flow

Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Brasil, mostra sua cara

Uma recente mostra de cinema brasileiro em Barcelona (Espanha) mostrou através do filme Casa Grande discrepâncias sociais gigantes que revelam o Brasil dentro de uma mansão. Que Horas Ela Volta? vai por um caminho parecido e pode gerar um desconforto para os mais justos que beira à repugnância.


O filme Casa Grande (primeiro longa-metragem do diretor Fellipe Gamarano Barbosa) foi um dos participantes da tímida, entretanto honesta, Mostra Brasil, Visões contemporâneas, apresentada na Cinemateca da Catalunha (Barcelona, Espanha) neste mês de abril. A fita ressalta, sem levantar bandeiras com barulhentos alardes de protesto, conflitos sociais atuais e essencialmente relevantes. Um bem sucedido resumo que descreve com sutis, porém certeiros traços, altos e baixos da sociedade brasileira, que muitas vezes convivem sordidamente.

Em grandes mansões (neste caso, na barra da Tijuca, Rio de Janeiro), prevalece o abismo entre riqueza e pobreza, tão evidente e ao mesmo tempo manipulado de certa forma que ainda pode passar despercebido.

Com diálogos inteligentes marcados por pertinentes pitadas de humor, o filme narra a história de uma família de classe media alta em descenso econômico, em plena bancarrota, que luta para não transparecer suas perdas.

Nas entrelinhas, é também uma boa lição sobre o desapego. Afogado em dívidas, Hugo, o pai da família (Marcello Novaes), tenta até o último momento manter as aparências de uma vida de luxos.

casa grande 1.jpg Cena do filme Casa Grande

As diferentes realidades sociais são pinceladas durante todo o filme, que mostra os dois lados da moeda através da convivência entre a família e seus empregados. Os laços que se criam, sob uma capa dissimulada de injustiças sociais, prezam uma relação de amizade muitas vezes hipócrita, que perdoa conseqüências de um sistema de engano.

Cotas de educação

Uma lei sancionada em 2012, que gerou polemica no Brasil, permeia todo o roteiro. As Cotas Raciais para as universidades brasileiras, que destinam um 50% das vagas aos negros, causaram diferentes opiniões e mexeram com as certezas da elite, que, por suposto, não considerou justo um benefício social que considera a cor da pele requisito, como marca o roteiro do filme.

Conflitos de realidades contrastantes vêm à tona em diferentes momentos, como quando, por exemplo, o filho Jean (Thales Cavalcanti, estudante do tradicional São Bento, colégio da alta sociedade do Rio de Janeiro), começa a namorar uma doce menina de cor parda (Bruna Amaya), que defende opiniões políticas bem definidas.

Ela mostra o outro lado, o da grande maioria negra excluída há séculos dos direitos à educação de qualidade, que recebeu da lei uma forma de ajustar contas (ao menos minimamente) com um passado de poucas ou nulas oportunidades (escreve pessoa branca que também vivenciou a falta de acesso à boa educação por sua condição econômica).

Vale dizer também que nenhum dos personagens existe por acaso. Todos têm funções bem marcadas no roteiro, como a estreante Clarissa Pinheiro, a empregada doméstica da família, com participação desenhada com humor e significado.

Para europeu ver

Pode-se dizer que as pessoas menos informadas na Europa têm pouco ou nenhum conhecimento sobre a discrepância existente na educação brasileira. Alguém que sempre estudou em escola pública sabe muito bem que é bastante escasso o aprendizado obtido como para poder ser aprovado no vestibular de uma Universidade Pública ou Federal no país. Ironia do destino sem correção ainda hoje, as melhores do país. Sendo assim, aqueles que nunca puderam pagar pelo ensino médio, se vêem obrigados a conseguir vagas apenas nas faculdades particulares. De valores impossíveis quase sempre para os menos favorecidos economicamente.

Assim segue um sistema que preza pela continuidade da ignorância da massa. Desta forma, a elite pode continuar sendo servida pela dona Maria que trabalha dia e noite para poder, quem sabe, um dia dar um futuro melhor ao seu filho.

É necessário que o mundo continue aplaudindo produções como essa. Já faz muito tempo que se cita filmes como Cidade de Deus e Carandiru como referencia de cinema brasileiro na Europa. Sem querer desmerecer nenhum desses dois grandes filmes ou outros de gênero parecidos, não é possível que o Brasil continue sendo visto apenas como um país de traficantes, favelas e corrupção. Existem muitos outros problemas e vozes que devem chegar ao conhecimento geral.

Que horas ela Volta

que horas ela volta 1.jpg

Cena do filme Que horas ela Volta?

Outro filme que deveria merecer destaque na Europa (e por que não, no mundo) é o Que Horas Ela Volta? (de Anna Muylaert). Também assume a postura de defender o direito a educação e a igualdade social. O filme protagonizado por Regina Casé (que realiza uma atuação magistral, a ser reconhecida inclusive por aqueles que não são fãs da atriz), é tapa com luva de pelica nas incongruências mal tapadas da sociedade.

Talvez toque um pouco mais fundo, ao gerar muitas vezes uma sensação bastante desconfortável, como se estivéssemos vendo uma história sobre os tempos em que a escravidão ainda não havia sido abolida e uma pessoa negra, ou pobre, era considerada menos humana.

Ponha-se no seu lugar

O filme destaca o separatismo existente, a distância imposta entre patrões e empregados, um efeito do preconceito, de querer deixar claro que uns estão acima de outros. De fato, alguém que está há muito tempo vivendo fora do Brasil, poderia se perguntar: a expressão Ponha-se no seu lugar é brasileira? Porque aquela pessoa que cuidou a vida inteira do seu filho não tem direito a sentar-se à mesma mesa que ele?

Essa e outras questões são bem enfocadas no filme. O alicerce já estabelecido e aceito dentro da casa de uma família muito rica começa a balançar quando Jéssica (Camila Márdila), a filha de Val (Regina Casé) vai a visitar-la. Uma menina humilde, porém culta, mostra que não é preciso ser rica para ter inteligência. Sim, infelizmente, ainda há pensamentos bastante horripilantes que prevalecem no Brasil.

Dá alívio ver produções como essas que dão voz a necessidades de expressão que tantos ainda tentam ofuscar. É como uma luz no fim do túnel, que pode reluzir traz o atlântico.

Para constar, outros filmes que participaram da Mostra Brasil, Visões contemporâneas: A Despedida (Marcelo Galvão), A Estrada 47 (Vicente Ferraz), TIM Maia (Mauro Lima), Getúlio (João Jardim).


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Bianca Alencar
Site Meter