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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Ibizacinefest, um festival de cinema independente, em todos os sentidos

O festival espanhol mantém suas qualidades e prioridades, apesar das condições restritivas da pandemia.


cartaz.jpg Desde que o mundo vive sob as rédeas de uma pandemia, o ser humano se viu obrigado a reinventar-se em todos os sentidos. Restringiram-se as relações, as formas de trabalho e a Internet, mais que nunca, se transformou num veículo de proximidade fundamental. Além disso, a cultura também se trasladou ao virtual para poder chegar ao público, como aconteceu com muitos festivais de cinema. Enquanto alguns foram cancelados ou adiados, outros se realizam com ainda mais criatividade e força. É o caso do Ibizacinefest, Festival de Cinema Alternativo e de Autor de Ibiza, criado em 2016.

Xavi Herrero, seu diretor, está prestes a lançar a quinta edição do emblemático evento (será realizado a partir do próximo dia 26 de fevereiro até sete de março), que a cada ano reúne filmes e diretores de vários países em uma grande festa do cinema. Será apresentado pela primeira vez de maneira digital, a través da Plataforma Filmin (https://www.filmin.es/), que já contava com um canal especial para o Ibizacinefest, pós a realização do evento.

A princípio, as 88 obras selecionadas serão projetadas apenas pela internet. Os filmes estão distribuídos em sete sessões, sendo que da sessão competitiva participam 27 longas e 40 curtas-metragens. Mas caso até seu início os locais públicos possam voltar a funcionar, os filmes serão também projetados com restrições nos auditórios de Ibiza que normalmente sediam o festival.

Desde sua primeira edição, o evento é um marco cultural anual sem precedentes nesta ilha espanhola, famosa por suas praias paradisíacas e presença de grandes nomes da música eletrônica durante o verão.

Isso porque, além de ser uma referência no mundo do cine independente, ficou conhecido também por reunir amantes da sétima arte, quando público e cineastas viviam a experiência do cinema além da projeção dos filmes. Era também uma ótima desculpa para conhecer Ibiza aos que chegavam de outros países ou cidades para participar do evento.

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Sendo um marco cultural territorial, que atrai amantes do cine de todo o mundo à ilha, o diretor imaginou que talvez alguns diretores perdessem o interesse em participar. Mas não foi o que aconteceu. Herrero conta que o número de inscritos se manteve como o do ano passado (aproximadamente 1500 filmes, entre curtas e longas-metragens). Os filmes selecionados serão uma mostra da qualidade do cine independente realizada em 28 países.

Inédito, sempre

Ainda que veja mais vantagens que desvantagens em realizar o festival de forma on line, Xavi conta que encontrou algumas dificuldades na hora de preparar a programação, já que seu objetivo sempre foi priorizar filmes inéditos, além de valorizar produções independentes de alta qualidade, revestidas de um fundo temático social.

Herrero teve que arriscar-se um pouco mais ao escolher os filmes, alguns de caráter mais ousado do que usualmente costumava selecionar. Também necessitou optar por obras estreadas antes do festival. ¨A cada ano tento trazer também produções comerciais inéditas, títulos que normalmente não chegariam a Ibiza, o que foi mais difícil nesta edição ¨, explica.

Isso porque ¨como agora existem vários festivais on line, muitos filmes já estão mais que vistos¨, comenta Xavi. No entanto, ele garante que na seleção competitiva são todos inéditos. Ademais, ¨foi preciso pensar em um público global, já que o festival será projetado em toda Espanha através de Filmin¨, completa o diretor.

Maior alcance de público

Sem embargo, ele vê de maneira mais positiva que negativa esta possibilidade de o festival ser projetado em toda a Espanha. Se a última edição foi um verdadeiro êxito de público, com dois mil espectadores, o diretor acredita que este número pode inclusive multiplicar-se por 100 vezes neste ano, o que poderá aumentar muito o reconhecimento do festival. ¨O que opinarão as instituições que apoiam o evento, se seus logos são vistos 50 mil vezes?¨, indaga.

Ainda que se perca, por ora, a possibilidade de ver os filmes em tela grande, diretores e público também têm muito a ganhar com este formato. Segundo ele, as obras poderão chegar a um número maior de pessoas, dando também mais visibilidade comercial aos filmes participantes, já que poderão ser vistos por várias distribuidoras.

Aliás, incentivar a produção cinematográfica é outra marca fundamental do festival. Além de contar com uma distribuidora apoiadora (ConUnPack), dedicada a descobrir e impulsionar novos projetos, este ano, o festival investe na realização de roteiros que ainda não foram filmados. Foram selecionados 12 histórias de curtas-metragens que concorrem a um prêmio de mil euros para realizarem suas obras. ¨Para mim, um festival moderno tem que ser pensado para a indústria, em ser útil além da projeção de filmes ¨, comenta.

