folhetim

Leituras e literaturas, salpicadas de música e poesia, submersas em crítica e opinião.

Alexia G. Alves

Ler, reler, revisar, emocionar, escrever, chorar, rir: vida minha!

Impressões de Buenos Aires: leitores

Há quem pense ler não pode mudar nada. Ler pode melhorar e mudar tudo o que você é.


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Um voo tranquilo de pouso leve, ao pisar em solo argentino, uma sensação de ansiedade infantil. Uma cidade turística que guarda o glamour de uma época já distante, um povo misto de orgulho inflado.

Acreditar que o ser humano é capaz de tudo faz com que poucas coisas sejam surpreendentes, mas ver uma realidade positiva oposta a que se foi criada gera uma pontinha de inveja e de tristeza. Viajar sempre desperta o viajante para um novo mundo e novos jeitos de ver o mundo: todo conhecimento transforma o ser humano.

Muitos pontos turísticos, um clima diferente, um país em crise. Assim é Buenos Aires, muitas coisas chamam atenção e muitas outras mostram a tristeza de uma cidade que estava acostumada com seus anos de ouro.

Andar pelas ruas dessa ambígua cidade desperta muitos sentimentos: vários fumantes com pressa, com rugas, expressão perturbada; muitos turistas olham para cima admirando as belas obras arquitetônicas com sorrisos marcados no rosto; alguns dormem na rua, jogados como entulhos que atrapalham a paisagem; outros sorriem para a câmera que dispara freneticamente por tudo que acha que precisa levar para casa.

A crise em cidades turísticas torna tudo ambíguo, inverte valores e castiga os moradores. Apesar da dura realidade de uma administração duvidosa, muito dos anos bons foi preservado. O que mais chamou minha atenção foi ver uma população leitora, que aproveita seu tempo de folga ou de aposentadoria ou mesmo de miséria para ler, seja um jornal recheado das penosas notícias ou um romance, num banco de uma das belas e ostentosas praças, num parque com a amada, no cemitério da Recoleta, na agitada Galeria Pacífico...

Em Buenos Aires, ler é algo tão corriqueiro quanto tomar um copo d’água. Aliás, para quem está acostumado com abundância de água de significativa qualidade, a água argentina causa estranheza não só em relação ao sabor, mas também em relação ao preço: que muitas vezes é superior ao preço de um livro.

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A cultura de um povo aliada a um preço interessante transforma e mantém a população informada, criativa e pouco maleável a manobras do governo. Uma semana já é o suficiente para entender quão íntima é a relação da leitura de um povo e um mau governo: protestos diários, indignação e muita nostalgia.

Um voo tranquilo de pouso não suave. Uma sensação de lar doce lar, uma pontinha de saudade, um coração manchado de azul claro e o branco com grande alegria de um sol amarelo, uma pessoa diferente.


Alexia G. Alves

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