de cena.

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Interpretar é a luz do protagonista que vence os limites entre realidade e ficção para demonstrar a permanência da sua obra sobre o tempo. Nem tudo é o que parece ser, nem mesmo a vida. Suas regras não limitam os desejos do homem de transcender a própria história. Talvez só a eternidade do que realmente conseguimos construir, deixando nossas pegadas neste mundo, vence a morte. Dentro do seu personagem, Al Paccino termina o filme, como o maestro de uma grande orquestra.


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