Por isso, sendo também um cineasta, ele agradece aos festivais que se mantiveram. ¨A pior coisa que pode acontecer a um diretor é que seu filme não seja projetado¨, diz Xavi, que dirigiu nos últimos cinco anos 6 longas e 3 curtas, entre ficção e documentários. Seu último filme lançado, Salka, na Terra de Ninguém, que participou de 14 festivais, esteve pré-selecionado para participar do festival de Cannes, que não aconteceu no ano passado.

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Cinema de encontro

Por outro lado, ele não nega a lacuna que se notará no evento de seu caráter mais romântico, feito da presença humana. ¨Acredito que nós, os criadores de festivais, somos os que mais temos que defender esta característica, a de manter este encontro entre cineastas e público. O que não quer dizer que devemos encerrar-nos em uma ideia que claramente se acaba, de momento, e desprezar as vantagens do novo. O bonito é adaptar-se às duas coisas¨, conclui.

Ele acredita também que não se perderá, neste novo formato, a relação com Ibiza implícita no festival. Herrero diz que sua seleção de filmes continua a apostar por obras de cineastas locais e internacionais gravadas na ilha. Além disso, graças ao patrocínio público e turístico, cada filme projetado será precedido por uma publicidade com imagens locais. ¨A essência do Ibizacinefest não tem nada a ver com o meio por onde será projetado¨, conclui.

O evento será estreado por El Buzo, um longa-metragem dirigido pelo austríaco Günter Schwaiger e protagonizado por Alex Brendemühl. Ademais, participarão ao menos seis obras produzidas e realizadas nas Ilhas Baleares, valorizando a produção local. E também, como nas edições anteriores, o clipe de apresentação do festival foi realizado por Herrero na ilha.

¨Devemos esperar o melhor e preparar-se para o pior¨

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Com tudo isso dito, Xavi se mostra despreocupado em relação a realizar um festival nesta nova realidade. ¨Eu sou marinheiro (Xavi mora no seu barco) e existem muitos ditados para navegantes que se aplicam muito bem em terra. Quando estamos no mar, não devemos nos preocupar com as mudanças do tempo, porque não dependem de nós e sim da natureza. Como vou me antecipar a um futuro, já que convivemos com um vírus que ninguém controla? É claro que prefiro o presencial, sempre que possível, mas se agora não existe esta possibilidade, temos que sacar vantagem como podemos desta situação¨, acredita.

E, quando for possível voltar ao presencial, se realizará, de acordo com as necessidades do momento, acredita. ¨Ainda que os televisores estejam cada vez mais sofisticados, temos que defender a experiência de ir ao cine¨, diz. O festival também poderá ser projetado em diferentes momentos durante todo este ano, já que, por enquanto, não se realizará nas salas de cinema.

Ainda que muitas pessoas tenham visto em casa os filmes, ele acredita que seja muito possível que queiram apreciá-los também na tela grande, como bem manda a tradição da sétima arte.

Um cinema de futuro incerto

Xavi acredita que ainda é muito cedo para prever como será a produção do cinema a partir de agora. Entretanto, ele já nota a necessidade de muitos cineastas em se expressar neste sentido. Porém, como tudo que ainda não sabe que caminho seguir, o que se apresenta é muito confuso e sem qualidade definida. Ele conta ter recebido muitos filmes realizados durante o confinamento, mas que pouca coisa se aproveita, ainda que tenha encontrado algumas realizações muito interessantes.

Como exemplo de boas surpresas, ele destaca duas produções feitas nas Ilhas Baleares. ¨Jaume Carrió e Laura Gost, premiados por um Goya em 2018, fizeram um filme com um celular que está maravilhoso¨, comenta Xavi, sobre o Aquells que hauríen d´haver anat a París (Aqueles que deveriam haver ido a Paris). Trata-se de um curta-metragem inspirado no cancelamento de uma viagem à cidade da França que o casal de cineastas previa fazer na última Semana Santa.

Outro filme feito durante o confinamento que chamou a atenção de Xavi foi um curta-metragem de Guillem Miró, um falso documentário, titulado Avistament 1978, onde o realizador se encontra com sua família em Google Maps.

Assim que, como sempre aconteceu, o cinema ainda reflete a realidade, às vezes asfixiante, um espelho necessário da angústia humana. Além disso, todas as formas de arte se fazem mais que necessárias atualmente. ¨O que seria de nós sem a cultura neste momento, sem poder escutar música, ver filmes? Não poderíamos seguir¨, conclui Xavi.


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