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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

Real e surreal de mãos dadas

Human?, novo documentário do diretor Xavi Herrero, é um espelho do absurdo cotidiano em que vivemos.


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Pergunto ao diretor e produtor de cinema catalão Xavi Herrero como se chamaria um filme seu sobre tempos de pandemia. Ele, que já dirigiu seis longas e três curtas, ri e diz que jamais faria uma obra sobre o confinamento. Entretanto, seu novo documentário, Human?, nada mais é que um retrato artístico fiel da nossa realidade mundial atual, marcada principalmente pelas restrições pandêmicas e o absurdo que nos impõe.

O filme passeia pelo Festival Internacional de Performance Art Territori (curadoria da artista Isa Sanz), evento que aconteceu em setembro de 2020, em Ibiza, durante um verão europeu atípico, com poucos turistas na famosa ilha, que a esta época do ano geralmente transborda de gente.

Em anos anteriores, neste mês, os locais mais badalados ali eram as discotecas ou praias cheias de música. Desta vez, o público presente no festival, formado por turistas e residentes, foi levado a uma experiência inédita e única, adaptada aos tempos onde nada parece normal.

As diversas expressões artísticas destacadas no filme, em sua maioria, refletiam e reverberavam sobre uma realidade asfixiante, sem sentido, que sob o foco da lente de Herrero, ganharam os típicos tons surrealistas que marcam seu estilo.

Ainda que nem todas as intervenções artísticas dialogassem diretamente com a pandemia, no geral espelhavam a angústia e todas as emoções cotidianas típicas presentes nestes esquisitos novos tempos.

Se em outras obras de Herrero, como R.E.M., o tom surrealista era conduzido por uma viagem ao mundo onírico, agora é o mundo real, acordado, que inspira o surreal.

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Entre vida e morte, terra e homem

Expressando o inadequado que pode ser viver sob uma constante incerteza, Herrero desfoca sua câmera em diversas cenas, o que se pode interpretar como uma metáfora sobre um momento de miopia social. Nada se vê com claridade: não há como prever o futuro e apenas é possível conviver com a confusão do agora.

A vida é sem respostas e angustiante em Human?, fazendo jus ao próprio título. É o que se vê desde sua primeira cena, com a performance Adama, quando seus participantes realizam a experiência do enterro.

Os artistas se fundem e interagem com a terra, durante horas; até depois que tons de rosa formam o entardecer no céu de Ibiza, um dos belos cenários naturais do filme que favorecem sua fotografia acertada.

O peso da realidade

Em outras cenas do documentário, os artistas contracenam com objetos que simbolizam esta tristeza e pesar, que se pode perceber atualmente. Em Conversaciones, por exemplo, a artista Ana Matey interage com um pano negro e o sal de Ibiza (típico produto local). Ao arrastar, com grande esforço o tecido, carregado de sal, sua face é o retrato da própria amargura, assim como a do público que a assiste. Embora todos estejam de máscara, fica claro por seus olhares que sorrisos não escondem.

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Em outro momento de sua participação no festival artístico destacado no documentário, Ana utiliza o gelo, que se derrete sobre sua cara (de visível tristeza), pouco a pouco. E, ainda que as performances sejam independentes, em Human? se apresentam em uma sequência coerente, as vezes através de detalhes similares que unem uma obra a outra.

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O gelo inevitavelmente se derrete

Na atuação do artista Ricardo Matlakas, por exemplo, que vemos à continuação da apresentação de Ana, também está presente este peso nos pés, este arrastar-se com sofrimento.

O artista caminha lentamente dentro de um pequeno círculo de terra, em plena orla marítima, suportando com visível esforço um aparato sobre sua cabeça. Desta pequena estante, jorram gotas de gelo que se derrete pouco a pouco.

Sua proposta é ressaltar os desastres naturais causados pela ação do homem que não poderão ser evitados. E cada gota, segundo ele, ¨é um golpe de consciência sobre o que vivemos atualmente¨.

Onde você se encaixa

Outro trabalho que revela novidades estranhas inerentes ao novo tempo realizado durante Territori e registrado por Herrero é o da artista mallorquina Aina Genovés.

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Em You cant sit with us, é possível interpretar que é preciso ser criativo, em um espaço limitado, para conseguir sentir-se confortável, talvez dentro de uma realidade desconfortável.

Ela interage o tempo todo com uma cadeira, mostrando diferentes maneiras de sentar-se nela.

E a vida demanda muita criatividade hoje em dia, não somente para estar só em um espaço limitado, mas também para manter o contato com outras pessoas, dentro de todas as limitações impostas.

Assim como o imaginário também se mostra uma necessidade de comunicação. Abrazos, trabalho da artista Irene Pascual, reflete sobre o distanciamento social, dando um toque de humor ao filme.

Durante sua aparição no documentário, em uma porta de vidro, vemos o cartaz, ¨Safe Kiss¨ onde o público participa, mostrando sorrisos, beijando o cristal. Intimidade física e emocional marcam sua obra e os temas que não querem calar na atualidade.

Loucuras de um sábado de manhã

Mas dentro de tanto desconforto e inconformismo, Human? também mostra que ainda há espaço para sorrir inclusive da própria loucura. Esta é a sensação que provoca a intervenção de nove artistas da Juan Gallery no mercado de Sant Jordi (famoso mercadinho de artesanato e produtos de segunda mão de Ibiza) durante o festival.

Nas sequências do filme que retratam a intervenção, se nota como, ainda que realizadas separadamente, suas diferentes expressões acontecem paralelamente, causando várias reações no público que por ali passeia. Trata-se do surreal invadindo um cotidiano e familiar sábado de manhã.

Enquanto uma mulher nua denuncia a violência de gênero, outra, vestida angelicamente de branco canta música lírica; ao mesmo tempo, um casal escuta e dança música pop dentro de um carro. Cada um em seu mundo, separados, porém conectados, indefectivelmente. E qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Aliás, além de ser um documentário sobre um festival de arte, Human? também reflete o conceito cinematográfico defendido pelo diretor Xavi Herrero, onde realidade e ficção caminham juntas.

Em sua quinta edição do Ibizacinefest, festival realizado e dirigido por ele que se realizará de 26 de fevereiro a sete de março deste ano, quando acontecerá a pré-estreia Human?, obras fictícias e documentários se misturam. ¨Pela primeira vez, este ano não fazemos esta divisão. Os filmes se separam por sessões temáticas ¨, explica Xavi.

Segundo ele, hoje os documentários jogam com a interpretação encenada, como existem ficções que documentam uma realidade. Assim como a vida mesma.


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