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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Salve Jorge!

Conta a lenda, que São Jorge, padroeiro da Catalunha, matou com sua lança um perigoso dragão para salvar o povoado. Do sangue do morto, nasceu uma rosa, que Jorge deu a sua namorada. História que Clarice nunca levou muito a sério, mesmo porque seria bastante irônico que até um santo tivesse alguém e ela continuasse sozinha há tantos anos, saltando de ilusão a desilusão.


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A certeza de mais uma vez ver o final de um relacionamento que não existiu, as coisas devolvidas no dia anterior, com beijos que deixaram na casa o cheiro daquele desejo não concretizado, ressonavam naquele amanhecer. Depois de poucas horas de sono, Clarice obrigou seus olhos abrirem-se para ver seu décimo Dia dos Namorados na Espanha, sozinha. Não poderia ser mais poético. O Dia de São Jorge, 23 de abril, é uma das principais tradições na Catalunha, quando se comemora a festa dos apaixonados e da literatura. Neste dia, o centro histórico de Barcelona fica repleto de escritores, imprensa e casais. Ele recebe um livro e ela uma rosa. Machismo a parte, cada um segue a tradição como deseja. A Rambla da Catalunha, algo como um grande calçadão, é o cenário onde escritores famosos, ou não, assinam seus livros a filas enormes de fãs.

Até Ken Follett compareceu este ano. Mas Clarice, que tanto foi e queria voltar a ser escritora, só viu da festa literária o problema de ter que vencer a multidão com sua bicicleta para chegar à loja onde vendia produtos eróticos. Já sabia que haveria muito trabalho naquele dia.

Os românticos atrasados chegavam afobados. “Vou ser sincero, ela não gosta muito dessas coisas, mas eu adoro”. Sem muitos rodeios, aquele rapaz confessou algumas intimidades para explicar o que queria. Clarice, ainda com os pensamentos colados no ontem, mostrou-lhe uma coleção chamada “A Porta de Trás”. “Esse é muito pequeno”, ele comentou. A vendedora tentou imaginar a namorada sonhadora: “Com certeza ela acredita que uma relação saudável se constrói a base de duas pessoas, sanas mentalmente, sem necessidade de mais ninguém ou qualquer objeto comprado. Por pressa, o moço aceitou rapidamente a seguinte sugestão de Clarice, que foi prudente na escolha do tamanho. Levou um acessório rosa, de uma coleção japonesa, designer super feminino e que também se encaixava nas fantasias dele.

Depois dos clientes que chegaram sozinhos a procura de alguma surpresa excitante para aquela noite, começaram a entrar laranjas inteiras na loja. Casais que, talvez por falta de tempo, decidiram ir juntos para escolher seus presentes. Chegavam de mãos dadas, se davam pequenos apertos e beijos rápidos.

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Tantos pares fizeram a vendedora lembrar-se por um momento das festas juninas no Brasil. Quando soube em um sorteio quem seria seu par na festinha da pré-escola, se apaixonou pela primeira vez. Com seu vestidinho caipira, as bochechas exageradas de blush, ela agarrou com firmeza a mão daquele garoto de dente pintado de negro. “Olha a cobra!” Faceira, saltava e ria cheia de planos na cabeça.

Desde aquela época, caminha pelo mundo abrindo suas mãos para qualquer outra, se entregando com toda sua realidade às ilusões mais, ou menos, elaboradas. A última, se não fosse tão bonita e intensa, até poderia ter sido algo real. Ele dizia que não a deixaria jamais, ainda que ela o obrigasse. Em menos de um mês juntos, Clarice implorou que ele não fosse embora, mas não teve jeito.

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Quando o moço foi buscar suas coisas, se abraçaram. Ele disse que poderia ficar para sempre naquele abraço. Sem saber se rir ou chorar, ela ficou muda de desentendimento. Porque agora se via tão cômodo ali? Por Clarice sentir-se agora forte e não poder acreditar nessas frases que o rapaz soltava inconsequentemente? Saberia ele que ela pensou em morrer de tanta dor?

Ser deixado é algo bastante egoísta. Aquele que abandona, nunca pergunta a opinião do outro. É a decisão de uma pessoa sobre o destino de dois corações. E o pior é que não há culpados. O sentimento simplesmente se vai, rindo de quem foi abandonado. Esse e outros pensamentos povoavam sua mente enquanto trabalhava.

Foi tanto amor que se respirou na loja durante todo o “Dia de San Jordi” que, durante as últimas horas de trabalho, a vendedora se sentia sem ar. Com tantos pares no mundo, parecia cada vez mais insensata sua solidão. Via aqueles casais como ídolos, pessoas que sabem estar juntas. Ela sempre mostrou muito amor, cobrou de mais, cobrou de menos, ao querer dar tanto, se anulava e o outro não a enxergava... Chegou a muitas conclusões e nenhuma solução.

O amor para Clarice possuía uma estranha balança, que sempre pesava para quem tinha mais sentimento. Era preciso saber de cálculos para amar e as aulas de matemática ela matava na biblioteca lendo poesias.

Quando outra vez sua mente buscava a resposta de como deveria atuar para incluir-se nesse desejado mundo do amor, entrou na loja um cliente de avançados 60 anos, bem vestido e com um ligeiro hálito de álcool. “Procuro algo que não sei se há aqui. Já fui a outros lugares e não encontrei”, disse.

“Minha mulher descasca um pepino e é feliz. Preciso de algo assim”, comentou. “Não, não vendemos pepinos”, a vendedora respondeu, entre constrangida e curiosa. Apesar do suspeito cheiro de embriagues que exalava aquele senhor, Clarice realmente acreditou naquela história. Conseguiu ver ali o que sempre quis encontrar em um relacionamento: a idéia de poder ser ela mesma um dia, ainda que fosse dois.

Esse homem sabia que sua recatada senhora nem sempre estava fazendo a salada quando descascava um pepino. Essa seria sua exata medida do amar, sem defeitos, ou preferências que coubessem na aversão. Sim, Clarice queria um homem que não lhe soltasse as mãos nem que ela se encantasse por uma beterraba.

Triste, mas de cansaço, sorriu. Sentiu uma suave alegria por saber que todos os que se foram da sua vida não pareciam nem de longe estar dispostos ao incondicional. Ao chegar a casa, tomou vinho e fumou, hábitos que sua última ilusão sempre reprovava. Com um “Salve Jorge”, brindou ao santo e lhe pediu que não matasse mais dragões, talvez fossem príncipes de mulheres como ela.


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