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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Alice, a realidade é bem diferente

O filme A Garota do Livro esbarra em questões profundas, mas prevalece na superficialidade de uma felicidade de fantasia. Entretanto, com bons olhos, pode ser aproveitado como sutil reflexão sobre os caminhos do passado sobre o presente. Entretenimento, sem nada a perder.


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Buscar nosso eu nas profundezas do passado não costuma ser tarefa fácil. Porém, poderia ser a solução de problemas do presente. Esta é a tônica máxima do filme A Garota do Livro. Sua história tem uma clara inspiração em Lolita (Ana Mulvoy-Tem interpreta a protagonista quando adolescente e revela uma explosão de sensualidade proibida) e toca, levemente, questões como a sexualidade feminina e as dependências que uma pessoa desenvolve para rebelar-se contra o passado.

Não é uma fita que promete enraizar-se na memória curta dos espectadores, como costuma fazer um filme realmente impactante, original e de emoções bem marcadas. Entretanto, é entretida e leva a uma sutil reflexão sobre os caminhos do passado no presente; calos que, se bem admitidos, evitam muitas pisadas doídas. Ou não.

O¨ ou não¨, se prevalecesse até o final, poderia fazer esse filme de Marya Cohn brilhante. Mas aqui o brilho dá lugar ao óbvio. Pena que uma grande idéia se ofusca num estilo de roteiro de um típico filme comercial americano. Engendrar-se nos níveis psiquiátricos de uma vida, aparentemente comum, fica só na intenção.

Alice (Emily VanCamp) passa certa imagem ninfomaníaca. Nada do outro mundo, que de drama mostra pouco. Dá até inveja, diriam algumas. Uma jovem bela que esquece os problemas relacionando-se com homens atrativos em casuais noites de sexo sem interesse.

É a típica loira americana bonita e trabalha em uma editora na escolha de novos talentos. Mas guarda para si sua chama como escritora, vendo-se à sombra dos homens com quem convive. Ela alimenta paixão e ódio por sua solidão. Quer estar sozinha, porque assim sempre esteve, desde criança, e é natural que se acostume com isso. Nada mais que um hábito difícil de deixar.

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Essa questão fica marcada na cena que se repete, em tempos diferentes, ela pequena e adulta. Quando chega a casa, encontra-se com ninguém. Repetição feita tal qual. As mesmas cenas, sem nenhum elemento a acrescentar. E desta forma o filme ganha alguns minutos mais.

Assim como a família de Alice a despreza na adolescência, parece que a diretora e roteirista também. Não se nota mágoa suficiente no texto sobre uma inaceitável atitude do pai de fazer vista grossa a um suposto caso de pedofilia que vitima sua filha.

O filme esbarra em questões assim de comprometedoras para depois deslizar-se por um terreno mais cômodo. Mocinha problemática conseguirá resolver tudo para ficar com seu príncipe encantado.

Quase um giro

A história ameaça intrigar quando aparece o escritor Milan Daneker (Michael Nyqvist) em fase de declínio profissional (tema nada explorado, vale dizer). Desde sua primeira aparição, se vê que ele chegou para conturbar a vida de Alice. E, neste mesmo momento, é possível suspeitar por que. Entretanto, merece alguns aplausos a representação da dualidade sentimental de Alice por ele. Ele não chega a ser um vilão, mas tampouco ascende a herói.

Quase queremos que ele seja o mocinho da história quando aparece um jovem atrativo dentro do banheiro da protagonista, com ela, no aniversário da garota. Ele é perfeito para ela, também está ali para fugir de se socializar. Assim como na vida real, o príncipe aparece na nossa casa, embrulhado pra presente.

Em meio às emoções desse novo encontro, ela deverá ser a responsável pelo lançamento da reedição do livro de Milan, objeto condutor da história.

Alice terá que enfrentar seu passado, no momento em que chega ao precipício de seu presente. Todas as peças estão desencaixadas. A crise criativa, a dificuldade de ter um relacionamento e até a amizade. Tudo pode desmoronar no momento que precede aquele em que nos damos conta que já não podemos carregar esta bagagem do que passou.

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Reconstruir para ser inteiros

Às vezes, há que chegar ao fundo do poço para reencontrar-se e fazer as pazes com o passado. É preciso ter claro o que fomos e vivemos para chegar ao momento atual e poder crescer, sem as pedras que nos amarram no caminho. É como conseguir o conjunto da obra e poder por fim ser inteiros. Porém, Alice se reconstrói muito facilmente, não é crível, em termo de elementos de roteiro, que inibem a interpretação da personagem.

Ainda que seja admirável sua postura de ser frágil sem demonstrar auto-piedade, a história carece de elementos dramáticos mais ferozes. Talvez por que isso implicaria em um roteiro mais difícil de resolver. É previsível que o final feliz virá, com os sonhos que se apresentam desde o princípio da fita sendo realizados no final. Ajuda um roteiro sinuoso, que parece querer ser suspense, mas cai facilmente nos clichês usuais em comédias românticas. Há notas claras de que tudo ficará bem.

O imprevisível seria ver um final que pudesse não trazer todas as respostas desejadas pelo público, com tanta facilidade. Ao menos na vida real, sabe-se que o passado não é algo que se possa trazer ao presente com tanta simplicidade. Apontar para esse lado faria com que o filme ficasse mais tempo na memória do público, ainda que de maneira incômoda.

Mas que bom que deixa o espectador contente por pelo menos quase duas horas de um dia qualquer de chuva, sem mais nada que fazer.


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