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Porque uma menina dança ao ritmo da água na sua cabeça.

Bianca Alencar

O tempo na vida de uma mulher em dois filmes

O documentário espanhol Enero e o multipremiado curta-metragem brasileiro Carne, destaques da programação do IbizaCinefest, festival realizado em Ibiza, na Espanha, são um retrato da arte de ser mulher em todas as etapas da vida


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Uma das grandes vantagens de participar como espectador de um festival de cinema on line é poder fazer uma programação personalizada. A tarefa de escolher os títulos pode ser divertida e trazer gratas surpresas. Foi o que constatei ao encontrar-me com meus primeiros filmes vistos durante Ibizacinefest, o badalado festival de cinema independente de Ibiza, que em sua quinta edição foi projetado em toda Espanha, devido às restrições da pandemia, através da plataforma Filmin (https://www.filmin.es/festival/ibizacinefest).

Entre seus 88 filmes, seleção criteriosa do diretor Xavi Herrero que passeia pelo melhor do cinema independente mundial, elegi ver na sequência Enero (Janeiro, documentário espanhol) y Carne (curta-metragem brasileiro), que, casualmente, se complementam.

Confesso que comecei a ver Enero sem muitas expectativas. Entretanto, a obra me tocou profundamente, especialmente por sua delicadeza. O documentário de Ione Atenea (duas vezes premiado na Espanha: Melhor Obra Prima, Festival de Gijón e Melhor Documentário, Festival Feroz) fala sobre o envelhecer e a proximidade da morte, através do cotidiano e das reflexões existenciais de suas avós.

Com toda simplicidade do mundo, poucos recursos e uma câmera muitas vezes trêmula (que pode sugerir um amadorismo aparentemente intencional), a diretora capta sutilizas profundas da existência a partir do universo feminino dessas senhoras octogenárias.

Com sábia sensibilidade, ela leva o espectador a colocar-se na realidade destas mulheres, de vidas marcadas nos seus rostos enrugados, mãos frágeis e corpos que sustentam movimentos calculados.

O filme também nos transporta às suas vivencias através dos detalhes das casas, carregados de histórias, de vidas de mulheres que amaram e foram amadas e, que quando logo abandonem este mundo, deixarão suas raízes e objetos.

Em planos congelados, a diretora acompanha suas personagens, em seus pensamentos, que podem ser intuídos em olhares nostálgicos que parecem transportar-se a décadas atrás. Quando estas avós caminham por suas casas, podemos captar a sensação delas nesta rotina em que hoje vivem apenas com suas lembranças, nestes lugares que foram lares, hoje habitados por quadros, fotos e bibelôs.

Desta forma, pouco a pouco a diretora te leva a aqueles ambientes marcados pelos anos.

Qual o ponto da carne?

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Este passar do tempo na vida de uma mulher também conduz o curta-metragem Carne, que estava na minha lista prioritária do festival. Claramente, com certo orgulho patriótico e feminista, por ser uma obra de uma brasileira, falando sobre mulheres e que foi escolhido para este importante evento espanhol.

O multipremiado documentário de animação, dirigido por Camila Kater e produzido por Chelo Loureiro e Livia Pérez (recentemente foi congratulado no Festival de Locarno e já acumula mais de 70 prêmios) é uma inovadora experiência cinematográfica.

O filme mostra uma realidade crua, dura e nua, através de vozes de mulheres bem reais (que têm suas identidades protegidas). Além disso, induz a uma viagem sensitiva, por meio da sua animação bem realizada, de uma alusiva estética carregada de vermelho.

Em uma acertada metáfora com a palavra carne, aqui cinco brasileiras contam suas diferentes vivencias, da infância até a menopausa. As personagens retratam em seus relatos como o corpo feminino está sempre em exposição, como quando é objeto de críticas ou de comentários invasivos sobre sua sensualidade.

Elas não têm nada de muito belo a contar: suas histórias indicam que seus corpos (quer se encaixem em um padrão estético de beleza ou não) são, muitas vezes, uma prisão e que é apenas na menopausa que se encontra a libertação. Neste momento quando o efêmero da matéria fica mais evidente e os julgamentos alheios já não existem, ou não têm força para incomodar.

Em Enero, também se encontra esta reflexão sobre a paz que só chega na velhice. Quando Ione pergunta a avó se a vida era melhor na juventude, ela responde que não, que agora é mais sábia e tranquila e é quando melhor se sente, comenta, com ares de missão cumprida.

E, com estes dois filmes, também senti que tinha cumprido meu objetivo neste primeiro dia de Ibizacinefest. Não poderiam ter sido melhores escolhas. Todas as idades de uma mulher, em dois filmes. Foi uma estreia bem completa.


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